Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

12 de julho de 2012

Bem-aventurados os pacíficos!




" Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus [Mat. 5,9]. A perfeição reside na paz, em que não há resistência nenhuma. Por isto são pacíficos os filhos de Deus, porque em Deus nada resiste, e os filhos devem ser semelhantes ao pai. São pacíficos com sigo mesmos os que, ordenando todos os movimentos da alma e submetendo-os à razão, isto é, à mente e ao espírito, e tendo domadas as concupiscências da carne, se transformam em reino de Deus, onde tudo está ordenado de modo que o que é o principal e excelente no homem seja o que domine, sem oposição de tudo quanto temos em comum com os animais, e onde isto mesmo que prevalece no homem, a saber, a mente e a razão, está por seu turno submetido ao que lhe é superior, que é a própria verdade, o Filho unigênito de Deus.


Pois não pode mandar nos inferiores aquele que não se submete ao superior. E é esta a paz que se dá na terra aos homens de boa vontade [Luc. 2,14]; esta, a vida do sábio perfeito e consumado. De tão ordenado e pacífico reino foi lançado fora o príncipe deste século, que domina os perversos e desordenados. Composta interiormente e afirmada aquela paz, por mais perseguições que trame de fora o que fora foi lançado, não fará senão aumentar a glória que é conforme a Deus, sem derrubar nada daquele edifício nem conseguir, ao malograr nas suas maquinações, nada mais que patentear a grandíssima firmeza que há lá dentro. Donde se segue que são bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus [Mat. 5,10]."




Trecho do livro "Sobre o Sermão do Senhor na Montanha" - Santo Agostinho.

24 de janeiro de 2012

Do sofrer os defeitos dos outros

LIVRO PRIMEIRO
Avisos úteis para a vida espiritual

Cap. 16. Do sofrer os defeitos dos outros, 51

  1. Aquilo que o homem não pode emendar em si mesmo ou nos demais, deve ele tolerar com paciência, até que Deus disponha de outro modo. Considera que talvez seja melhor assim, para provar tua paciência, sem a qual não têm grande valor nossos méritos. Todavia, convém, nesses embaraços, pedir a Deus que te auxilie, para que os possas levar com seriedade.

  2. Se alguém, com uma ou duas advertências, não se emendar, não contendas com ele; mas encomenda tudo a Deus pra que seja feita a sua vontade, e seja ele honrado em todos os seus servos, pois sabe tirar bem do mal. Procura sofrer com paciência os defeitos e quaisquer imperfeições dos outros, pois tens também muitas que os outros têm de aturar. Se não te podes modificar como desejas, como pretendes ajeitar os outros à medida de teus desejos? Muito desejamos que os outros sejam perfeitos, e nem por isso emendamos as nossas faltas.

  3. Queremos que os outros sejam corrigidos com rigor, e nós não queremos ser repreendidos. Estranhamos a larga liberdade dos outros, e não queremos sofrer recusa alguma. Queremos que os outros sejam apertados por estatutos e não toleramos nenhum constrangimento que nos coíba. Donde claramente se vê quão raras vezes tratamos o próximo como a nós mesmos. Se todos fossem perfeitos, que teríamos então de sofrer nós mesmos por amor de Deus?

  4. Ora, Deus assim o dispôs para que aprendamos a carregar uns o fardo dos outros; porque ninguém há sem defeito; ninguém sem carga; ninguém com força e juízo bastante para si; mas cumpre que uns aos outros nos suportemos, consolemos, auxiliemos, instruamos e aconselhemos. Quanta virtude cada um possui, melhor se manifesta na ocasião da adversidade; pois as ocasiões não fazem o homem fraco, mas revelam o que ele é.

Livro: Imitação de Cristo
Autor: Tomás De Kempis
Edição: 36ª
Editora: Vozes

24 de novembro de 2011

Qual é o verdadeiro sentido da História?


Há por acaso um sentido da História?

Toda a História tem por centro uma pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo, porque como diz São Paulo (Nele foram fundadas todas as coisas, as dos céus e as que estão sobre a terra, às visíveis e as invisíveis, sejam tronos, dominações, principados ou potestades. Tudo foi criado por Ele e nEle, e Ele é antes de todas as coisas nEle todas subsistem. Ele é a cabeça do corpo da Igreja, sendo Ele mesmo o princípio (...) para que em tudo tenha o primeiro lugar. Deus quis que toda a plenitude habitasse nEle, e por meio dEle reconciliar todas as coisas tanto as da terra como as do céu, trazendo a paz mediante o Sangue de sua Cruz – Col. I, 17-21).

Jesus Cristo é portanto o pólo da História. A História tem somente uma lei: “É necessário que Ele reine” (I Cor. 15 25). Se Ele reina, reinam também o verdadeiro progresso e a prosperidade, que são bens muito mais espirituais que materiais. Se Ele não reina, vem a decadência, a caducidade, a escravidão em todas as formas, o reino do mal. É o que profetiza a Sagrada Escritura: “Porque a nação e o reino que não Te servem perecerão, estas nações serão completamente destruídas (Isaías 60, 12).

(...)

Eis a resposta à pergunta: Qual é o sentido da História?

A História não tem nenhum sentido, nenhuma direção imanente. Não existe o sentido da História. O que há, é um fim da História, um fim transcendente: a recapitulação de todas as coisas em Cristo; é a submissão de toda ordem temporal à Sua Obra Redentora; é o domínio da Igreja Militante sobre a cidade temporal que se prepara  para o reino eterno da Igreja Triunfante no céu.

A Fé afirma e os fatos o demonstram que a História tem um primeiro pólo: a Encarnação, a Cruz, Pentecostes; ela teve seu completo desenvolvimento na cidade católica, quer seja no império de Carlos Magno ou na República de Garcia Moreno; e terminará, chegará a seu pólo final quando o número de eleitos se completar, depois do tempo da grande apostasia (2 Tess.II, 3); não estamos vivendo este tempo?

Fonte: Do Liberalismo à Apostasia ( Cap. XX, pág. 153, 154)
Foto: Blog Servos de Cristo Sacerdote.


24 de setembro de 2011

A missa sacrílega - Parte III



O pecado de escândalo

Nos tempos antigos, inventou o demônio deuses fantásticos, entregues a todos os vícios, e empenhou todos os meios para os fazer adorar, a fim de que os homens, perdendo até o horror aos crimes de que as divindades lhes davam exemplo, cressem que lhes era permitido pecar à vontade. Assim confessa o pagão Sêneca, nestes termos: “Por estas invenções, chegou-se a destruir nos homens a vergonha de pecar”533. Não será fomentar os vícios e atribuí-los aos deuses, e desculpar-se do mal como o exemplo da divindade? 534 Imersos em tal cegueira, os desgraçados pagãos, como se vê no mesmo filósofo, diziam:

“O que os deuses fizeram sem vergonha, hão de corar os homens de o fazer?”535


Ora, o que o demônio conseguiu dos pagãos, por meio dessas falsas divindades, que lhes propunha por modelos, hoje o consegue dos cristãos por meio de padres prevaricadores, cujos escândalos persuadem aos pobres seculares, que lhes é permitido, que lhes é permitido, ou pelo menos que não é grande mal para eles, fazerem o que vêem fazer aos seus pastores; é o que nota S. Gregório536. Colocou Deus os padres na terra para servirem de modelos aos outros, do mesmo modo que o nosso Salvador foi enviado por seu Pai para ser o exemplar de todos: Conforme o meu Pai me enviou, assim eu vos envio a vós537. Por isso S. Jerônimo escrevia a um bispo — que evitasse tudo quanto fosse capaz de induzir a pecado os que quisessem imitá-lo538.

Não consiste o pecado de escândalo só em aconselhar diretamente o mal aos outros, mas em levar o próximo a pecar, dum modo indireto, pelo exemplo da própria conduta. “Uma palavra ou ação, mais ou menos repreensível, e que é para o próximo ocasião de ruína espiritual”539, dá escândalo. É assim que se define geralmente o escândalo, segundo Santo Tomás.

E, para se conhecer quanto é grande a malícia do escândalo, basta recordar o que dele diz S. Paulo: que o que ofende o seu irmão, fazendo-o cair em pecado, ofende o próprio Jesus Cristo540. S. Bernardo dá esta razão: que o escandaloso faz perder a Jesus Cristo as almas, resgatadas a preço do seu sangue; e acrescenta que o Salvador sofre uma perseguição mais cruel da parte dos escandalosos, do que da parte dos algozes que o crucificaram541.

Mas se o escândalo é tão abominável mesmo nos seculares, quanto mais o não será no padre, que Deus estabeleceu na terra para salvar as almas e conduzi-las o para o céu! O padre é chamado o sal da terra542. É próprio do sal conservar as coisas: assim o padre é destinado a manter as almas na graça de Deus. Em que se tornarão os outros homens, pergunta Sto. Agostinho, se os padres não produzirem sobre eles o efeito do sal? Então, prossegue ele, esse sal só será bom para ser lançado fora da Igreja e calcado aos pés, por todos os transeuntes543. E, se o sal em vez de conservar não fizesse senão corromper, quero dizer, se o padre, em vez de salvar as almas, só trabalha em as perder, que castigo não chama sobre si! Também o padre é luz do mundo544. Donde S. João Crisóstomo conclui que o padre deve ter uma vida tão radiante de virtudes, que possa alumiar os outros e servirlhes de modelo545. Mas se esta luz se muda em trevas, em que se tornará o mundo? Só servirá para precipitar na ruína o mesmo mundo, como diz S. Gregório546. No mesmo sentido escreveu este grande papa aos bispos de França, exortando-os a castigar os padres escandalosos547. É a palavra do profeta Oséias: Tal padre tal povo548. E pela boca de Jeremias se exprime o Senhor assim: Hei de encher de favores a alma dos meus sacerdotes, e o meu povo será enriquecido dos meus benefícios549. Por isso mesmo dizia S. Carlos Borromeu que, se os padres forem ricos e fecundos em virtudes, também ricos serão os povos; mas, se os sacerdotes forem pobres, bem miseráveis serão os povos550.

Conta Tomás de Cantimpré que um eclesiástico que pregara em Paris, em presença do clero, fôra encarregado pelo demônio de saudar os príncipes da Igreja, e dar-lhe os agradecimentos, da parte dos príncipes do inferno, pelas muitas almas que deixavam perder551. É precisamente do que o Senhor se lamenta pela boca de Jeremias: O meu povo não é mais que um rebanho perdido; os pastores seduziram as suas ovelhas: = Grex perditus factus est populus meus; pastores eorum seduxerunt eos (Jer. 50, 6). É inevitável, diz S. Gregório: quando o pastor caminha para o precipício, as ovelhas vão com ele552. O mau exemplo dos padres, diz também S. Bernardo, necessariamente arrasta o povo à depravação553. Se um leigo, acrescenta ele, se transvia do reto caminho, perder-se-á ele só; mas, se um padre se desgarrar, causará a perdição duma multidão de almas, sobretudo das que lhe estiverem sujeitas554.

Mandou o Senhor, no Levítico, que se imolasse um novilho pelo pecado dum só sacerdote, como pelos pecados de todo o povo; donde Inocêncio III deduz que o pecado do padre pesa tanto como os pecados de todo o povo, e a razão que dá é que o padre, pecando, arrasta ao pecado todo o povo555. Foi o que o próprio Deus declarou no Levítico: Se o sacerdote que recebeu a unção santa vier a pecar, fazendo pecar o povo556... Assim Sto. Agostinho dizia, dirigindo-se aos padres: Não fecheis o Céu aos fiéis; de fato lho fechais, desde que lhes deis o exemplo duma má vida557. Um dia dizia o Senhor a Sta. Brígida, que os pecadores, à vista dos maus exemplos dos padres, se animavam a praticar o mal, e chegavam até a gloriar-se dos vícios, que antes os faziam corar. Assim, o Senhor ajunta que os padres maus serão carregados de maldições, muito mais terríveis que os outros homens, porque a sua má vida, é a ruína deles e também a dos outros558.

À vista duma árvore cujas folhas se mostram amarelentas e murchas, diz o autor da Obra imperfeita, logo se compreende que ela sofre nas raízes; do mesmo modo quando se vê um povo corrompido, pode-se concluir, sem receio de proferir um juízo temerário, que é entre os seus sacerdotes que reina o mal559. Com efeito, ajunta ele, a vida dos padres é a raiz que comunica a seiva das virtudes aos fiéis, que são coo os ramos a respeito da árvore. No mesmo sentido, diz Sto. Ambrósio, que os padres são a cabeça, donde os espíritos vitais se difundem em todos os membros, que são os seculares560. E lê-se em Isaías: Toda a cabeça está esvaecida... Da planta dos pés ao alto da cabeça nada há nela de são561. Palavras que Sto. Isidoro aplica assim ao nosso assunto: A cabeça enfraquecida é o doutor que se entrega ao pecado; o seu mal comunica-se ao corpo562. Do mesmo modo lamenta S. Leão esta desordem e diz que não pode haver saúde no corpo quando não a há na cabeça563.

Santo Ambrósio, servindo-se doutra figura, pergunta: Quem procurará uma fonte de água cristalina no meio de um lamaçal? Por outras palavras, olharia eu como idôneo para me dar conselhos quem não soubesse aconselhar-se a si próprio?564 Diz Plutarco565 que a corrupção dos príncipes é como um veneno lançado, não numa taça, mas numa fonte, onde todos venham colher e beber água que os há de envenenar. O que tem aplicação ainda mais aos padres; por isso Eugênio III disse que os pecados dos inferiores se devem atribuir de preferência aos maus superiores566.

Aos sacerdotes chama S. Gregório — Patres christianorum567. É o título que lhes dá também S. João Crisóstomo, que afirma que o padre, na sua qualidade de vigário de Deus, é obrigado a tomar cuidado de todos os homens, visto que é pai do mundo inteiro568. Assim como um pai se torna duplamente culpado, quando dá mau exemplo a seus filhos, também o padre dalgum modo comete dois pecados, quando escandaliza os simples fiéis. Que fará o leigo, pergunta Pedro de Blois, senão o que vir fazer ao seu pai espiritual? 569. É precisamente o que S. Jerônimo escrevia a um bispo: Os outros acreditarão que devem fazer quanto virem que vós fazeis570. E, conforme nota S. Cesário, ao seguirem os maus exemplos dos eclesiásticos, os leigos desculpam-se dizendo: Não fazem a mesma coisa os eclesiásticos mais graduados? 571 Santo Agostinho põe a mesma linguagem na língua dum homem do mundo: O que é que me mandais? Nem os padres fazem isso, e vós quereis que eu o faça?572 Quando os padres, diz S. Gregório, em vez do bom exemplo, dão escândalo, fazem de algum modo que o pecado deixe de ser aborrecido e inspire horror573.

Tais sacerdotes pois são ao mesmo tempo pais e parricidas, visto que são a causa da morte de seus filhos. Disto se lamentava S. Gregório: “Vêde donde partem os dardos, que semeiam a morte nas fileiras do povo; — qual a causa de tantos males senão os nossos pecados? Sim, damos a morte ao povo, nós que devíamos ser os seus guias nos caminhos da vida574”.

Dirão talvez alguns na sua cegueira: Que me importam os pecados dos outros? — Digam lá o que quiserem, mas escutem o que escreveu S. Jerônimo575: “Se disserdes: ‘Basta-me a minha consciência; não me importo com o que disserem’, escutai o que vos responde o Apóstolo: Devemos aplicar-vos a praticar o bem, não só diante de Deus, mas também diante dos homens576”. Nota S. Bernardo que os padres escandalosos dão a morte aos outros, dando-a a si próprios577. E noutra parte acrescenta que não há peste mais funesta aos povos, que a ignorância e a corrupção unidas nos padres578. Ajunta ainda noutro lugar que muitos padres são católicos na sua pregação, mas hereges nos seus costumes; porque fazem muito maior mal com os seus maus exemplos, que os hereges, ensinando o erro: têm as obras mais força que as palavras579. Segundo Sêneca, para cair no vício, como para chegar à virtude, é longo o caminho do ensino, ao passo que o do exemplo é curto e eficaz580. O que fez dizer a Sto. Agostinho, falando especialmente da castidade dos sacerdotes: A todos é indispensável a castidade, mas especialmente aos ministros do altar de Jesus Cristo, porque a sua vida deve ser uma pregação contínua para os outros581. Como pregar a castidade, quando se é escravo da impudicícia? Tal é a reflexão de S. Pedro Damião582. O estado em que se acha constituído, o hábito que veste, tudo nele diz S. Jerônimo, reclama e exige a santidade583. Que escândalo não será pois na Igreja, segundo nota S. Gregório, ver aquele que é honrado, com um nome e caráter sagrados, dar o exemplo do vício!584 E que desordem ainda mais horrível, acrescenta Sto. Isodoro de Pelusa, ver um sacerdote servir-se da sua dignidade como de uma arma para ofender a Deus!585 Segundo a palavra de Ezequiel, um tal padre torna abominável a nobreza do seu estado586. Diz S.
Bernardo que os padres que não dão bom exemplo são a fábula de todo o mundo587. É já uma grande desordem que os padres vivam à maneira das pessoas do mundo, observa o autor da Obra imperfeita, mas o que será se a sua conduta for pior que a dos mundanos?588

E que exemplo pode o povo receber de vós, pergunta Sto. Ambrósio, se em vós nota certas ações que o fazem envergonhar, devendo olhar-vos como santos?589

Lê-se no profeta Oséias: Ouvi isto, ó sacerdotes... visto que se trata de culpa vossa, porque vos tornastes como um laço e uma rede estendida para caçar aves590. Para atrair as aves aos seus laços, serve-se o caçador do chamariz doutras aves, que retém presas no lugar em que preparou as armadilhas. O mesmo faz o demônio: serve-se dos escandalosos para atrair os outros aos seus laços. Desde que uma alma se deixa cair, diz Sto. Efrém, serve-se dela para seduzir outras591. É dos escandalosos que se queixa o Senhor pela boca de Jeremias, quando diz: Há no meu povo ímpios que, à semelhança do passareiro, armam emboscadas e estendem laços traiçoeiros para caçarem os homens592. Mas os que os demônios buscam com mais empenho e escolhem de preferência, para chamariz nesta caça, são os padres escandalosos, diz S. Cesário593, o qual explica como é que os demônios se servem deles: Fazem como os passareiros que, tendo tomado algumas pombas, as tornam cegas e surdas, para que as outras pombas se aproximem delas e caiam nas armadilhas.

Afirma um autor que antigamente, quando um simples clérigo ia a passar na rua, todos se levantavam, e cada um se recomendava às suas orações. Vê-se o mesmo nos nossos dias? Ai! Devemos exclamar594 Jeremias: Como se obscureceu o ouro, como se embaciou o seu brilho, como se dispersaram as pedras do santuário pelos ângulos de todas as praças? Eis como S. Gregório595 explica toda esta passagem: Está o ouro obscurecido, porque os padres desonram a sua vida com ações baixas: está empanado o vivo resplendor do ouro, porque o mais santo dos estados se tornou desprezível, por obras abjectas; dispersaram-se as pedras do santuário pelos ângulos de todas as praças, porque os que deviam passar uma vida toda interior e de oração, só se ocupam de coisas exteriores. Quase não há negócios seculares que não sejam administrados pelos padres.

Lê-se nos Cânticos: Combateram contra mim os filhos de minha mãe596. Orígines aplica estas palavras aos padres que, por seus escândalos se ar mam contra a Igreja, sua mãe. Diz S. Jerônimo que a vida criminosa dos padres produz a devastação na Igreja597. E a propósito da lamentação de Ezequias — Eis que no seio da paz a minha amargura é amaríssima598 — S. Bernardo põe na boca da Igreja estas palavras: Tenho a paz do lado dos pagãos, tenho a paz do lados dos hereges, mas em verdade não a tenho da parte dos meus filhos599. Não sou hoje perseguida pelos pagãos, não há tiranos; não sou perseguida600 pelos hereges, não há heresias novas; mas sou perseguida pelos meus próprios filhos, pelos sacerdotes, cuja vida desordenada me rouba um grande número de almas! Não, diz S. Gregório, ninguém prejudica tanto a causa de Deus como os padres que, estabelecidos para encaminharem os outros, são os primeiros a dar-lhes maus exemplos601.

Pelos seus maus exemplos, fazem os maus sacerdotes que os povos desprezem o ministério deles, isto é, os sermões, as missas, e todos os ministérios da religião. Por isso o Apóstolo lhes dirige este aviso: Não demos a ninguém ocasião de escândalo, para que não se torne desprezível o nosso ministério; mostremo-nos ao contrário verdadeiros servos de Deus602. Se a lei de Jesus Cristo é desprezada, diz Salviano, a causa disso somos nós, os padres603. S. Bernardino de Sena ajunta que muitos cristãos, à vista dos maus exemplos dos eclesiásticos, chegam a vacilar na fé, e acabam por se abandonar aos vícios, desprezando os sacramentos, o inferno e o Paraíso604.

Segundo o autor da Obra imperfeita, quando os infiéis viam os desregramentos dos sacerdotes, diziam que o Deus dos cristãos ou não existia, ou era um deus mau; porque, acrescentavam, se fosse bom, como poderia suportar tais desordens nos seus ministros?605 Na Instrução sobre a missa, mais de espaço nos havemos de referir ao caso de um herege que estava disposto a converter-se: tendo porém visto em Roma um padre a dizer missa com pouco respeito, desistiu de abjurar os seus erros, dizendo que nem o próprio papa tinha fé; de contrário, teria mandado queimar vivos tais padres,
desde que os conhecesse.

Dizia S. Jerônimo que, procurando saber pela história quais os homens que têm difundido na Igreja o veneno das heresias e pervertido os povos, não encontrava outros senão os padres606. Pedro de Blois diz por sua vez: É pela negligência dos padres que as heresias se têm multiplicado... Por causa dos nossos pecados, é que a Igreja tem sido calcada aos pés e caído no desprezo607. E, no sentir de S. Bernardo, mais mal nos fazem os padres escandalosos, que os próprios hereges; porque, afirma ele, está no nosso poder guardarmo-nos dos heréticos, — mas como será possível guardarmonos dos padres, cuja assistência a cada instante nos é necessária? Eis as suas palavras: Uma peste mortal invade hoje todo o corpo da Igreja; e o mal é tanto mais assombroso quanto se mostra geral; é tanto mais funesto quanto procede do interior. Se o inimigo fosse um herege declarado, poderia lançar-se fora; se o inimigo se apresentasse com as armas na mão, poderia a Igreja furtar-se aos seus golpes; mas como lançá-lo fora? Como escapar aos seus golpes? Todos são a um tempo amigos e adversários dela608.

Ó, que terrível castigo está reservado para os padres escandalosos! Se é ameaçado de grande desgraça todo o homem por quem vem o escândalo609, que desgraça ainda mais terrível há de estalar sobre aquele que Deus escolheu para ser ministro seu!610 De preferência a tantos outros, o encarregou Deus de lhe granjear frutos, salvando-lhe almas, e ele, por seus maus exemplos, arrebatou almas ao seu divino Mestre! Diz S. Gregório que tais sacerdotes merecem sofrer tantas mortes, quantos os maus exemplos que dão611. Falando dos padres em especial, disse o Senhor a Sta. Brígida: Serão duplamente malditos os que por sua conta se perdem a si próprios e consigo perdem os outros612. São os sacerdotes encarregados da vinha; o Senhor porém expulsa da sua vinha os maus jornaleiros e a confia a outros, que saibam produzir bons frutos613.

Ai! Que será dos padres escandalosos no dia do juízo? Hei de aparecerlhes como a ursa a que arrebataram os filhos614. Com que furor se não precipita a ursa contra o caçador que vai para lhe arrebatar e matar os filhos! É assim, diz o Senhor, que eu me lançarei contra os sacerdotes que, em vez de me salvarem as almas, as fazem perder. E, se nesse dia terrível cada um há de ter dificuldade em responder por si, pergunta Sto. Agostinho, que será dos padres que hão de dar conta de tantas almas que fizeram perder?615 O autor da Obra imperfeita acrescenta: Quando os padres vivem em pecado, todo o povo se afunda nos vícios; também, ao passo que os outros só prestarão conta dos próprios pecados de todos616. Ó, quantos seculares, quantos pobres camponeses e mulheres humildes, serão no Vale de Josaphat um motivo de confusão para os padres! Acrescenta ainda o autor da Obra imperfeita: No dia do juízo hão de ver se leigos revestidos da túnica da glória destinada aos padres; e alguns padres, por seus pecados, despojados da dignidade sacerdotal e repelidos para o meio dos infiéis e hipócritas617.

Guardemo-nos pois, ó sacerdotes, ó irmãos meus, de causar por nossos maus exemplos a perda das almas, nós a quem Deus colocou na terra para as salvar. Em ordem à consecução deste fim, evitemos com zelo não só as ações, más em si mesmas, mas até as que tenham aparência de mal, conforme a palavra do Apóstolo: Ab omni specie mala abstinete vos (1. Thess. 5, 22). Por esta razão ordenou o concílio de Agda: Ut ancillae a mansione, in qua clericus manet, removeantur (Conc. Agth. c. 11). Ter na própria casa criadas novas, — ainda mesmo que, por impossível, não fossem ocasião de pecado, — seria pelo menos uma aparência de mal, que podia ser motivo de escândalo para os outros.

Assim o Apóstolo nos adverte que devemos abster-nos até de certas coisas permitidas, com receio de escandalizar os fracos618. Devemos absternos igualmente, com muito cuidado, de repetir certas máximas do mundo, tais como estas: É preciso que não nos deixemos calcar aos pés; é necessário gozar da vida; felizes os ricos; Deus é cheio de misericórdia e compadece-se das nossas fraquezas (falando-se de pecadores, que persistem nas suas desordens). Que escândalo não seria também aplaudir quem pratica o mal, por exemplo: um homem que se vinga, ou que mantém relações perigo sas! Louvar os que fazem o mal, diz S. Crisóstomo, é muito pior que praticálo! 619 Finalmente, quanto ao passado, quem teve a desgraça de dar algum escândalo, ou qualquer ocasião de pecado, deve saber que está obrigado a repará-lo publicamente por seus bons exemplos.


Fonte: Retirado do Livro "A Selva", por Santo Afonso Maria de Ligório

23 de setembro de 2011

A missa sacrílega - Parte II


II
Quanto é enorme o crime do padre que celebra em estado de pecado mortal

Que faz então o padre que celebra, em pecado mortal? Acaso honra ele a Deus? Ai, muito ao contrário! Comete contra ele o maior ultraje de que é capaz; despreza-o na sua própria pessoa, porque pelo sacrilégio parece fazer quanto de si depende para manchar o Cordeiro imaculado, que oferece sob as espécies sacramentais! Eis o que diz o Senhor: Escutai, ó sacerdotes que desprezais o meu nome... Ofereceis sobre o meu altar um pão manchado e dizeis: Em que é que te desonramos?480 S. Jerônimo comenta assim esta passagem: Manchamos o pão, isto é, o corpo de Cristo, quando nos aproximamos indignamente do altar.

Não podia Deus elevar um homem a uma dignidade mais sublime, que à dignidade sacerdotal. Que escolha teve de fazer o Senhor para formar um padre! Primeiro, teve de escolhê-lo na multidão inumerável das criaturas possíveis; depois teve de separá-lo de tantos milhões de pagãos e hereges; e por último teve de tirá-lo do meio de tantos simples fiéis. Depois disto, que poder lhe não foi dado! Se Deus tivesse concedido a um só homem o poder de fazer descer à terra por suas palavras o próprio Jesus Cristo, quanto não estaria obrigado para com o Senhor esse homem tão privilegiado, e quantas ações de graças não teria de lhe render! Pois bem, esse poder concede-o Deus a cada um dos padres481. Nada importa que o mesmo poder tenha sido confiado a muitos: o número dos padres, nem apouca a sua dignidade, nem diminui as suas obrigações. Mas, grande Deus! Que faz um padre que ousa celebrar com o pecado na sua alma? Desonra-nos, despreza-vos, declarando por isso mesmo que este sacrifício não é tão digno dos nossos respeitos, que devamos temer profaná-lo por um sacrilégio! Aproximar-se alguém do altar, sem o respeito que lhe é devido, diz S. Cirilo de Alexandria, é mostrar que o julga digno de desprezo482.

A mão que toca a carne sagrada de Jesus Cristo, a língua que se tinge do sangue divino, diz S. João Crisóstomo, deveriam ser mais puras que os raios do sol483. Noutro lugar, ajunta que um padre que sobe ao altar deveria ser bastante puro e santo para merecer um lugar entre os anjos484. Que horror pois para os anjos verem um padre, inimigo de Deus, levar uma mão sacrílega para o Cordeiro sem mancha, e fazê-lo seu alimento! Onde se encontraria um homem tão ímpio, exclama Sto. Agostinho, que ousasse tocar o Santíssimo com as mãos enlameadas?485 Muito pior faz o padre que celebra missa com a consciência manchada. Deus então desvia os olhos, para não ver um atentado tão horrível: Quando estenderdes as vossas mãos, afastarei de vós os meus olhos486. E, para exprimir o desgosto que lhe causam esses padres sacrílegos, declara que lhes dá de atirar à cara a imundícia dos seus sacrifícios487. Como ensina o Concílio de Trento, é verdade que o santo sacrifício não pode ser manchado pela malícia do padre488. No entanto os sacerdotes, que celebram em estado de pecado mortal, não deixam de profanar, quanto podem, este adorável mistério; por isso declara Deus que as manchas deles o atingem dalgum modo489.

Ai, Senhor, exclama S. Bernardo, como é possível que os chefes da vossa Igreja sejam os primeiros a perseguir-vos?490 É bem verdade, segundo S. Cipriano, que o padre, que celebra em estado de pecado mortal, ultraja com a sua boca e com as suas mãos o próprio corpo de Jesus Cristo491. Pedro Comestor ajunta que, quando um padre fora da graça de Deus pronuncia as palavras da consagração, escarra por assim dizer no rosto de Jesus Cristo, e quando recebe na sua boca indigna o corpo adorável do Salvador, é como se o lançasse na lama492. Mas, que digo, na lama? O padre no estado do pecado é pior que a lama: a lama, diz Teofilato, é muito menos indigna de receber essa carne divina, do que um padre sacrílego493. Segundo S. Vicente Ferrer, esse miserável comete então muito maior crime do que se atirasse o Santíssima a uma sentina494. E tal é também o sentir de S. Tomás de Vilanova: Que abominação, exclamava ele, derramar o sangue de Cristo na sentina infecta do seu coração!495

O pecado do padre é sempre gravíssimo, em razão da injúria que ele faz a Deus, que se dignou escolhê-lo para seu ministro e cumulá-lo de tantas graças. Observa S. Pedro Damião496 que uma coisa é transgredir as leis do príncipe, e outra feri-lo com as suas próprias mãos, como faz o padre, quando celebra em estado de pecado mortal. Tal foi o crime dos judeus que ousaram levantar as mãos contra a pessoa de Jesus Cristo; mas, segundo Sto. Agostinho, o pecado dos sacerdotes que celebram indignamente é muito mais grave ainda497.

Os judeus não conheciam o Redentor como o conhecem os padres. E de mais, diz Tertuliano, os judeus só uma vez levantaram as mãos contra Jesus Cristo, ao passo que os padres sacrílegos têm a audácia de renovar com freqüência esta injúria498. Notai além disto, como ensinam os doutores, que o sacerdote sacrílego ao celebrar comete quatro pecados mortais: 1.º consagra em estado de pecado; 2.º comunga em estado de pecado; 3.º administra o Sacramento em estado de pecado; 4.º ministrando-o a si próprio, administra-o a um indigno, isto que se encontra em estado de pecado499.

Era o que inflamava em zelo S. Jerônimo e o fazia estuar de indignação contra o diácono Sabiniano. Miserável, exclamava! Como não se cobriram de trevas os vossos olhos, como não se vos gelou a língua na boca, como vos atrevestes a assistir no altar em estado de pecado?500 Dizia S. João Crisóstomo que o padre, que se aproxima do altar com a consciência manchada de falta grave, é muito pior que o demônio501. Com efeito, os demônios tremem na presença de Jesus Cristo, como o prova uma passagem que lemos na vida de Santa Teresa. Indo ela um dia comungar, percebeu aos dois lados do padre, que celebrava em pecado, dois demônios, que tremiam à vista do Santíssimo, e pareciam querer fugir. Então, do meio da hóstia consagrada, Jesus dirigiu à Santa estas palavras: “Vê que força têm as palavras da consagração, e vê também, ó Teresa, até onde vai a minha bondade, que, para teu bem e de todos, consinto em me pôr nas mãos do meu inimigo”502.

Assim os demônios tremem à vista de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento, ao passo que o padre sacrílego, não só não treme, mas tem a audácia de calcar aos pés, segundo a expressão de S. João Crisóstomo, a própria pessoa do Filho de Deus503. Verificam-se então as palavras do Apóstolo: Quanto mais digno de castigo deveis crer aquele que calca aos pés o Filho de Deus, e trata como uma coisa impura o sangue da aliança, pelo qual foi santificado?503. Em presença pois deste Deus, a cuja vista, diz Jó, tremem as colunas do céu504, um verme da terra ousa calcar aos pés o sangue do Filho de Deus!

Mas, ai! Que maior desgraça pode acontecer a um padre, do que mudar a sua salvação em condenação, o sacrifício em sacrilégio, e a sua vida em morte? Sem dúvida foram muito ímpios os judeus, que atravessaram o lado de Jesus Cristo, para dele fazerem sair o seu precioso sangue; mas ainda mais ímpio é o padre, que tira do cálice este mesmo sangue, para o tratar dum modo tão indigno! Tal é o pensamento de Pedro de Blois: = Quam perditus ergo est, qui redemptionem in perditionem, qui sacrificium in sacrilegium, qui vitam convertit in mortem! Verbum beati Heronymi est: “Perfidus Judaeus, perfidus Christianus, ille de latere, iste de calice sanguinem Christi fundit”! (Epist. 123). O próprio Senhor dizia um dia a Santa Brígida, lamentando-se destes padres sacrílegos: Eles me crucificam mais cruelmente do que o fizeram os judeus505. O padre que celebra em estado de pecado, diz um autor, chega por assim dizer a matar o próprio Filho de Deus, sob os olhos de seu Pai506.

Ó, que horrível traição! Eis como Jesus Cristo se lamenta do padre sacrílego, pela boca de Davi: Se o meu inimigo me tivesse execrado, tê-lo-ia sofrido; mas tu, meu amigo íntimo, e um dos chefes do meu povo, tu que partilhavas das delícias da minha mesa...!507 Tal é, feição por feição, o padre que diz a missa em pecado mortal: Se o meu inimigo me tivesse ultrajado, diz o Senhor, eu o teria sofrido com menor pena; mas tu, a quem escolhi para meu ministro, para seres o príncipe do meu povo; tu, venderes-me ao demônio por um capricho, por um prazer brutal, por um pouco de lodo!

Foi o que o divino Mestre declarou mais particularmente a Sta. Brígida: Padres tais não são sacerdotes meus, são antes traidores, porque me vendem como Judas508. Aos olhos de S. Bernardino de Sena, são estes sacerdotes ainda piores que Judas: com efeito Judas entregou o Salvador aos judeus, mas eles entregam-no aos demônios, lançando-o num lugar submetido ao seu poder, no seio dum padre sacrílego509. Pedro Comestor faz esta reflexão: Quando o padre sacrílego sobe ao altar, recita a oração Aufer a nobis, e beija o altar, parece que Jesus Cristo lhe censura o seu crime e lhe diz: Ó Judas! É com um ósculo que me entregas?510 E, quando depois esse padre estende a mão para comungar, observa S. Gregório, parece-me ouvir o Redentor a dizer como outrora a respeito de Judas: Eis comigo sobre o altar a mão que me entrega!511 Foi o que fez dizer a Sto. Isidoro de Pelusa que “o padre sacrílego se encontra, como Judas, possesso do demônio”512.

Ó, como então o sangue de Jesus Cristo, assim profanado, grita contra este padre indigno, ainda em mais altas vozes que o sangue do inocente Abel contra Caim! Foi o que o Salvador disse a Sta. Brígida513. Ó, que horror causa a Deus e aos anjos uma missa celebrada em pecado mortal! Fê-lo o Senhor compreender um dia, em 1688, à sua fiel serva, a irmã Maria-Crucificada, de Palma, na Sicília, conforme se lê na sua vida.

Ouviu primeiro o retinir lúgubre duma trombeta, que com o estampido do trovão fazia ouvir, em todo o mundo estas palavras: Ultio, poena, dolor! Viu depois uma multidão de eclesiásticos sacrílegos, cujas vozes confusas formavam uma salmódia discordante. A seguir, um dentre eles se ergueu para dizer missa. Enquanto ele se revestia dos ornamentos sagrados, a igreja se cobriu de trevas e luto. Aproxima-se do altar e diz: Introibo ad altare Dei; neste instante, de novo retine a trombeta e repete: Ultio, poena, dolor! De repente — sinal visível da justa cólera do Senhor contra o ministro indigno, — turbilhões de chamas se elevam e cintilam em volta do altar. Ao mesmo tempo a religiosa distingue uma legião de anjos, armados de espadas ameaçadoras, como para tirarem vingança do sacrilégio que se vai cometer.

Quando o monstro se prepara, para o grande ato da consagração, uma multidão de serpentes saltam do meio das chamas, para o expulsarem do altar, — símbolo dos temores e remorsos da consciência. É em vão, o sacrílego sacrifica todos os remorsos à sua própria reputação. Pronuncia enfim as palavras da consagração; então a serva de Deus observa um tremor universal, que parece abalar o céu, a terra e o inferno.

Depois da consagração a cena muda: Jesus Cristo aparece como um doce cordeiro, que se deixa maltratar entre as garras desse lobo cruel. No momento da comunhão, o céu obscurece-se, e todo se abala de novo, a ponto de parecer que a igreja desaba. Os anjos choram amargamente em redor do altar; mas ainda mais amargas são as lágrimas, que inundam o rosto da Mãe de Deus; geme ela sobre a morte de seu Filho inocente, e sobre a perda dum filho culpado.

Depois duma visão tão terrível, permaneceu a serva de Deus de tal modo aterrada e abatida pela dor, que não pôde fazer outra coisa senão chorar. O autor da sua Vida nota que foi precisamente no mesmo ano de 1688 que se deu o grande terremoto, que tantos estragos fez na cidade de Nápoles e seus contornos, donde se pode concluir que tal castigo foi efeito da celebração desta missa sacrílega.

Haverá no mundo crime mais horrível do que o dessa língua, que faz descer do Céu à terra o Filho de Deus, e ousa depois carregá-lo de ultrajes no mesmo instante em que o chama? Que coisa mais espantosa que ver essas mãos, que se banham no sangue de Jesus Cristo, mancharem-se ao mesmo tempo no sangue impuro do pecado, segundo a expressão de Sto. Agostinho!514 Pelo menos, exclama S. Bernardo, dirigindo-se ao padre sacrílego, pelo menos, ó miserável, quando quiseres levar as tuas culpas até o extremo, procura outra língua diferente da que se banha com o sangue de Jesus Cristo, e outras mãos que não sejam as que tocam a sua carne sagrada515.

Se tais padres, — dispostos a comportar-se como inimigos de Deus, que os elevou a tão altas funções, — se abstivessem ao menos de sacrificar indignamente no altar! Mas não, diz S. Boaventura, para não perderem o salário miserável duma missa, uma vil moeda, ousam cometer um crime tão horrível516. Como assim! Para falar segundo a linguagem de Jeremias, pensais então que a carne de Jesus Cristo, que ides oferecer, vos há de livrar das vossas iniqüidades?517 Não; o contato desse corpo adorável, sobre o qual vos atreveis a estender uma mão conspurcada pelo pecado, servira para vos tornar mais culpado ainda e digno de maior castigo. Quando se comete um crime, diz S. Pedro Crisólogo, na presença do próprio juiz, nenhuma desculpa se pode invocar518.

Que castigo não merece sobretudo um padre que, em vez de levar consigo ao altar o fogo do amor divino, intromete lá as chamas infectas de afeições impuras! É do que nos adverte S. Pedro Damião, ao considerar o castigo dos filhos de Aarão519 que no sacrifício se serviram dum fogo estranho520. Quem tiver uma tal audácia, ajunta ele, infalivelmente será consumido pelo fogo da vingança divina521. Que Deus nos guarde pois, diz ele ainda, de virmos adorar no altar o ídolo da impureza, e colocar o Filho da Virgem no templo de Vênus, isto é, num coração impudíco522. Se aquele homem do Evangelho, continua o mesmo Santo, por se ter apresentado no festim sem aveste nupcial, foi condenado às trevas eternas, — que castigo bem mais terrível está reservado para quem, admitido à sagrada mesa, não só não se encontra preparado com o vestido conveniente, mas até exala o cheiro infecto da impudicícia?523

Desgraçado, exclama S. Bernardo, o que se afasta de Deus, mas muito mais desgraçado o padre, que se aproxima do altar com a consciência manchada524.

Falando um dia o Senhor a Sta. Brígida a respeito de um padre sacrílego, disse-lhe que entrava na alma dele como Esposo, com desejo de o santificar, mas pouco depois se via obrigado a sair como Juiz, para castigar a injúria que lhe fazia este ministro indigno, recebendo-o em estado de pecado mortal525.

Mas, se o horror do ultraje, ou para melhor dizer, dos numerosos ultrajes que faz a Deus uma missa sacrílega, não pode impedir esses padres culpados de celebrarem em estado de pecado mortal, deveriam eles ao menos tremer com o pensamento do grande castigo, que lhes está preparado. Segundo S. Tomás de Vilanova, não há castigo bastante rigoroso para punir um tal crime como ele merece: = Vae sacrilegis manibus, vae immundis pectoribus impiorum Sacerdotum! Omne supplicium minus est fragitio quo Christus contemnitur in hoc sacrificio526. O Senhor disse a Sta. Brígida que tais padres são amaldiçoados por todas as criaturas no Céu e na terra527.

Como noutra parte dissemos, o padre é um vaso consagrado a Deus; portanto, assim como Baltasar foi punido por ter profanado os vasos do Templo, do mesmo modo, diz Pedro de Blois, será punido o sacerdote, que celebra indignamente. Já uma mão misteriosa se prepara para traçar estas palavras terríveis: Máne, Thécel, Farés. Numeratum, Appensum, Divisum528. Numeratum, quer dizer, um só sacrilégio basta para suspender a torrente das graças divinas; Appensum, é bastante para fazer pender a balança da justiça divina, e decidir a ruína eterna do padre culpado; Divisum, Deus, irritado por um crime tão atroz, o repelirá e afastará para sempre.

É assim que se há de cumprir a palavra de Davi: Torne-se em ruína sua a mesa posta diante deles529. Sim, o altar há de tornar-se para este desgraçado o lugar do seu suplício; ali será carregado com as cadeias que hão de retê-lo para sempre escravo do demônio, fazendo-o perseverar no mal; porque, segundo S. Lourenço Justiniano, todos os que comungam em pecado mortal permanecem mais obstinados na sua malícia530. Isto está de acordo com o que o Apóstolo declarou: O que come e bebe indignamente, come e bebe a sua própria condenação531. Ó padre do Senhor, exclama sobre este ponto S. Pedro Damião, vós, que deveis oferecer em sacrifício ao Padre eterno o seu próprio Filho, não vades primeiro dar-vos como vítima ao demônio!532


Fonte: Retirado do Livro "A Selva", por Santo Afonso Maria de Ligório

22 de setembro de 2011

A missa sacrílega - Parte I



I
Pureza exigida no padre para celebrar dignamente

Lê-se no Concílio de Trento: Devemos reconhecer que entre todas as obras, ao alcance dos fiéis, nenhuma há mais santa que este mistério terrível465. Nem o próprio Deus pode fazer que haja no mundo uma ação maior e mais santa que a celebração duma missa. Ó, quanto mais excelente que todos os sacrifícios antigos o sacrifício dos nossos altares, em que a vítima oferecida não é já um touro ou um cordeiro, mas o próprio Filho de Deus!

Para a vítima, o judeu tinha um boi, escreve S. Pedro de Cluny; o cristão tem Jesus Cristo; tanto este último sacrifício excede o primeiro, como Jesus Cristo excede a um boi466. Depois ajunta que uma vítima servil era a única que convinha a servos, ao passo que aos amigos e aos filhos estava reservado o próprio Jesus Cristo, como vítima que nos libertou do pecado e da morte eterna. Tem pois razão S. Lourenço Justiniano em dizer que não há oferenda nem maior em si mesma, nem mais útil aos homens, nem mais agradável a Deus, que a que se faz no sacrifício da missa467.

Assim, S. João Crisóstomo assegura que, durante a celebração da missa, está o altar cercado de anjos, reunidos para honrarem a Jesus Cristo, que é a Vítima oferecida neste augusto sacrifício468. Que fiel poderá duvidar, pergunta por sua vez S. Gregório, que no momento do sacrifício o Céu se não abra à voz do padre e numerosos coros de anjos não estejam presentes a este mistério em que Jesus Cristo se imola?469 E Sto. Agostinho acrescenta que os anjos se conchegam a rodear o sacerdote como servos, para o ajudarem nas suas funções470.

Falando deste grande sacrifício do Corpo e Sangue de Jesus Cristo, o Concílio de Trento nos ensina que é o próprio Salvador que aí se oferece a seu Pai, mas pelas mãos do sacerdote, que escolheu para seu ministro, encarregado de o representar ao altar471. E S. Cipriano tinha dito antes: O padre ao altar ocupa o lugar de Jesus Cristo472. É por isso que, ao consagrar, o padre se exprime assim: Isto é o meu corpo; este é o cálice do meu sangue. E o próprio Jesus Cristo disse a seus discípulos: Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim desprezas473.

Ora, mesmo aos antigos Levitas exigia o Senhor que fossem puros, só porque tinham por dever transportar os vasos sagrados: Purificai-vos, vós que levais os vasos do Senhor474. Sobre o que Pedro de Blois faz esta reflexão: Quanto mais puros devem ser os que trazem Jesus Cristo nas suas mãos e nos seus corações?475 E com quanta mais razão exigirá o Senhor a pureza dos padres da Lei nova, encarregados de representar ao altar a pessoa de Jesus Cristo, para oferecerem ao Padre eterno o seu próprio Filho! Tem pois justo motivo o Concílio de Trento, para querer que os padres celebrem este augusto sacrifício com a máxima pureza de consciência possível476. E é o que significa, nota o abade Rupert, a brancura da alba, de que a Igreja quer que o sacerdote se revista e cubra da cabeça aos pés, quando celebrar os divinos mistérios477. É muito justo que o sacerdote honre a Deus com a inocência da sua vida, visto que Deus tanto o há honrado, elevando-o acima de todos os outros homens, e fazendo-o ministro seu, neste mistério sublime, como dizia S. Francisco de Assis478. Mas como deve o padre honrar a Deus? Será porventura trajando ricos vestidos, anafando a cabeleira com arte, ostentando punhos elegantes? Não, responde S. Bernardo, é por uma vida irrepreensível, pelo estudo das ciências sagradas, e pelos trabalhos que empreender para glória de Deus479.



Fonte: Retirado do livro "A Selva" - Por Santo Afonso Maria de Ligório

3 de maio de 2011

O Grito Lancinante de uma Alma


Salve Maria!
Este livreto eu o li em 1996 e não sei para quem o emprestei, fato é que acabei por perdê-lo. Hoje passeando pelos blogs achei-o novamente 
e resolvi passar a todos vcs, vale a reflexão!

Clara era uma moça, falecida ainda jovem, em um Convento da Alemanha. Entre os papéis que deixou, encontrou-se o seguinte manuscrito que publicamos, na íntegra, em versão portuguesa. Os grifos e anotações são nossos.

NIHIL OBSTAT

Sancti Pauli, 1-6-1967
Sac. Joannes Roatta SSR

IMPRIMATUR

Sancti Pauli, 9-6-1967
Mons. Lafayette
Vig. Geral
************

MANUSCRITO:

Eu tinha uma amiga. Isto é, entramos em contato, por causa do escritório, onde trabalhávamos uma ao lado da outra, em uma firma comercial.
Mais tarde Anita se casou e nunca mais a vi. Afinal, reinava entre nós duas, desde o começo, mais cortesia do que propriamente amizade. Por isso mesmo, pouco senti sua ausência, quando ela, após seu casamento, foi morar em um quarteirão de vilas..., muito longe de minha casa.
Quando no outono de 1937, passava minhas férias às margens do lago de Garda, escreveu-me minha mãe, pelos fins da segunda semana de setembro: “veja, Anita N. morreu! Foi vítima de um acidente de automóvel. Foi sepultada ontem em Waldfriedholf, cemitério do bosque”.
Esta notícia me espantou. Sabia que Anita nunca fora muito religiosa. Estaria preparada, quando Deus, assim de improviso, a chamou?
Na manhã seguinte, assisti a santa missa por ela, na capela particular da pensão das freiras, onde estava hospedada, rezei fervorosamente pela paz de sua alma e até ofereci a Comunhão nesta intenção.
Mas, o dia todo senti um certo mau-estar que pela tarde aumentou ainda mais. Adormeci inquieta. Enfim, fui acordada por um violento bater à minha porta. Acendi a luz. O relógio, sobre o criado, marcava meia-noite e dez. Não vi ninguém. Nenhum barulho se ouvia pela casa. Somente o das ondas do lago de Garda que se quebravam monótonas contra a murada do jardim da pensão. De vento, não se ouvia nem um sopro. E no entanto, ao acordar tinha acreditado perceber, além das batidas da porta, um rumor de vento semelhante àquele que se produzia quando meu chefe de escritório, aborrecido, me passava, de mau jeito, alguma carta.
Refleti por um instante se devia levantar-me. “Tudo histórias..., disse resolutamente a rnim mesma. — É a tua imaginação excitada depois daquele caso de morte”. Virei-me para o outro lado, rezei alguns “pater” pelas almas do purgatório e procurei dormir...
Mas, senti-me irresistivelmente invadida por uma sensibilidade interior que se tornava sempre mais lúcida e nítida, enquanto ao redor de mim a profundidade da noite desvanecia em urna transparência indefinível que dava a mim mesma e a todas as coisas circunstantes, um contorno sem espaço, fora do comum.
Levantei-me alucinada e resolvi, mais depressa do que costu­mava, descer para a capela da casa, como todas as manhãs. Ao abrir a porta do quarto, tropecei em um maço de folhas soltas de papel de carta. Apanhá-las, reconhecer a caligrafia de Anita e dar um grito foi tudo a mesma coisa.
Tremendo, segurava as folhas na mão. Compreendia que em tal estado de espírito não seria capaz de rezar nem sequer um “Pai Nosso” e além disso, subiu-me um sufocamento asfixiante.
Não encontrei melhor recurso que sair ao ar livre. Arrumei um pouco o cabelo, joguei a carta na bolsa e saí de casa. Subi por um trilho que, além da estrada principal (a famosa Gardesana), vai em direção ao monte, entre oliveiras, jardins de residências e moitas de louros.
A manhã surgia luminosa. Outras vezes, a cada cem passos, eu me extasiava diante do magnífico panorama que dali se abre sobre o lago e sobre a ilha do Garda, bela como de fada.
O insondável azul da água me recreava sempre. Contemplava admirada o cinzento monte Baldo, que, do outro lado, se eleva lentamente, desde 64 até mais de 2.200 metros acima do nível do mar. Entretanto, agora, não tinha nenhum interesse por nada disso. Após um quarto de hora de caminho, me deixei cair, mecanicamente sobre um banco que se apóia entre dois ciprestes, onde, ainda no dia anterior, tinha lido, com tanto prazer, a “Jungfer Therese”, de Federer.
[1]
Considerei, então, pela primeira vez, os ciprestes como árvores dos mortos; que, no passado, nas cidades do sul, onde frequente­mente se vêm, não havia jamais suspeitado.
Agarrei a carta. Faltava a assinatura. Mas, era, com absoluta certeza, a caligrafia de Anita. Não faltava nem mesmo o grande rabisco ornamental do S e o T à francesa, que ela havia aprendido no escritório para aborrecer o Sr. Gr.
O estilo não era o dela. Ao menos, não falava como de costu­me, pois ela sabia conversar de maneira extraordinariamente amável e sorrir pelos olhos celestes, com seu belo narizinho amassado. Só quanto discutíamos assuntos de religião podia tornar-se venenosa e tomar o tom duro desta carta. (E, julgando-a assim, experimento também a amargura de seu estilo áspero!)
A sua carta do outro mundo eu a reproduzo aqui, palavra por palavra, como a li, então. Dizia assim:

“Clara — não reze por mim! Estou condenada.[2] Se lh’o comunico e lh’o refiro mais longamente, não pense que o faça a título de amizade. Nós aqui não amamos a mais ninguém. Faço-o como que forçada. Faço-o como “parte daquela potência que sempre quer o Mal e f az o Bem”.[3]  

Na verdade desejaria vê-la também chegar a este estado onde eu já me aportei para sempre.[4]

Não se aborreça com esta intenção. Nós aqui todos pensamos assim. Nossa vontade está petrificada no mal — nisto que vocês, justamente, chamam de “mal”. Mesmo quando nós fazemos algo de “bem” como eu agora, abrindo seus olhos sobre o inferno, isto não acontece com boa intenção.[5]

Lembra-se que há quatro anos nos conhecemos em...? Você tinha, então 23 anos, e estava ali havia já meio ano, quando eu che­guei. Você me livrou de alguns embaraços. Você me deu, como a principiante, bons conselhos. Mas, que quer dizer “bom”?

Eu louvava então o seu “amor ao próximo”. Ridículo! O seu auxílio derivava de pura beatice, como aliás, já o suspeitava desde aquele tempo.

Nós não conhecemos aqui nada de bom. Em ninguém. O tempo de minha juventude você o conhece. Algumas lacunas eu preencho aqui.

Conforme o plano de meus pais, para dizer a verdade, eu não deveria ter existido. “Aconteceu-lhes, porém, esta desgraça”. Minhas duas irmãs já tinham 14 e 15 anos quando eu nasci.

Antes não tivesse existido! Pudesse eu agora aniquilar-me e fugir destes tormentos! Nenhuma volúpia igualaria àquela com que deixaria a minha existência, como um vestido de cinzas que se perde no nada.[6] Mas, eu devo existir. Devo existir assim como me tornei: com uma existência falida.

Quando Papai e Mamãe, ainda jovens, se transferiram do cam­po para a cidade, ambos haviam perdido o contato com a igreja. Foi até melhor assim. Simpatizaram-se com pessoas afastadas da igreja. Conheceram-se em uma sala de bailes e, meio ano depois, “tiveram” que se casar.

Na cerimónia nupcial caiu sobre eles tanta (!) água benta que mamãe se contentava em ir à igreja, para a missa dominical, umas duas vezes por ano. Nunca me ensinou a rezar direito. Esgota­va-se nos apertos da vida quotidiana, embora nossa situação não fosse desfavorável. Palavras como: rezar, missa, água benta, igreja, eu as escrevo com uma repugnância sem igual.

Detesto tudo isto como detesto quem frequenta a igreja, e, em geral, todos os homens e todas as coisas. De tudo, com efeito, nos advém tormento. Todo o conhecimento recebido na hora da morte, toda lembrança de coisas vividas ou sabidas é, para nós, uma chama ardente.[7] E todas as lembranças nos mostram aquele aspec­to que nelas, era Graça. Que nós desprezamos. Que tormento é este! Nós não comemos, não dormimos, não andamos por nossos pés. Espiritualmente acorrentados, olhamos embecilizados “com urros e ranger de dentes”[8] a nossa vida levada aos montes, odiando e atormentados!

Quer saber? - Nós aqui bebemos ódio como água. Também uns para com os outros.[9] Sobretudo, odiamos a Deus.

Quero que você entenda. Qs santos no céu, devem amá-Lo, porque eles O vêem sem véu, na sua fulgurante beleza. Isto os torna de tal maneira felizes que nem se pode descrever. Nós o sabemos, e este conhecimento nos torna furiosos.[10]

Os homens na terra que conhecem a Deus pela criação e pela revelação podem amá-Lo. Mas não estão obrigados a isto.

Aquele que tem fé — escrevo rangendo os dentes — que refletindo, contempla Cristo na Cruz, com os braços abertos, acabará por amá-Lo. Mas, aquele de quem Deus se aproxima só na desgraça, como punidor, como justo vingador, porque foi um dia, por ele repudiado, como acontece conosco — este não pode senão odiá-Lo.[11] Com todo o ímpeto de sua pérfida vontade. Eternamente. Por força da livre resolução de ser separado de Deus: resolução pela qual, morrendo, matamos nossa alma. Resolução que nem mesmo agora retiramos nem teremos, jamais, vontade de retirá-la.

Você compreende, agora, por que é que o inferno dura para sempre? Porque nossa obstinação jamais se desligará de nós.

Constrangida — acrescento que Deus é misericordioso até mesmo conosco. Digo “constrangida”, pois que, mesmo escrevendo espontanemente esta carta, nem assim me é permitido mentir, como quereria. Muitas coisas escrevo no papel contra a minha vontade. Até mesmo o ímpeto de impropérios que gostaria de vomitar, eu o devo abafar. Deus foi misericordioso conosco não deixando esgotar na terra nossa malvada vontade como estávamos dispostos a fazer. Isto teria aumentado nossas culpas e nossas penas.

Ele nos fez morrer antes do tempo, como eu, ou fez interferir outras circunstâncias atenuantes. Agora, Ele se mostra misericordio­so conosco, não nos obrigando a aproximar-nos d’Ele mais do que o estamos, neste remoto lugar infernal. Isto suaviza o tormento.[12]

Todo passo que me levasse mais perto de Deus me causaria uma pena maior do que aquela que traria a ti o aproximar-te de uma fogueira.

Você se espantou, quando eu, certa vez, durante um passeio, lhe contei que meu pai, alguns dias antes de minha primeira comu­nhão, me havia dito: “Anita, procure merecer um belo vestidinho, porque o resto é exagero e exibição”.

Pelo seu espanto, quase fiquei envergonhada. Agota, me rio disto.

A única coisa razoável naquela exibição era que só se admitia à Comunhão, aos doze anos. Eu, naquela época, já me sentia bastan­te atraída pelos divertimentos do mundo, de modo que, sem escrú­pulos, punha de lado as coisas religiosas, e não dei grande importân­cia à primeira comunhão. Agora, nos causa furor, que muitos meni­nos façam a primeira comunhão aos sete anos. Fazemos tudo para dar a entender ao povo, que deve faltar às crianças uma instrução adequada. Elas devem, antes, cometer alguns pecados mortais. Então a partícula branca não provoca nelas um tão grande dano como quando em seus corações vivem ainda, a fé, a esperança e a caridade. Chi! Esta coisa recebida no batismo. Você se lembra, como eu já havia sustentado na terra, tal opinião.

Fiz referência a meu pai. Ele estava sempre em atrito com mamãe. Fiz alusão a eles com você, apenas algumas vezes, porque me causavam vergonha. Coisa ridícula a vergonha do mal! para nós aqui, tudo é a mesma coisa.

Meus pais nem sequer dormiam mais no mesmo quarto, eu dormia com mamãe e papai no quarto do lado, onde ele podia entrar, livremente a qualquer hora da noite. Ele bebia muito; e, deste modo acabava com o nosso patrimônio. Minhas irmãs estavam, ambas empregadas, e necessitavam, conforme diziam, do dinheiro que ganhavam. Mamãe começou a trabalhar para ganhar também alguma coisa.

No último ano de sua vida, papai maltratava muito mamãe quando ela não lhe queria dar alguma coisa. Para comigo foi sempre carinhoso.

Um dia — eu lhe contei e você ficou chocada com meu capri­cho (mas, você não ficou chocada com minhas referencias?) — um dia, ele teve que levar de volta duas vezes, os sapatos que comprou para mim, porque a forma e os saltos não eram bem modernos.[13]

Na noite em que meu pai foi atacado de apoplexia mortal, aconteceu alguma coisa que eu, por receio de uma interpretação desagradável, nunca consegui contar-lhe: foi quando fui assaltada, pela primeira vez, por meu espírito atormentador de agora.

Dormia no quarto de minha mãe. Seus suspiros regulares indicam um sono profundo. Quando de repente escuto chamar-me pelo nome. Uma voz desconhecida me dizia: “Que será se papai morrer?”

Eu não gostava mais de meu pai, desde quando maltratava minha mãe, como afinal, eu não gostava, desde aquele tempo, abso­lutamente de ninguém, mas, era afeiçoada somente a algumas pessoas que eram boas para mim. Amor sem esperança de recompensa terrena existe somente nas almas em estado de graça. E eu não o possuía. Assim, respondi à misteriosa pergunta, sem ligar de onde viesse: “mas, não morre nunca!”

Após uma breve pausa, novamente a mesma pergunta clara­mente percebida. "Mas, não morre nunca" me escapou bruscamente da boca.

Pela terceira vez fui interrogada: “Que será se teu pai morrer?”

Apresentou-se-me à mente, como papai costumava chegar em casa quase sempre embriagado, como gritava, como maltratava mamãe e como nos havia reduzido a uma condição humilhante diante do povo. Então gritei aborrecida: “E, para ele é bom”.

Então, tudo sossegou. Na manhã seguinte, quando mamãe quis arrumar o quarto do papai, encontrou a porta fechada à chave. Pelo meio-dia resolvemos arrombar a porta. Meu pai, meio vestido, jazia morto sobre a cama. Ao ir buscar a bebida na adega, devia ter-lhe acontecido algum acidente. E, já se encontrava, havia muito tem­po, adoentado.

(Teria Deus ligado à vontade de uma filha, para com a qual, aquele homem havia sido, de certo modo, bom, a ocasião para converter-se?)[14]

Marta K e você me induziram a entrar na “Associação das Moças”. Realmente, nunca ocultei que achava bastante sintonizadas com o costume paroquial, as instruções das duas presidentes, as Senhoras F. e G.

Os jogos eram divertidos, como você sabe, tive logo um lugar na diretoria. Gostava disso. Também os passeios me agradavam. Deixei-me até induzir, algumas vezes, a ir confessar e comungar. Para dizer a verdade, não tinha nada para confessar. Pensamentos e palavras, para mim, não tinham nenhuma importância. Para praticar ações grosseiras, eu não estava ainda bastante corrompida.

Uma vez você admoestou: “Ana, se você não reza mais, você se perderá”.

Eu, de fato, rezava pouco e além disso, de muito má vontade. Agora vejo que, infelizmente, você tinha razão. Todos aqueles que se queimam no inferno é porque não rezam, ou não rezaram bastante.

A oração é o primeiro passo para Deus. E continua sendo o passo decisivo. Especialmente a oração àquela que foi a Mãe de Jesus Cristo, cujo nome nós não pronunciamos nunca.[15] A devoção a Ela, arranca ao demônio inúmeras almas que o pecado poria, infalivelmente, nas mãos dele.

Continuo a narração consumindo-me da raiva, e só porque devo.

Rezar é a coisa mais fácil que o homem pode fazer na terra.[16] E, justamente, a esta coisa facílima é que Deus ligou a salvação de cada um. A quem reza com perseverança ele, pouco a pouco, dá tanta luz e fortifica-o, de maneira tal, que no fim, mesmo o pecador mais empedernido, pode definitivamente se elevar. Ainda que estivesse mergulhado na lama até o pescoço.

Nos últimos anos de minha vida não rezei mais como devia, e assim fiquei privada das graças sem as quais ninguém pode se salvar.

Aqui não recebemos mais nenhuma graça. Ao contrário, mesmo que as recebêssemos, nós, cinicamente, as rejeitaríamos. Todas as oscilações da existência terrena terminaram nesta outra vida. Entre vocês, aí na terra, o homem pode subir do estado de pecado ao estado de graça. Da graça cair no pecado. Muitas vezes por fraqueza ou talvez por malícia. Com a morte, este subir e descer acaba porque tem sua raiz na imperfeição do homem livre. Agora, já atingimos o estado final. Já com o crescer dos anos as transforma­ções se tornam mais raras.

No entanto, até à morte, se pode sempre converter para Deus ou voltar-lhe as costas. E no entanto, o homem, como que arrastado pela corrente, antes do desenlace, com os últimos e fracos restos da vontade, se comporta como estava acostumado em vida. O hábito bom ou mau, torna-se segunda natureza. Esta o arrasta consigo.[17]

Assim aconteceu também comigo. Há anos eu vivia afastada de Deus. Por isso na última chamada da graça, me decidi contra Deus.

O fato de que eu pecasse frequentemente, para mim não foi fatal, mas, fatal foi que eu não quis mais ressurgir.

Você várias vezes me admoestou para ouvir pregações e ler livros de piedade. “Não tenho tempo” era a minha resposta ordiná­ria. Não faltava mais nada para aumentar a minha incerteza interior!

Afinal, devo constatar isto: desde o momento em que a coisa já estava assim adiantada, pouco antes de minha saída da “Associa­ção das Moças”, me teria sido imensamente duro tomar uma outra estrada. Eu me sentia insegura e infeliz. Mas, diante da conversão surgia uma muralha. Você não o deve ter percebido e considerava coisa tão simples que um dia me disse: “Mas, faça uma boa confissão, Ana, e tudo retoma seu lugar”. Eu sabia que teria sido mesmo assim. Mas, o mundo, o demônio e a carne me prendiam já muito fortemen­te em suas redes.

Ao influxo do demônio eu nunca dei crédito e agora atesto que ele influi fortemente nas pessoas que se encontram nas con­dições em que me encontrava então. Somente muitas orações de outros e mesmo minhas, unidas com sacrifícios e sofrimentos, teriam conseguido arrancar-me dele. E, isto, só aos poucos. Se existem poucos obsessos externamente, há uma infinidade de obsessos internamente. O demônio não pode roubar a vontade livre daqueles que se entregam ao seu influxo. Mas, como castigo de sua, por assim dizer, apostasia metódica de Deus, este, permite que o “maligno” se aninhe neles.

Eu odeio também o demônio. No entanto, ele me agrada por­que procura arruinar vocês; ele e os seus satélites, ou espíritos caídos com ele, no princípio do tempo. Eles existem aos milhões. Vagabun­deiam pela terra como um enxame de moscas e vocês nem o perce­bem.[18]

Não compete a nós condenados a missão de ir tentar os ho­mens. Isto é tarefa dos espíritos decaídos.[19] Verdadeiramente, isto aumenta mais ainda o seu tormento cada vez que eles arrastam cá para o inferno uma alma humana. Mas, o que é que não faz o ódio?[20]

Embora eu andasse por caminhos afastados de Deus, Deus sempre me seguia. Preparava o caminho para a graça com atos de caridade natural que eu fazia muitas vezes por inclinação do meu temperamento. Algumas vezes, Deus me atraía para alguma igreja. Então, eu sentia, como que, uma saudade.

Quando cuidava de mamãe adoentada, não obstante o trabalho do escritório durante o dia e de certo modo me sacrificava de verdade, estes acenos de Deus agiam poderosamente. Uma vez, na capela do Hospital, onde você me havia levado, durante o intervalo do meio-dia, senti dentro de mim alguma coisa que teria sido necessário apenas um passo para a minha conversão: e eu chorei!

Mas, ao depois, a alegria do mundo passava de novo, como uma torrente, sobre a graça. A semente se sufocava entre os espi­nhos.[21]

Com a declaração de que a religião é questão de sentimento, como sempre se dizia no escritório, atirei ao cesto também esta moção de graça, como todas as outras.

Certa vez, você me chamou a atenção porque em vez de uma genuflexão bem feita, fiz apenas uma desajeitada inclinação, dobran­do o joelho. Você pensou que fosse preguiça. Não parecia sequer que você suspeitasse que eu desde aquele tempo, já não acreditava mais na presença de Cristo na Eucaristia.

Agora acredito, mas só naturalmente, como se acredita em um temporal, do qual decorrem os efeitos. Até então, eu estava instalada, propriamente, em uma religião a meu modo. Sustentava a opinião que entre nós, no escritório, era comum, que a alma após a morte reaparece em um outro ser. E deste modo, continuaria a peregrinar sem fim. Com isto, o angustiante problema do além era posto em seu lugar e ao mesmo tempo se tornava inofensivo para mim.

Porque você não me lembrou a parábola do rico epulão e do pobre Lázaro, em que o narrador, Cristo, manda, imediatamente, um para o inferno e outro para o céu?...[22]

Afinal, o que é que você teria conseguido? Nada, além do que conseguiram seus outros sermões de carolice!

Pouco a pouco, criei para mim mesma um deus. Bastante afastado de mim, para não ter que manter nenhuma relação com ele. Bastante vago para, conforme a necessidade, sem mudar minha religião, deixar-se assemelhar a um deus panteístico do mundo, ou então, para deixar-se poetizar como um deus solitário. Este deus não tinha nenhum céu para presentear-me e nenhum inferno para castigar-me. Eu o deixava em paz, e ele também a mim. Nisto consistia minha adoração a ele.

“A gente acredita, de boa vontade, no que nos agrada”. No correr dos anos, me conservei bastante convicta desta religião Deste modo, podia-se viver. Somente uma coisa me teria quebrado a cabeça: uma longa e profunda dor. E esta não veio!

Compreendi agora o que significa: “Deus castiga aqueles que ele ama?”[23]

Era um domingo de julho, quando a Associação das Moças, organizou uma excursão a... O passeio me teria sido bem agradável. Mas, aqueles sermões insípidos... passar por beata...

Uma outra imagem bem diferente daquela de Nossa Senhora de... estava agora no altar do meu coração. Max N. um comerciário vizinho. Pouco tempo antes, havíamos algumas vezes transado juntos. Justamente para aquele domingo, ele me havia convidado para um passeio. Aquela com que ele costumava passear estava doente no hospital.

Ele havia compreendido que eu estava de olho nele. Casar-nos, eu ainda não pensava naquele tempo. Era realmente possível, mas, ele se comportava demasiadamente delicado com todas as moças. E, eu até aquela época, desejava um homem que fosse exclusivamen­te meu. Desejava, não só ser mulher, mas, mulher única. Um certo traquejo natural, de fato, sempre tive.

(É verdade! Anita, com toda a sua indiferença religiosa, tinha algo de nobre no seu procedimento. Eu me espanto ao pensar que também pessoas bem educadas podem ir para o inferno, quando são tão mal-educadas a ponto de fugir de Deus).[24]

Naquele passeio Max se derreteu em gentilezas. E não houve lugar para conversações padrescas, como entre vocês.

No dia seguinte, no escritório, você me fez reclamações por não ter ido com vocês a..., e eu lhe descrevi meu divertimento naquele domingo. Sua primeira pergunta foi: “Você assistiu à Missa?” “— Bobinha! Como podia ir à Missa se a saída já estava marcada para as seis!” Lembra-se ainda como eu, nervosa, acrescentei: “Deus não pensa nestas minúcias, como os padrecos de vocês!”

Agora devo confessar:Deus, não obstante sua infinita bonda­de, pesa as coisas com maior precisão do que todos eles (os padres).

Depois daquele primeiro passeio com Max, fui ainda uma vez à Associação: pelo Natal para celebrar a festa. Havia alguma coisa que me convidava a voltar. Mas, internamente, me sentia já, afastada de vocês.

Cinema, baile, passeios, se sucediam sem trégua. Max e eu bri­gamos sim, algumas vezes, mas, eu soube sempre acorrentá-lo de novo, em mim.

Insuportável tornou-se-me a outra pretendente que, saindo do hospital, procedeu como uma louca. Realmente para sorte minha. Pois, minha nobre calma impressionou tanto o Max que ele acabou decidindo que eu fosse a preferida. Eu soube enchê-la de ódio falan­do friamente: por fora, positiva, por dentro vomitando veneno.

Tais sentimentos e tal procedimento preparam-me, excelente­mente, para o inferno. São diabólicos no sentido mais estrito da palavra.

Mas, por que lhe conto isto? Para relatar como me afastei definitivamente, de Deus.

Não que eu e Max, tenhamos, muitas vezes, chegado aos extre­mos da familiaridade. Eu compreendia que me teria rebaixado aos seus olhos, se me tivesse entregue, completamente, antes do tempo. Por isso, soube controlar-me. Mas, em si, toda vez que o julgava útil, estava sempre disposta a tudo. Devia conquistar Max. Para isso, nada era caro demais. Além disso, pouco a pouco nos amávamos, possuindo nós dois muitas e preciosas qualidades que nos faziam estimar um ao outro. Eu era hábil, inteligente, de agradável compa­nhia. Assim segurei Max, fortemente na mão e consegui, ao menos nos últimos meses antes do casamento, ser a única a possuí-lo.

Nisto consistiu minha apostasia de Deus: elevar uma criatura à categoria de ídolo para mim. Em nenhuma outra coisa pode acontecer isto, de modo que abranja tudo, como no amor de uma pessoa de outro sexo, quando este amor fica encalhado nas satisfa­ções terrenas.

É isto que forma o seu atrativo, o seu estímulo e o seu veneno. A “adoração” que eu tributava a mim mesma, na pessoa de Max, tornou-se para mim, religião vivida. Era o tempo em que, no escritó­rio, eu me insurgia, venenosa, contra os igrejeiros, os padres, as indulgências, contra o resmungo dos rosários e outras bobagens.

Você procurou, mais ou menos argutamente, tomar a defesa de tais coisas. Sem desconfiar, aparentemente, que no mais íntimo do meu ser, não se tratava, na verdade, destas coisas.

Eu procurava, mais que tudo, um apoio para minha consciên­cia — e tinha, então, necessidade de um tal sustento — para justificar, também com a razão a minha apostasia.

Afinal de contas, eu me revoltava contra Deus. Você não me compreendeu, considerando-me, ainda católica. Queria mesmo ser chamada assim; pagava até as taxas da igreja. Uma certa “contra-garantia” pensava, não devia prejudicar-me.

As suas respostas, pode ser que algumas vezes, tenham acertado o alvo. Para mim, nada adiantavam, porque você não devia ter razão. Por causa destas relações fictícias entre nós duas, é que foi mínimo o pesar de nossa separação, por ocasião de meu casamento. Antes do casamento confessei-me e comunguei ainda uma vez. Era obrigatório. Eu e meu marido, sobre este ponto, pensávamos do mesmo modo.

Por que não deveríamos satisfazer esta formalidade? Cumpra­mo-la também nós, como qualquer outra formalidade.

Você qualifica de indigna uma tal comunhão. Pois bem, depois daquela comunhão “indigna”, eu tive mais calma na consciência. Mas, também, foi a última.

A nossa vida conjugal transcorria, em geral, numa invejável harmonia. Em todos os pontos de vista tínhamos a mesma opinião. Até nisto: não queríamos arcar com o peso dos filhos. Realmente, meu marido, de boa vontade, teria tido um. Mais de um, não, é claro. No fim, eu soube desviá-lo também deste desejo.

Vestidos, móveis de luxo, salões de chá, passeios e viagens de carro e semelhantes distrações, me interessavam mais.[25] Foi um ano de prazer na terra aquele que transcorreu entre meu casamento e minha morte repentina.

Todo domingo, saíamos de carro ou íamos visitar os parentes de meu marido, (dos de minha mãe, agora me envergonhava). Estes flutuavam na superfície da existência, nem mais, nem menos que nós. Intimamente, é claro, nunca me sentia feliz, embora, externamente risse.

Havia, sempre, dentro de mim, alguma coisa de indeterminado que me roía. Teria querido que após a morte, a qual naturalmente, devia estar ainda muito longe, tudo acabasse.

Mas, é mesmo, como um dia, quando pequena, ouvi dizer na prática: que Deus premeia toda obra boa que a gente faz e quando não a puder recompensar na outra vida, fá-lo na terra.

Inesperadamente, recebi uma herança da tia Lotte. Meu mari­do felizmente conseguiu elevar seus vencimentos a uma notável quantia. Assim, pude organizar nova residência de maneira atraente.

A religião não refletia mais, senão de longe, a sua luz pálida, fraca e duvidosa. Os bares da cidade, os hotéis em que passávamos durante as viagens, não nos levavam, de certo, para Deus. Todos os que frequentavam aqueles lugares, viviam como nós, “de fora para dentro” e não “de dentro para fora”. Se em viagens de férias visitávamos alguma igreja, procurávamos deleitar-nos com o conteú­do artístico das obras. O clima religioso que inspiravam, especial­mente, aquelas da Idade Média, eu sabia neutralizar, criticando alguma circunstância secundária: um frade acanhado, ou mal vestido que nos guiava — o escândalo dos monges que queriam passar por santos e vendiam licores — o eterno repique de sinos para as funções sagradas só para ajuntar dinheiro...

Assim, soube, continuamente, espantar de mim a Graça, toda vez que ela batia à minha porta.

Deixava livre desabafo ao meu mau humor de modo particular sobre certas representações medievais do inferno, nos cemitérios ou em outros lugares, em que o demônio assa as almas em brasas vivas e incandescentes, enquanto seus companheiros, de longas caudas, arrastam pra cá novas vítimas. Clara! O inferno pode-se errar ao descrevê-lo, mas não se exagera nunca!

O fogo do inferno, eu sempre o ataquei decisivamente. Você sabe, como durante uma discussão a respeito, lhe coloquei um fósfo­ro diante do nariz e lhe perguntei com sarcasmo: “tem este cheiro?”" Você apagou, depressa a chama. Aqui ninguém a apaga. E, eu lhe digo: o fogo de que se fala na Bíblia não significa tormento de cons­ciência, não. Fogo é fogo! E deve-se entender literalmente aquilo que disse Ele: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo etemo!” Literalmente![26]
“Como pode o espírito ser atingido pelo fogo material?” Perguntará você.

Como pode sua alma sofrer, na terra, quando você coloca seu dedo no fogo? A alma, de fato, não queima. No entanto, que tormento experimenta o indivíduo todo! De modo análogo, nós não estamos espiritualmente ligados ao fogo, segundo a nossa nature­za e segundo as nossas faculdades. Nossa alma está privada do seu natural “bater de asas”, nós não podemos pensar aquilo que quere­mos.[27]

Não olhe com espanto para estas linhas: este estado, que, para vocês, não significa nada, me queima sem me consumir. Nosso maior tormento consiste em saber que nós jamais veremos a Deus.

Como pode isto atormentar tanto, uma vez que na terra a gente fica tão indiferente? Enquanto o punhal está sobre a mesa nos deixa indiferente. Vê-se que está bem afiado, mas, não o experi­mentamos. Enfia este punhal na sua carne e você começará a gritar de dor. Nós agora sentimos a perda Deus, antes, somente, pensáva­mos nela.[28]

Nem todas as almas sofrem em igual medida. Com quanto maior maldade e quanto mais sistematicamente uma pessoa pecou, tanto mais grave pesa sobre ela a perda de Deus e tanto mais a sufoca a criatura de que ela abusou.

Os católicos condenados sofrem muito mais do que os de outras religiões, porque estes, geralmente, receberam e desprezaram mais graças e mais luz.

Quem teve mais conhecimento, sofre mais duramente do que quem conheceu menos. Quem pecou por malícia sofre mais aguda­mente do que aquele que cai por fraqueza. Mas, ninguém sofre mais do que mereceu. Oh! Se isso não fosse verdade, de modo que eu tivesse um motivo para odiar!

Você me disse um dia que ninguém vai para o inferno sem saber e que isto teria sido revelado, por uma santa.

Eu me ri disso. Mas, depois, me escondi atrás desta declara­ção: “qual nada, em caso de necessidade, haverá bastante tempo para voltar atrás” me dizia secretamente.

E é verdade. Realmente, antes de meu inesperado fim, eu não conhecia o inferno como ele é. Nenhum mortal o conhece. Mas, eu tinha plena consciência: “se morres, vais, no mundo do além, rápida como uma flecha, contra Deus. Sofrerás as consequências”.

Eu não dei um passo sequer para trás, como já disse, porque estava dominada pelo hábito. Impelida por aquela conformidade pela qual os homens quanto mais envelhecem tanto mais agem em uma mesma direção. Minha morte foi assim.

Há uma semana — falo conforme a conta de vocês, porque, com relação à dor, poderia dizer que já fazem dez anos, que queimo no inferno - há uma semana, portanto meu marido e eu fizemos um passeio de domingo, o último para mim.

O dia surgiu radiante. Sentia-me bem como nunca. Invadiu-me um sinistro sentimento de felicidade que serpejou em mim durante todo o dia. Quando, de repente, na volta, meu marido foi ofuscado por um carro que vinha em alta velocidade.

Perdeu o controle.

“Jesus” me saiu dos lábios, como um arrepio. Não como oração, só como grito.[29]

Uma dor lancinante invadiu-me toda — comparada com a de agora, uma coisa à toa. Logo, perdi os sentidos.

Estranho! Naquela manhã surgiu em mim de modo inexplicá­vel este pensamento: “poderias ainda uma vez ir à missa”. Insistente como um pedido.

Claro e resoluto o meu “não” partiu o fio dos pensamentos: “"com estas coisas é preciso acabar de uma vez. Arco com todas as consequências”. Agora as sofro.

Isto que aconteceu após minha morte, você, já o saberá. A sor­te de meu marido, de minha mãe, tudo o que aconteceu a meu cor­po, o desenrolar de meus funerais, são conhecidos por mim em todos os seus pormenores, mediante conhecimentos naturais, que nós temos aqui.

O que afinal acontece na terra, nós só o sabemos confusamente. Mas aquilo que de alguma maneira nos atinge de perto, nós o conhecemos. Assim, vejo também onde você passa seu tempo.[30]

Eu mesma me acordei, inesperadamente, da escuridão, no instante de minha morte. Vi-me como que inundada por uma luz deslumbrante. Foi no lugar mesmo onde jazia meu corpo. Aconteceu como em um teatro, quando na sala, de repente, se apagam as luzes, o pano de boca se rasga rumorosamente, e se abre uma cena inespera­da, horrivelmente iluminada. A cena de minha vida. Como em um espelho minha alma se mostrou a mim mesma. As graças desprezadas da juventude até ao último “não” diante de Deus. Eu me senti como um assassino diante do qual, durante o processo judiciário, é levada sua vítima desfalecida.

—Arrepender-me? Nunca![31]

—Envergonhar-me? Tão pouco!

Eu não podia, porém nem sequer resistir-me diante dos olhos de Deus por mim rejeitado. Não sobrava senão um recurso: a fuga. Como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim, minha alma foi impeli­da para longe daquela vista de horror. Isto foi o juízo particular. O juiz invisível disse: “afasta-te de mim!” Então minha alma, como uma sombra amarela de enxofre precipitou no lugar do eterno tormento.[32]

Assim, terminava a carta de Anita, procedente do inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, de tão deformadas que estavam, A própria carta se encinerou nas minhas mãos.

************

De repente — que acontecia?
Na rude linguagem daquelas linhas que tinha acreditado ler, ressoa um suave toque de sinos.
Acordei de sobressalto. Estava ainda na cama, em meu quarto!
[33] O clarão vermelho da manhã penetrava pela janela. Da paróquia se ouvia o toque da Ave-Maria. Não sabia capacitar-me do quanto havia acontecido!
Nunca senti tanto o conforto da saudação angélica como após um tal retorno à serenidade da manhã. Recitei, lentamente, as três Ave Marias. Então, tornou-se claríssimo: “A Ela te deves manter segura, à bendita Mãe do Senhor; deves honrar filialmente a Maria se não queres ter a sorte de uma alma que não verá jamais a Deus”.
Tremendo ainda, pela assustadora noite, vesti-me depressa e corri pelas escadas abaixo, para a capela da casa.
Meu coração batia até na garganta. As poucas hóspedes ajoe­lhadas mais perto de mim, me reparavam. Talvez, pensasssem, que eu estivesse tão excitada porque havia corrido pelas escadas.
Uma velha e bondosa senhora de Budapeste, já experimentada pelo sofrimento, fraca como uma criança, míope, mas perita nas coisas espirituais e fervorosa no servir a Deus, à tarde no jardim, me disse sorrindo: “Menina, Deus não quer ser servido pelo trem expresso!”
Mas, em seguida percebeu que alguma outra coisa me havia agitado e ainda me agitava. Tranquilizando-me, acrescentou:

“Nada te perturbe...” — você conhece o verso de Santa Teresa?

"Nada te perturbe.
Nada te amedronte.
Tudo passa,
Deus não se muda.
A paciência
Tudo consegue.
A quem possui Deus
Não falta nada:
Deus só basta”
[34]

Enquanto ela sussurrava estes versos, devagar e sem nenhuma tonalidade instrutiva, me pareceu que eu lia na minha alma: – “Deus só basta!”[35]
Sim. Ele só me deve bastar aqui embaixo e no além. Eu quero, um dia, possuí-lo no além, mesmo que me custe aqui muitos sacrifí­cios. Não quero ir para o inferno.
************


A pessoa que fez a presente publicação no original alemão, prefere conservar-se a si mesma, e os demais atores do acontecimento, na reserva do anonimato.
O escrito, entretanto, corre em prósperas edições, pelas mãos dos leitores sempre mais numerosos e, fere o espírito, de comoção, de piedade e de estremecimento.
Suas páginas vivas e espantosas, encerram uma experiência, muito humana e comum da vida terrena, em que se defronta grande parte da complexa religiosidade contemporânea. Ao mesmo tempo, levantam o véu do mais fascinante e terrível mistério que nos espera.
Não se podem ler com indiferença ou só por curiosidade; a gente se vê, no fim, empenhado, pessoalmente, em uma revalorização reflexa de juízo e ao mesmo tempo de sentimento.
No drama que esta testemunha faz reviver, vem expressa, embora de maneira estritamente pessoal, toda a realidade humana e divina em que está se atualizando e desenvolvendo a nossa existência.
Sentimo-nos honrados em oferecer à sensibilidade dos leitores brasileiros este breve documento de vida.

Roma, março de 1952
************

[1] H. Federer (1866-1928), sacerdote, romancista popular; “Jovem Teresa”. 1913.
[2] Muitas vezes os homens, enganados pelo Maligno, se desvaneceram em seus pensamen­tos e mudaram a Verdade de Deus em mentira, servindo à criatura mais que ao Criador ou, vivendo e morrendo SEM DEUS neste mundo se expõem a CONDENAÇÃO ETER­NA. (Conc. Vat. II Lg 16)
[3] Palavras de Meflstofele em “Fausto” de Goethe.
[4] Os condenados quereriam que todos os bons se condenassem. – Santo Tomás de Aquino – Summa Teológica (S. Th) Suplemento (Spl) Q 98, a. 4.
[5] Eles têm uma vontade deliberativa. Tal vontade neles é somente má! (S. Th. Spl. Q. 98, a. 1, r)
[6] O não existir... enquanto libertaria de uma vida de punição e de infelicidade... seria me­lhor para os condenados do que ser infelizes..., e assim preferiram não existir. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 3, r)
[7] Não há nada nos condenados que não lhes seja matéria e motivo rio pena. Assim (por exemplo) quando voltam a sua atenção para coisas conhecidas na vida. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 7, r)
[8] ...e os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá CHORO E RANGER DE DENTES. (Mt 13, 41)
[9] Nos condenados domina um ódio perfeito. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 4, r)
[10] Antes do dia do juízo, os condenados não veem os bem-aventurados a ponto de conhecer a natureza da sua glória, mas sabem somente que eles se encontram em uma glória inesti­mável. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 9, r)
[11] ...os condenados tem ódio a Deus porque Ele os castiga e lhes proíbe aquilo que esta­ria de acordo com a própria maldade de sua vontade. Por isso o consideram somente co­mo punidor e proibidor". Portanto, conhecendo a Deus nos efeitos da sua justiça, isto é, na sua punição, odelam-no como odeiam os castigos que eles suportam. (S. Th. Spl. Q. 98 a. 8 ad 1)
[12] Na condenação dos réprobos aparece a misericórdia de Deus enquanto Ele os cas­tiga menos do que mereceriam. (S. Th. I Q. 21 a. 4 ad 1)
[13] Os detalhes precedentes sobre o pai de Anita e o episódio seguinte são fatos comprova­dos.
[14] É um parêntesis do manuscrito.
[15] O nome de Maria, Mãe de Deus, não é pronunciado. Atestado pelos exorcistas em várias ocasiões. Em Fátima, Ela mostrou às crianças o horror do inferno e lembrou a arma poderosa que o cristão tem – a reza do Santo Rosário. (13 de julho 1917)
[16] Vós, portanto, deveis rezar assim: “Pai nosso, que estais no céu...” (Mt 6, 9)
[17] Porque onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração. O olho é a lâmpada do corpo... (Mt 6, 21)
[18] S. Pedro escreve: “Irmãos sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o demônio, vos circunda como um leão que ruge procurando a quem devorar” (1 Pedro 5, 8). O rugido não significa que satanás faça muito barulho com suas tentações, mas, ao contrário, ex­prime a avidez com que ele procura perder-nos.
S. Paulo escreve aos Efésios(6, 11-12): “Revesti-vos com a couraça de Deus, para poder enfrentar as insídias do demónio, pois que não é a nossa luta com o sangue e com a car­ne (contra os homens), mas, contra os Principados e as Potestades, contra os dominadores do mundo das trevas, contra os espíritos malignos do ar”. Aqui, se diz claramente que o maligno nos hostiliza com inúmeros satélites provenientes dos vários coros dos an­jos decaídos (Principados, potestades etc). (Conf. S. Th. l Q, 63, a. 9, ad 3). O demônio não deveria chamar-se: “"dominador do mundo” se seu influxo na terra não fosse podero­so.
[19] Não compete aos réprobos levar à ruína os outros, este é ofício próprio do demônio. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 6, ad 2)
[20] Quanto mais aumenta o número dos danos tanto mais cresce o tormento de cada um. Es­tão porém tão cheios de ódio e de inveja, que eles preferem sofrer mais em companhia de muitos, do que sofrer menos, sozinhos. {S. Th. Spl. Q. 98, a. 4, ad 3)
[21] A semente que caiu entre espinhos representa aqueles que ouvem, mas são sufocados pelas preocupações, pelas RIQUEZAS e pelos PRAZERES da vida. (Lc 8,14)
[22] Jesus nos lembra bem claramente a sorte dos condenados. (Lc 6,19-31)
[23] Hbr. 12, 6 – Prov. 3,12.
[24] Anotação do manuscrito.
[25] Larga é a porta e ESPAÇOSO O CAMINHO que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela. (Mt 7,13)
[26] ...apartar-nos para o fogo eterno... (Conc. Vat II LG 48)
[27] O logo do Inferno atormenta o espírito impedindo-o de seguir a sua vontade. Este, (o es­pírito) não pode agir onde quer e como quer. (S. Th. Spl. Q. 79, a. 3 r.)
[28] Estar separado de Deus é um castigo tão grande quanto grande é o próprio Deus. (Tre­cho atribuído a S1o Agostinho).
[29] Jesses - corruptela da Jesus, usado frequentemente entra algumas populações de lín­gua alemã.
[30] As almas dos que morreram não tem um conhecimento certo e distinto de todas as coisas naturais, mas, somente, um conhecimento genérico e confuso. (S. Th. I Q. 89, a. 3 r.)
[31] Os maus propriamente não se arrependem dos pecados, porque estão presos ao pecado com uma vontade pérfida. Porém, sentem desprazer enquanto são atormentados pela pe­na do pecado. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 2 r.)
[32] Hervé - Praelect Theol. Dogm. 12a edição – (Paris, 1934), IV n°694: "É certo, e confor­me Suarez até artigo de fé, que o Inferno é um lugar determinado". A eternidade das pe­nas do inferno é verdade de fé; talvez, a mais terrível de todas. Conf. na Escritura Sagra­da: Mal 25, 41 e 46; 2ª.Tess. 1, 9; Juízes, 5, 13; Apoc 14, 11 e 20, 10. Todos trechos in­confutáveis em que a palavrinha “eterno” não se pode mudar em "longo". Se não fosse permitido ilustrar esta verdade de fé com um fato particular, nem sequer o Divino Salvador teria narrado a parábola do rico Epulão e do pobre Lázaro. Lá ele fez, precisamente o mesmo que se conta aqui: descreveu a grandes pinceladas o inferno e como se vai para lá. Não por espírito de sensacionalismo, mas impelido pela mesma intenção que deu ori­gem a esta publicação: intenção expressa naquelas palavras: "desçamos vivos ao inferno, para não descer lá morrendo". Esta expressão é uma paráfrase do v. 16 do Salmo 54: "Caia a morte sobre eles e desçam vivos aos Infernos". "Descendant viventes ne descendant morientes", que se encontra em Gullaume de Saint-Thirry, meditativae orationes, Med. VI, Ed. M. M. Davy, Paris 1934, pág. 156 -160 e na carta ad fratresde Monte Del, do mesmo autor, Ed. M. M. Davy. Un traité de la vie solitaire pág. 79, Paris, 1940, obra outrora atribuída a São Bernardo.
[33] De Deus pode depender, alguma vez, a causa espiritual do sonho. Ele pelo ministério dos Anjos revela algumas coisas aos homens mediante os "sonhos". De fato também na agiografia, frequentemente, o sonho serve de estímulo providencial para obras boas e gran­des. (S. Th. Il-ll Q. 95, a. 6)
[34] Obras de Santa Teresa d'Avila da autoria do P. Camillo Mella S. J. (Modena, 1884, t. VII, pág. 200).
[35] Procurai, portanto, primeiro o Reino de Deus e sua justiça. (Mt 6, 33)