Mostrando postagens com marcador Revolução Francesa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Revolução Francesa. Mostrar todas as postagens

23 de dezembro de 2011

A Dupla Concepção de Vida



CAPÍTULO II
A DUPLA CONCEPÇÃO DE VIDA

A civilização cristã procede de uma concepção de vida diversa daquela que dera origem à civilização pagã.

O paganismo, empurrando o gênero humano pelo declive em que o pecado original o colocara, dizia ao homem que ele estava sobre a terra para fruir a vida e os bens que este mundo lhe oferece. O pagão não ambicionava, não buscava nada além disso; e a sociedade pagã estava constituída para oferecer esses bens tão abundantes e esses prazeres tão refinados, ou também tão grosseiros quanto possam ser, para os que estavam em situação de pretendê-los. A civilização antiga nasceu desse princípio, todas as suas instituições dele decorriam, sobretudo as duas principais, a escravidão e a guerra. Pois a natureza não é suficientemente generosa, e sobretudo então não tinha sido cultivada pelo tempo necessário e bastante bem para oferecer a todos os prazeres cobiçados. Os povos fortes subjugavam os povos fracos, e os cidadãos escravizavam os estrangeiros e mesmo seus irmãos, para obter produtores de riquezas e instrumentos de prazer.

O cristianismo chegou e fez o homem compreender que devia procurar numa outra direção a felicidade cuja necessidade não cessa de atormentá-lo. Ele destruiu a noção que o pagão criara da vida presente. O divino Salvador ensinou-nos por Sua palavra, persuadiu-nos por Sua morte e ressurreição, que se a vida presente é uma vida, ela não é A VIDA que Seu Pai nos destinou.

A vida presente não é senão a preparação para a vida eterna. Aquela é o caminho que conduz a esta. Nós estamos in via, diziam os escolásticos, caminhando ad terminum, na estrada para o céu. Os sábios de hoje exprimiriam a mesma idéia, dizendo que a terra é o laboratório no qual se formam as almas, no qual se recebem ese desenvolvem as faculdades sobrenaturais que o cristão, após a morte, gozará na morada celeste. Como a vida embrionária no seio materno. É também uma vida, mas uma vida em formação, na qual se elaboram os sentidos que deverão funcionar na estada terrestre: os olhos que contemplarão a natureza, o ouvido que recolherá suas harmonias, a voz que a isso misturará seus cantos etc.

No céu nós veremos a Deus face a face,1 é a grande promessa que nos foi feita.
Toda a religião está baseada nela. E no entanto nenhuma natureza criada é capaz
dessa visão.

Todos os seres vivos têm sua maneira de conhecer, limitada por sua própria natureza. A planta tem um certo conhecimento das substâncias que devem servir à sua manutenção, posto que suas raízes se estendem em direção a elas, procurandoas para ingeri-las. Esse conhecimento não é uma visão. O animal vê, mas ele não tem a inteligência das coisas que seus olhos abarcam. O homem compreende essas coisas, sua razão as penetra, abstrai as idéias que elas contêm e através delas se eleva à ciência. Mas as substâncias das coisas permanecem escondidas, porque o homem é apenas um animal racional e não uma pura inteligência. Os anjos, inteligências puras, vêem a si mesmos na sua substância, podem contemplar diretamente as substâncias da mesma natureza da deles, e com mais razão as substâncias inferiores. Mas eles não podem ver a Deus. Deus é uma substância à parte, de uma ordem infinitamente superior. O maior esforço do espírito humano conseguiu qualificá-Lo de “ato puro”, e a Revelação nos diz que Ele é uma trindade de pessoas na unidade da substância, a segunda engendrada pela primeira, a terceira que procede das outras duas, e isso numa vida de inteligência e de amor que não tem começo nem fim. Ver a Deus como Ele é, amá-Lo como Ele Se ama -- e nisto consiste a beatitude prometida -- está acima das forças de toda natureza criada e mesmo possível. Para compreendê-Lo, essa natureza não deveria ser nada menos que igual a Deus.

Mas aquilo que não tem cabimento pela natureza pode sobrevir pelo dom gratuito de Deus. E isto é: nós o sabemos porque Deus no-lo disse ter feito. Isto serve para os anjos e isto serve para nós. Os anjos bons vêem a Deus face a face, e nós somos chamados a gozar da mesma felicidade.

Nós não podemos chegar a isso senão por alguma coisa de sobre-acrescentado, que nos eleva acima de nossa natureza, que nos torna capazes daquilo de que somos radicalmente impotentes por nós mesmos, como seria o dom da razão para um animal ou o dom da visão para uma planta. Essa alguma coisa é chamada aqui em baixo de graça santificante. É, diz o apóstolo São Pedro, uma participação na natureza divina. E é preciso que seja assim; pois, como acabamos de ver, em nenhum ser a operação ultrapassa, pode ultrapassar a natureza desse ser. Se um dia somos capazes de ver
a Deus, é porque alguma coisa de divino terá sido depositada em nós, ter-se-á tornado uma parte do nosso ser, e o terá elevado até torná-lo semelhante a Deus. “Bemamados, diz o apóstolo São João, agora somos filhos de Deus, e aquilo que um dia seremos ainda não se manifestou: seremos semelhantes a Ele, porque nós O veremos tal como Ele é” (I Jo., III, 2).

Essa alguma coisa nós a recebemos desde este mundo, no santo Batismo. O apóstolo São João a chama um germe (I Jo., III, 9), isto é, o início de uma vida. Era o que Nosso Senhor nos assinalava quando falava a Nicodemos sobre a necessidade de um novo nascimento, de uma geração para a nova vida: a vida que o Pai tem nEle mesmo, que Ele dá ao Filho, e que o Filho nos traz ao nos enxertar nEle pelo Santo Batismo. Essa palavra enxerto, que dá uma imagem tão viva de todo o mistério, São Paulo a tomara de Nosso Senhor, que disse a Seus apóstolos: “Eu sou a videira, vós sois os ramos. Assim como o ramo não pode dar fruto por si só, sem permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim”.

Essas idéias elevadas eram familiares aos primeiros cristãos. O que o demonstra é que os apóstolos, quando levados a falar delas nas Epístolas, fazem-no como de uma coisa já conhecida. E de fato, foi assim que os ritos do batismo lhes foram apresentados em longas catequeses. Depois, as vestes brancas dos neófitos lhes dizia que eles começavam uma vida nova, que relativamente a essa vida eles estavam nos dias da infância: Filhos espirituais, era-lhes dito, como crianças recém-nascidas, desejai ardentemente o leite que deve alimentar vossa vida sobrenatural: o leite da fé sem alteração, sine dolo lac concupiscite, e o leite da caridade divina. Quando o desenvolvimento do germe que recebestes tiver chegado a seu fim, essa fé tornar-se-á clara visão, essa caridade tornar-se-á amor divino.

Toda a vida presente deve tender a esse desabrochar, à transformação do velho homem, do homem da pura natureza e mesmo da natureza decaída, em homem deificado. Eis o que acontece aqui em baixo ao cristão fiel. As virtudes sobrenaturais, infundidas em nossa alma no batismo, desenvolvem-se a cada dia pelo exercício que nós lhes damos com os socorros da graça, e tornam assim a graça capaz das atividades sobrenaturais que deverá desdobrar no céu. A entrada no céu será o nascimento, assim como o batismo foi a concepção.

Assim são as coisas. Eis o que Jesus fez e a respeito do que Ele veio informar o gênero humano. Desde então a concepção da vida presente foi radicalmente mudada. O homem não estava mais sobre a terra para gozar e morrer, mas para se preparar para a vida do alto e merecê-la.

GOZAR, MERECER, são as duas palavras que caracterizam, que separam, que opõem as duas civilizações.

Isto não quer dizer que desde o momento em que o cristianismo foi pregado os homens não pensaram em mais nenhuma outra coisa que não fosse a sua santificação. Eles continuaram a perseguir as finalidades secundárias da vida presente, e a cumprir, na família e na sociedade, as funções que elas requerem e os deveres que elas impõem. Ademais, a santificação não se opera unicamente pelos exercícios espirituais, mas pelo cumprimento de todo dever de estado, por todo ato feito com pureza de intenção. “Tudo quanto fizerdes, diz o apóstolo São Paulo, por palavras ou por obras, fazei-o em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo... Trabalhai para agradar a Deus em todas as coisas, e dareis frutos em toda boa obra” (Col., I, 10 e III, 17).

Além disso, permaneceram na sociedade, e nela permanecerão até o fim dos tempos, as duas categorias de homens que a Santa Escritura tão bem denomina: os bons e os maus. Todavia é de se reparar que o número dos maus diminui e o número dos bons aumenta à medida que a fé adquire mais influência na sociedade. Estes, porque têm a fé na vida eterna, amam a Deus, fazem o bem, observam a justiça, são os benfeitores de seus irmãos, e por tudo isso fazem reinar na sociedade a segurança e a paz. Aqueles, porque não têm fé, porque seus olhares ficaram fixados nesta terra, são egoístas, sem amor, sem piedade por seus semelhantes: inimigos de todo o bem, eles são na sociedade uma causa de discórdia e de impedimento para a civilização.

Misturados uns aos outros, os bons e os maus, os crentes e os incrédulos, formam as duas cidades descritas por Santo Agostinho: “O amor a si, que pode ir até ao desprezo de Deus, constitui a sociedade comumente chamada “o mundo”; o amor a Deus, levado até ao desprezo de si mesmo, produz a santidade e povoa “a vida celeste”.

À medida que a nova concepção da vida trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo à terra entrou nas inteligências e penetrou nos corações, a sociedade se modificou: o novo ponto de vista mudou os costumes, e, sob a pressão das idéias e dos costumes, as instituições se transformaram. A escravidão desapareceu, e ao invés de se ver os poderosos subjugarem seus irmãos, viu-se-os se dedicarem até ao heroísmo para obter-lhes o pão da vida presente, e também, e sobretudo, para obter-lhes o pão da vida espiritual, para elevar as almas e santificá-las. A guerra não mais foi feita para se apoderar dos territórios de outrem, e conduzir homens e mulheres à escravidão, mas para quebrar os obstáculos que se opunham à expansão do reino de Cristo e obter para os escravos do demônio a liberdade dos filhos de Deus.

Facilitar, favorecer a liberdade dos homens e dos povos nos seus passos em direção ao bem, tornou-se a finalidade para a qual as instituições sociais se encaminharam, senão sua finalidade expressamente determinada. E as almas aspiraram ao céu e trabalharam para merecê-lo. A busca dos bens temporais pelo gozo que deles se pode tirar não foi mais o único nem mesmo o principal objeto da atividade dos cristãos, pelo menos dos que estavam verdadeiramente imbuídos do espírito do cristianismo, mas a busca dos bens espirituais, a santificação da alma, o crescimento das virtudes, que são o ornamento e as verdadeiras delícias da vida daqui de baixo, e ao mesmo tempo garantia da bem-aventurança eterna.

As virtudes adquiridas pelos esforços pessoais se transmitiam pela educação de uma geração a outra; e assim se formou pouco a pouco a nova hierarquia social, fundada não mais sobre a força e seus abusos, mas sobre o mérito: em baixo, famílias que se detiveram na virtude do trabalho; no meio, aquelas que, sabendo juntar ao trabalho a moderação no uso dos bens que ele lhes propicia, fundaram a propriedade através da poupança; no alto, aquelas que, desembaraçando-se do egoísmo, se elevaram às sublimes virtudes da dedicação a outrem: povo, burguesia, aristocracia. A sociedade foi baseada e as famílias escalonadas sobre o mérito ascendente das virtudes, transmitidas de geração em geração.

Tal foi a obra da Idade Média. Durante seu curso, a Igreja realizou uma tripla tarefa. Ela lutou contra o mal que provinha das diversas seitas do paganismo e o destruiu; ela transformou os bons elementos que se encontravam entre os antigos romanos e as diversas espécies de bárbaros; enfim, Ela fez triunfar a idéia que Nosso Senhor Jesus Cristo dera da verdadeira civilização. Para aí chegar, Ela tinha-Se empregado primeiramente em reformar o coração do homem; daí viera a reforma da família, a família reformara o Estado e a sociedade: via inversa daquela que se quer seguir hoje.

Sem dúvida, crer que, na ordem que acabamos de explanar, não tenha havido desordem, seria se enganar. O antigo espírito, o espírito do mundo, que Nosso Senhor havia anatematizado, jamais foi, jamais será completamente vencido e aniquilado. Sempre, mesmo nas melhores épocas, ainda quando a Igreja obteve na sociedade a maior ascendência, houve homens bons e homens maus; mas viam-se as famílias subir em razão de suas virtudes ou declinar em razão de seus vícios; viam-se os povos distinguir-se entre si por suas civilizações, e o grau de civilização prender-se às aspirações dominantes em cada nação: elas se elevavam quando essas aspirações depuravam e subiam; elas regrediam quando suas aspirações levavam-nas em direção ao gozo e ao egoísmo. Entretanto, ainda que acontecesse que nações, famílias, indivíduos se abandonassem aos instintos da natureza ou a eles resistissem, o ideal cristão permanecia sempre inflexivelmente mantido sob os olhos de todos pela Santa Igreja.

O impulso imprimido à sociedade pelo cristianismo começou a diminuir, dissemos, no século XIII; a liturgia o percebe e os fatos o demonstram. Inicialmente houve a paralisação, depois o recuo. Esse recuo, ou melhor, essa nova orientação, foi logo tão manifesta que recebeu um nome, a RENASCENÇA, renascença do ponto de vista pagão na idéia da civilização. E com o recuo veio a decadência. “Tendo-se em conta todas as crises atravessadas, todos os abusos, todas as sombras no quadro, é impossível contestar que a história da França -- a mesma observação vale para toda a república cristã -- é uma ascensão, como história de uma nação, enquanto a influência moral da Igreja domina, e que ela se torna uma queda, apesar de tudo o que essa queda às vezes tem de brilhante e de épico, desde que os escritores, os sábios, os artistas e os filósofos substituíram a Igreja e A despojaram de seu domínio”.2


1 Vidimus nunc per speculum in aenigmate: tunc autem facie ad faciem. Nunc cognosco ex parte: tunc autem cognoscam sicut cognitus sum. (I Cor., XIII, 12). Agora vemos num espelho e em enigma: mas então veremos face a face. Agora conheço imperfeitamente: mas então conhecerei como sou conhecido (por intuição). (Conf. Mat. XVIII, 10; I Jo, III, 2). O Concílio de Florença definiu: Animae sanctorum... intuentur clare impsum Deum trinum et unum sicut est: As almas dos santos vêem claramente o próprio Deus, tal qual Ele é na trindade das pessoas e na unidade de Sua natureza.  
 
2 Maurice Talmeyr.


Fonte: DELASSUS, Monsenhor Henri. A Conjuração Anticristã - O Templo Maçônico que quer se erguer sobre as ruínas da  I g r e j a  C a t ó l i c a. Tomo I, Capítulo II – A Dupla Concepção de Vida, p.16-19.

9 de outubro de 2011

As duas civilizações

I

ESTADO DA QUESTÃO

CAPÍTULO I

AS DUAS C IVI L I Z A Ç Õ ES

O Syllabus de Pio IX termina com esta proposição condenável e condenada:

“O Pontífice romano pode e deve se reconciliar e transigir com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna”.

A última proposição do decreto que se chamou o Syllabus de Pio X, proposição igualmente condenável e condenada, está concebida assim:

“O catolicismo de hoje não se pode conciliar com a verdadeira ciência, a menos que se transforme num cristianismo não dogmático, isto é, num protestantismo sábio e liberal”.

Sem dúvida não foi sem intenção que essas duas proposições receberam, num e noutro Syllabus, este lugar, o último, aparecendo aí como conclusão. Dá-se que, com efeito, essas proposições resumem as precedentes e precisam-lhes o espírito.1

É necessário que a Igreja se reconcilie com a civilização moderna. E a base proposta para essa reconciliação é, não a aceitação dos dados da verdadeira ciência, que a Igreja jamais repudiou, que Ela sempre favoreceu, cujos progressos Ela sempre aplaudiu e para o qual contribuiu mais do que qualquer outra instituição; mas o abandono da verdade revelada, abandono que transformaria o catolicismo num protestantismo largo e liberal, no qual todos os homens pudessem se reencontrar, quaisquer que fossem suas idéias a respeito de Deus, de Suas revelações e de Seus mandamentos. Dizem os modernistas que é apenas através desse liberalismo que a Igreja pode ver novos dias se abrirem diante dEla, obter a honra de entrar nas vias da civilização moderna e marchar junto com o progresso.

Todos os erros assinalados num e noutro Syllabus apresentam-se como as diversas cláusulas do tratado proposto à assinatura da Igreja para essa reconciliação com o mundo, para sua admissão na cidade moderna.

Civilização moderna. Existe, pois, civilização e civilização? Existiu, portanto, antes da era dita moderna uma civilização diversa daquela que o mundo de nossos dias usufrui, ou pelo menos, persegue?

Com efeito, existiu, e existe ainda na França e na Europa, uma civilização chamada civilização cristã.

Que motivo faz com que essas duas civilizações se diferenciem?

Elas se diferenciam pela concepção que têm do fim último do homem, e dos efeitos diversos e mesmo opostos que uma e outra concepção produzem assim na ordem social como na ordem privada.

Jacques-Bénigne Bossuet (Nascido em, 27 de setembro de 1627 - e morreu em Paris, 12 de abril de 1704) foi um bispo e teólogo francês.
“O objetivo último do homem é ser feliz”,2 diz Bossuet. Isto não é exclusivo dele: é o fim para o qual tendem todas as inteligências, sem exceção. O grande orador não falha em reconhecer isso: “As naturezas inteligentes não têm vontade nem desejo senão para sua felicidade”. E acrescenta: “Nada de mais razoável, porque o que há de melhor do que desejar o bem, quer dizer, a felicidade?”3 Assim, encontramos no coração do homem um impulso invencível, que o impele a procurar a felicidade. Se quisesse, não poderia se desfazer dele. É o fundo de todos os seus pensamentos, o grande móvel de todas as suas ações; e mesmo quando ele se atira à morte, é por estar persuadido de achar no nada uma sorte preferível àquela na qual ele se vê.

O homem pode se enganar, e de fato ele se engana muito freqüentemente na busca da felicidade, na escolha da via que deve levá-lo a ela. “Colocar a felicidade onde ela está é a fonte de todo o bem, diz ainda Bossuet; e a fonte de todo o mal consiste em colocá-la onde não é preciso”.4 Isto é tão verdadeiro para a sociedade como para o homem individual. O impulso em direção à felicidade vem do Criador, e Deus nele acrescenta Sua luz para iluminar o caminho, diretamente por Sua graça, indiretamente pelos ensinamentos de Sua Igreja. Mas pertence ao homem, indivíduo ou sociedade, pertence ao livre arbítrio dirigir-se, ir buscar sua felicidade ali onde lhe agrada colocá-la, no que é realmente bom, e, acima de toda bondade, no Bem absoluto, Deus; ou naquilo que têm apenas as aparências do bem, ou que não é senão um bem relativo.

Desde a criação do gênero humano o homem se desviou do bom caminho. Ao invés de crer na palavra de Deus e de obedecer à Sua determinação, Adão deu ouvidos à voz encantadora que lhe dizia para colocar seu fim nele mesmo, na satisfação de sua sensualidade, nas ambições de seu orgulho. “Sereis como deuses”; “o fruto da árvore era bom de comer, belo de ver, e de um aspecto que excitava o desejo”. Tendo assim se desviado desde o primeiro passo, Adão arrastou sua descendência na direção que ele acabava de tomar.

Nessa direção ela caminhou, nessa direção ela avançou, nessa direção ela submergiu durante longos séculos. A história aí está para contar os males que ela encontrou nesse longo extravio. Deus teve piedade dela. No Seu conselho de infinita misericórdia e de infinita sabedoria, Ele resolveu recolocar o homem sobre o caminho da felicidade. E a fim de tornar Sua intervenção mais eficaz, Ele quis que uma Pessoa divina viesse sobre a terra mostrar o caminho por Sua palavra, tocar os homens por Seu exemplo. O Verbo de Deus se encarnou e veio passar trinta e três anos entre nós, para nos tirar da via da perdição e para nos abrir a estrada de uma felicidade não enganosa.

Suas palavras e Seus atos derrubavam todas as idéias até então aceitas. Ele dizia: Bem-aventurados os pobres! Bem-aventurados os mansos, os pacíficos, os misericordiosos! Bem-aventurados os puros! Até a vinda dEle, dizia-se: Bemaventurados os ricos! Bem-aventurados aqueles que dominam! Bem-aventurados os que vivem sem nada recusar às suas paixões! Ele tinha nascido em um estábulo, fizera-Se o servidor de todos, sofrera morte e paixão, a fim de que não se considerassem suas palavras meras declamações, mas lições, as mais persuasivas lições que possam ser concebidas, dadas que eram por um Deus, e um Deus que Se aniquilou por amor a nós.

Ele quis perpetuar essas lições, torná-las sempre expressivas e operantes aos olhos e nos ouvidos de todas as gerações que deviam vir. Para isso Ele fundou a Santa Igreja. Estabelecida no centro da humanidade, Ela não cessou, pelos ensinamentos de seus doutores e pelos exemplos de seus santos, de dizer a todos os que Ela viu passar sob seus olhos: “Procurais, ó mortais, a felicidade, e procurais uma coisa boa; ficai atentos apenas para não procurardes onde ela não está. Vós a procurais na terra, mas não é aí que ela está estabelecida, nem aí que se encontram esses dias felizes dos quais nos falou o divino Salmista: Diligit dies videre bonos... Aí estão os dias de miséria, os dias de suor e de trabalhos, os dias de gemidos e de penitência, aos quais nós podemos aplicar as palavras do profeta Isaías: “Meu povo. Os que te dizem feliz, abusam de ti e perturbam tua conduta”. E ainda: “Os que fazem o povo acreditar que é feliz, são enganadores”. Pois onde se encontra a felicidade e a verdadeira vida, senão na terra dos vivos? Quem são os homens felizes, senão aqueles que estão com Deus? Esses vêem dias bonitos, porque Deus é a luz que os ilumina. Esses vivem na abundância, porque Deus é o tesouro que os enriquece. Esses, enfim, são felizes, porque Deus é o bem que os contenta e que, somente Ele, é tudo para todos”.5

Do século I ao século XIII, os povos tornaram-se cada vez mais atentos a essa pregação, e o número dos que dela fizeram luz e regra de vida foi cada vez maior. Sem dúvida, havia fraquezas, fraquezas das nações e fraquezas das almas.

Mas a nova concepção da vida permanecia lei para todos, lei que os desvios não faziam perder de vista e à qual todos sabiam, todos sentiam que era preciso retornar uma vez que se tivessem afastado. Nosso Senhor Jesus Cristo, com Seu Novo Testamento, era o doutor escutado, o guia seguido, o rei obedecido. Sua realeza era a tal ponto reconhecida pelos príncipes e pelos povos, que eles a proclamavam até em suas moedas. Em todas estava gravada a cruz, o signo augusto da idéia que o cristianismo tinha introduzido no mundo, que era o princípio da nova civilização, da civilização cristã, que devia regê-lo, o espírito de sacrifício oposto à idéia pagã, ao espírito de gozo que tinha construído a civilização antiga, a civilização pagã.

À medida que o espírito cristão penetrava as almas e os povos, almas e povos cresciam na luz e no bem, se elevavam pelo só fato de verem a felicidade no alto e de a carregarem consigo. Os corações tornavam-se mais puros, os espíritos mais inteligentes. Os inteligentes e os puros introduziam na sociedade uma ordem mais harmoniosa, aquela que Bossuet nos descreveu no sermão sobre a eminente dignidade dos pobres. A ordem mais perfeita tornava a paz mais geral e mais profunda; a paz e a ordem engendravam a prosperidade, e todas essas coisas davam ensejo às artes e às ciências, esses reflexos da luz e da beleza dos céus. De sorte que, como observou Montesquieu: “A religião cristã, que parece não ter outro objetivo além da felicidade da outra vida, ainda constrói nossa felicidade nesta”.6 É, ademais, o que São Paulo tinha anunciado, quando disse: “Pietas ad omnia utilis est, promissiones habens vitae quae nunc est et futuraep. A piedade é útil para tudo, possuindo as promessas da vida presente e aquelas da vida futura”.7 Não havia o próprio Nosso Senhor dito: “Procurai primeiro o reino de Deus e Sua Justiça, que o resto vos será dado de acréscimo”?8 Não há aí uma promessa de ordem sobrenatural, mas o anúncio das conseqüências que deviam sair logicamente da nova orientação dada ao gênero humano.

De fato, vemos que o espírito de pobreza e a pureza de coração dominam as paixões, fontes de todas as torturas da alma e de todas as desordens sociais. A mansidão, a pacificação e a misericórdia produzem a concórdia, fazem reinar a paz entre os cidadãos e na cidade. O amor da justiça, mesmo contrariado pela perseguição e pelo sofrimento, eleva a alma, enobrece o coração e lhe proporciona os mais sãos prazeres; ao mesmo tempo eleva o nível moral da sociedade.

Que sociedade, aquela em que as bem-aventuranças evangélicas fossem colocadas sob os olhos de todos, como objetivo a conquistar, e na qual seriam oferecidos a todos os meios de alcançar a perfeição e a bem-aventurança assinaladas no sermão da montanha:

Felizes os que têm espírito de pobreza!
Felizes os mansos!
Felizes os que choram!
Felizes os que têm fome e sede de justiça!
Felizes os que são misericordiosos!
Felizes os que têm o coração puro!
Felizes os pacíficos!
Felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça!

São Francisco de Assis | São Domingos de Gusmão | São Luís de França | Santa Elisabete da Hungria

A ascensão, não direi das almas santas, mas das nações, teve seu ponto culminante no século XIII. São Francisco de Assis e São Domingos, com seus discípulos São Luís de França e Santa Elisabete da Hungria, acompanhados e seguidos por tantos outros, mantiveram por algum tempo o nível que havia sido atingido pela emulação que tinham excitado nas almas os exemplos de desapego das coisas deste mundo, de caridade em relação ao próximo e de amor a Deus, que tantos outros santos tinham dado. Mas enquanto essas almas nobres atingiam os mais altos cumes da santidade, muitas outras esfriavam no seu entusiasmo por Deus; e por volta do fim do século XIV, manifestou-se abertamente o movimento de retrocesso que arrebatou a sociedade e que a conduziu à situação atual, quer dizer, o triunfo próximo, o reino iminente do socialismo, fim obrigatório da civilização moderna. Porque enquanto a civilização cristã elevava as almas e tendia a dar aos povos a paz social e a prosperidade mesmo temporal, o fermento da civilização pagã tende a produzir seus últimos efeitos: a procura, por todos, de todos os prazeres; a guerra, para conseguilos, de homem contra homem, de classe contra classe, de povo contra povo; guerra que não poderia terminar senão com o aniquilamento do gênero humano.


________________________________________

1 Por ocasião da deliberação da lei sobre a liberdade do ensino superior, Challemel-Lacourt disse: “As universidades católicas quererão preparar nos futuros médicos, advogados e magistrados, auxiliares do espírito católico que procurarão sustentar e aplicar os princípios do Syllabus. Ora, a França, na sua grande maioria, considera as proposições condenadas pelo Syllabus como os próprios fundamentos da nossa sociedade”.
2 Meditações sobre o Evangelho.
3 Oeuvres oratoires de Bossuet. Edição crítica e completa, pelo abade J. Lebarq. Sermão para a Festa de Todos os Santos, v. 325.
4 Meditações sobre o Evangelho.
5 Oeuvres oratoires de Bossuet. Sermão para a Festa de Todos os Santos, v. 325.

6 Esprit des Lois, livro XXIV, cap. III.
Tocqueville deu para esse fato uma razão que não é a única nem mesmo a principal, mas que convém assinalar.
“Nos séculos de fé, coloca-se o objetivo final da vida após a vida. Os homens daqueles tempos acostumaram-se, pois, naturalmente, e, por assim dizer, sem querer, a considerar, durante uma longa seqüência de anos, um objetivo fixo em direção ao qual eles caminham sem cessar, e aprendem, mediante progressos insensíveis, a reprimir mil pequenos desejos passageiros para melhor chegarem a satisfazer esse grande e permanente desejo que os aflige. Quando esses mesmos homens querem se ocupar das coisas da terra, reencontram esses hábitos. Eles fixam para suas ações daqui de baixo de preferência um objetivo geral e certo, em direção ao qual dirigem todos os esforços. Não se os vê aplicarem-se cada dia a novas tentativas; mas eles têm desejos não satisfeitos que não se cansam de perseguir. 
“Isto explica por que os povos religiosos têm freqüentemente conseguido coisas tão duráveis. Sucedia que, ocupando-se do outro mundo, tinham reencontrado o grande segredo de obter êxito neste. As religiões fornecem o hábito geral de se comportarem com vistas ao futuro. Nisto elas não são menos úteis à felicidade desta vida do que à felicidade da outra. É um de seus maiores aspectos políticos. Mas à medida que as luzes da fé se obscurecem, a vista dos homens se aperta, e dir-se-ia que a cada dia o objetivo das ações humanas parece-lhes mais próximo.
“Uma vez que se acostumam a não mais se ocupar do que deve acontecer após a vida, vê-se-os recaírem facilmente nessa indiferença completa e brutal do futuro, que é por demais conforme a certos instintos da espécie humana. Tão logo perdem a prática de colocar suas principais esperanças a longo prazo, são naturalmente levados a realizar sem tardança seus menores desejos, e parece que a partir do momento em que desesperam de viver uma eternidade, ficam dispostos a agir como se não devessem existir senão um só dia.
“Nos séculos de incredulidade, é, pois, sempre de recear que os homens se entreguem sem cessar aos azares diários de seus desejos, e que, renunciando inteiramente a obter o que não se pode adquirir senão sem longos esforços, não fundem nada de grande, de pacífico e de durável”.
7 I Tim., IV, 8.
8 Mat., VI, 33.



Fonte: DELASSUS, Monsenhor Henri. A Conjuração Anticristã - O Templo Maçônico que quer se erguer sobre as ruínas da I g r e j a  C a t ó l i c a. Tomo I, Capítulo I – As Duas Civilizações, p.12-15.
 

6 de outubro de 2011

A Conjuração Anticristã: O Templo Maçônico que quer se erguer sobre as ruínas da I g r e j a C a t ó l i c a

Monsenhor H ENRI DE L ASSUS
Doutor em Teologia
A
C O N J U R A Ç Ã O
A N T I C R I S T Ã
O Templo Maçônico
que quer se erguer sobre as ruínas da
I g r e j a C a t ó l i c a
As portas do inferno
não prevalecerão
contra Ela.
(Mat., XVI, 8)

TOMO I


NIHIL OBSTAT:
Insulis, die 11 Novembris 1910.
H. QUI L L I E T, s. th. d.
librorum censor
IMPRIMATUR



IMPRIMATUR
Cameraci, die 12 Novembris 1910.
A. MASSART, vic. gen.
Domus Pontificiae Antistes.



Traduzido do original francês
“La Conjuration Antichrétienne - Le Temple Maçonnique
voulant s'élever sur les ruines de l'Église Catholique”,
impresso por Societé Saint-Augustin
Desclée, De Brouwer et Cie.
LILLE, 41, Rue du Metz



SECRETARIA DE ESTADO                                                  Do Vaticano, 23 de outubro de 1910.
DE SUA SANTIDADE

Papa São Pio X

MONSENHOR

O Santo Padre Pio X recebeu com paternal interesse a obra intitulada: “A Conjuração Anticristã”, que me pedistes para Lhe encaminhar em vosso nome. 

Sua Santidade vos felicita afetuosamente por haverdes levado a bom termo a composição dessa obra importante e sugestiva, em seqüência a uma longa série de estudos que igualmente fazem honra a vosso zelo e a vosso ardente desejo de servir a causa de Deus e da Santa Igreja.

As idéias diretrizes de vosso belo trabalho são aquelas que inspiraram os grandes historiadores católicos: a ação de Deus nos acontecimentos deste mundo, o fato da Revelação, o estabelecimento da ordem sobrenatural, e a resistência que o espírito do mal opõe à obra da Redenção. Vós mostrais o abismo a que conduz o antagonismo entre a civilização cristã e a pretensa civilização que regride em direção ao paganismo. Quanta razão tendes em estabelecer que a renovação social só se poderá fazer através da proclamação dos direitos de Deus e da Igreja!

Ao vos exprimir sua gratidão, o Santo Padre faz votos de que possais, com uma saúde sempre vigorosa, realizar inteiramente o plano sintético que traçastes, e como sinal de Sua particular benevolência, Ele vos envia a Bênção Apostólica. 

Com meus agradecimentos pessoais e minhas felicitações, recebei, Monsenhor, a certeza dos meus sentimentos bem devotados em Nosso Senhor.

Cardeal MERRY DEL VAL


 

 

Monsenhor Henri Delassus
Prelado Doméstico
Lille



O Cardeal Merry del Val foi o braço direito de São Pio X n a luta contra os modernistas, precursores do progressismo. Modelo de sacralidade e alta compostura eclesiástica.




À
M A R I A


PRESERVADA DO PECADO ORIGINAL
À VISTA DOS MÉRITOS
DE
NOSSO SENHOR JESUS CRISTO







Deus disse à serpente:
“Porei inimizades
entre ti e a Mulher,
entre tua posteridade
e a posteridade dEla.
Ela te esmagará a cabeça.
E tu Lhe ferirás o calcanhar”
(Gênesis III, 15)




S O B R E O  A U T O R

(O texto abaixo foi extraído do livro Nobreza e Elites Tradicionais Análogas nas Alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza Romana, do Professor Plinio Corrêa de Oliveira, Livraria Civilização Editora, Porto, 1993)

Monseigneur Henri Delassus (1836-1921)

“Mons. Henri Delassus (1836-1921), ordenado sacerdote em 1862, exerceu o ministério como vigário em Valenciennes (Saint-Géry) e Lille (Sainte-Catherine e Sainte-Marie-Madelaine). Em 1874 foi nomeado capelão da Basílica Notre-Dame de la Treille (Lille). Cônego honorário em 1882 e Prelado Doméstico em 1904. Em 1911 foi promovido a Protonotário Apostólico. Em 1914 tornou-se Cônego da recém-criada diocese de Lille e Deão do Cabido da Catedral. Como escritor publicou as seguintes obras:

Histoire de Notre-Dame de la Treille, Patronne de Lille (1891), L’Américanisme et la Conjuration Antichrétienne (1899), Le Problème de l’Heure Présente: Antagonisme de Deux Civilisations (2 vols., 1904), L’Encyclique “Pascendi Dominici Gregis” et la Démocratie (1908), Vérités Sociales et Erreurs Démocratiques (1909), La Conjuration Antichrétienne: Le Temple Maçonnique voulant s’elever sur les Ruines de l’Eglise Catholique (prefácio do Cardeal Merry del Val, 3 vols., 1910), Condamnation du Modernisme dans la Censure du Sillon (1910), La Question Juive (extraído de La Conjuration Antichrétienne, 1911), La Démocratie Chrétienne: Parti et Ecole vus du Diocèse de Cambrai (1911), La Mission Posthume de Jeanne d’Arc et le Règne Social de Jésus-Christ (1913), Les Pourquoi de la Guerre Mondiale: Réponses de la Justice Divine, de l’Histoire, de la Bonté Divine (3 vols., 1919-1921).

Como jornalista, em 1872 passou a colaborar no periódico “Semaine Religieuse du  Diocèsede Cambrai”, do qual se tornou proprietário, diretor e principal redator em 1874. Fez desta publicação “um bastião contra o Liberalismo, o Modernismo, e todas as formas de conspiração anticristã no mundo”. Com a criação da Diocese de Lille esta revista tomou o nome de “Semaine Religieuse du Diocèse de Lille”, tornando-se órgão oficial do bispado em 1919.
Beato Pio IX | Leão XIII | S. Pio X | Bento XV

Mons. Delassus — que fora ordenado sacerdote sob Pio IX — exerceu a maior parte das atividades do seu ministério sob Leão XIII e S. Pio X, havendo falecido durante o pontificado de Bento XV.

Teve parte saliente nas ardentes polêmicas que marcaram a vida da Igreja durante esses pontificados, sempre movido pelas grandes preocupações que marcaram os pontificados de Pio IX e de S. Pio X. O modo de Mons. Delassus encarar os problemas religiosas, sociais e políticos da Europa e da América do seu tempo era muito afim com o de Pio IX e o de S. Pio X, orientação que defendeu com inteligência, cultura e valentia inexcedível, quer durante o reinado desses dois Pontífices, quer durante o de Leão XIII.

Como é sabido, a interpretação que este último dava ao panorama geral religioso, social e político da Europa e da América no mesmo período, quer como Cardeal-Bispo de Perusa, quer como Papa, em muitos pontos não coincidia — na medida em que tal pode ocorrer entre Papas — com a interpretação de Pio IX e de S. Pio X. A fidelidade de Mons. Delassus à linha de pensamento e de ação que ele seguira sob Pio IX continuaria a seguir durante os pontificados subseqüentes, era própria a expô-lo a incompreensões, advertências e medidas acautelatórias, provavelmente penosas para ele, partidas da Cúria Romana ao tempo de Leão XIII. Ele as recebeu com toda a medida de acatamento preceituado pelas leis da Igreja, mas usando também da medida de liberdade que essas leis lhe asseguravam.

Assim, foi ele objeto de advertências de autoridades locais e da própria Santa Sé devido aos seus ataques contra o Congresso Eclesiástico de Reims (1896) e o Congresso da Democracia Cristã (1897). Em 1898 uma carta do Pe. Sébastien Wyart fez-lhe ver que os seus artigos polêmicos desagradavam ao Vaticano. Logo a seguir a Santa Sé pediu a Mons. Delassus para cessar “a sua campanha refratária e as suas polêmicas violentas”. Em 1902 o Cardeal Rampolla pediu a Mons. Sannois, Bispo de Cambrai, para advertir o jornal de Mons. Delassus, “Semaine Religieuse”.

A ascensão de S. Pio X ao Sólio Pontifício haveria de reparar largamente Mons. Delassus pelos dissabores que sofrera. O Santo Pontífice compreendeu, admirou e apoiou claramente o valente polemista, como esta também apoiou sem reservas a luta antiliberal e antimodernista de S. Pio X. Como reconhecimento ao mérito dessa luta o valoroso sacerdote foi elevado por S. Pio X a Prelado Doméstico em 1904, a Protonotário Apostólico em 1911, tendo também ascendido ao cargo de Deão do Cabido da Catedral de Lille em 1914.1

Durante a Guerra, Mons. Delassus suspendeu compreensivelmente as suas polêmicas tal como o fizeram, em benefício da união nacional contra o adversário externo, os polemistas franceses de todos os matizes. Na aurora da paz, em 1918, Mons. Delassus reacendia a sua chama de polemista. Esta chama sagrada extinguiu-a pouco depois a sua morte.


________________________________________

1 Por ocasião das bodas de ouro da sua ordenação sacerdotal, Mons. Delassus recebeu do Pontífice a seguinte carta: “Tivemos conhecimento com alegria que daqui a poucos dias completareis cinqüenta anos de sacerdócio. Felicitamo-vos de todo o coração, pedindo a Deus para vós toda a espécie de prosperidades. Sentimo-Nos levado a esse ato de benevolência, que vós bem mereceis, Nós bem o sabemos, tanto pela vossa devoção à Nossa pessoa como pelos testemunhos inequívocos do vosso zelo, seja pela doutrina católica que defendeis, seja pela disciplina eclesiástica que mantendes, seja enfim por todas estas obras católicas que sustentais e das quais a nossa época tem uma tão grande necessidade. “Devido a tão santos trabalhos é de todo o coração que vos dispensamos os merecidos elogios e vos concedemos, de toda a boa vontade, caro filho, a Bênção Apostólica, ao mesmo tempo penhor de graças celestes e testemunho da Nossa benevolência. “Dada em Roma, aos pés de S. Pedro, em 14 de junho de 1912, nono ano do Nosso pontificado. “Pio X, Papa”. (Actes de Pie X, Maison de la Bonne Presse, Paris, 1936, t. VII, p. 236).


________________________________________

2 Desclée et Cie. Rome, Piazza Grazioli, Palazzo Doria; Lille 41, rue du Metz.


A autoridade do pai na sua família e a dos ancestrais sobre as gerações de que foram o princípio. 

Enfim, o direito de propriedade sobre os bens de que a família ou o indivíduo se tornaram autores por seu trabalho e suas virtudes, e não sobre as riquezas adquiridas pela agiotagem ou pela injustiça.

A Renovação exige essa sêxtupla restauração. Se ela não começa a se produzir num futuro próximo, a sociedade familiar, civil, religiosa se precipitará no abismo em direção ao qual ela corre com uma velocidade que se acelera a cada dia.

Feito esse terceiro trabalho, faltaria reconstruir a síntese da qual jorraria a solução do enigma que inquieta as gerações contemporâneas e que projetaria sua luz sobre o futuro da humanidade.

Septuagenário há cinco anos, o autor não pode esperar cumprir tal encargo. Queira Deus, se isto entra em Seus desígnios, de confiá-lo a quem puder levá-lo a bom termo.