Mostrando postagens com marcador Providência Divina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Providência Divina. Mostrar todas as postagens

20 de setembro de 2011

A Providência Divina e o dever do momento presente

A Providência Divina e o dever do momento presente

(Padre Garrigou-Lagrange, O.P.)

"Omne quadcumque facietis in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini facite". Tudo o que fizerdes, em palavras ou por obras, (fazei) tudo em nome do Senhor" (Cl 3, 17).

Para melhor compreender como devemos viver o dia a dia, com confiança em Deus, com abandono, é preciso estarmos atentos ao dever do momento presente e à graça que nos é oferecida para realiza-la. Falaremos primeiramente do dever que se apresenta a cada minuto, tal como os santos o compreenderam, e esclareceremos depois a conduta destes santos pelo ensinamento da Escritura e da teologia, ensino que se dirige a todos nós.


O DEVER DO MOMENTO PRESENTE TAL COMO OS SANTOS O COMPREENDERAM E A LUZ QUE ELE ENCERRA.

O dever de cada instante, debaixo de aparências muitas vezes insignificantes, é expressão da vontade de Deus a nosso respeito e a respeito de nossa vida individual. A Virgem Maria viveu assim na união divina, realizando no dia a dia a vontade de Deus pelo dever quotidiano de sua vida muito simples que, na aparência, era como a vida de todas as pessoas de sua condição. Assim viveram todos os santos, fazendo a vontade de Deus tal como se manifesta a cada hora, sem se deixar desconcertar por contrariedades imprevistas. O segredo dos santos era o de tornar-se, a cada instante, aquilo que a ação divina queria fazer deles. Viam tudo o que tinham para fazer e para sofrer, todos os seus deveres e todas as suas cruzes na vontade de Deus. Estavam persuadidos de que os acontecimentos do presente são sinais da vontade ou da permissão de Deus, para o bem daqueles que O procuram. A própria visão do mal, exercitando a sua paciência, lhes mostrava, por contraste, o que deviam fazer para evitar o pecado e suas funestas conseqüências. Os santos viam assim na seqüência de acontecimentos, um ensinamento providencial e acreditavam que ao lado e acima da continuidade de fatos exteriores de nossa vida, há como que uma seqüência paralela de graças atuais, que nos são constantemente oferecidas para fazer-nos tirar destes acontecimentos, agradáveis ou penosos, o melhor proveito espiritual. A continuidade dos acontecimentos, se soubermos bem considerá-la, contém lições de coisas de Deus, são como que um prolongamento da revelação ou o Evangelho aplicado, até o fim dos tempos.

Em quase todos os domínios distingue-se o ensinamento teórico e abstrato do ensinamento aplicado e prático; O mesmo acontece na ordem das coisas espirituais. O Senhor aí nos dá, a seu modo, esses dois ensinamentos: um no Evangelho, o outro no curso da vida.

Esta grande verdade vital, é geralmente desprezada. Quando chegam as contrariedades e revezes, somos todos queixas e murmúrios. Tal doença aparece logo quando mais tínhamos o que fazer; tal coisa nos falta; tiram-nos os meios necessários, botam obstáculos intransponíveis ao bem que devíamos realizar, ao apostolado que devíamos exercer.

Os santos em tais circunstâncias, e mesmo em outras bem mais penosas, dizem: Fazer cada dia a vontade de Deus é, no fundo, a única coisa necessária. O Senhor não ordena jamais o impossível, mas há um dever que, a cada momento, ele torna realmente possível para cada um de nós, para cuja realização ele pede nosso amor e nossa generosidade.

Se tal acontecimento doloroso é conseqüência de nossas faltas será uma lição providencial, que devemos receber com humildade para dela tirar proveito. Se, sem falta de nossa parte, o Senhor permite que sejamos privados de certos bens, é porque não são verdadeiramente necessários à nossa santificação e à nossa salvação. Os santos acham que, em certo sentido, nada lhes falta a não ser um maior amor de Deus. Se soubéssemos o que são os acontecimentos que chamamos obstáculos, contrariedades, revezes, contratempos, infortúnios, fracassos, lastimaríamos a desordem que pode existir em tais coisas (e os santos a lastimaram mais do que nós e por causa dela sofreriam mais do que nós) mas nos repreenderíamos a nós mesmos por nossos murmúrios, e seríamos mais atentos ao bem superior que Deus busca em tudo o que ele quer e até em suas permissões divinas. [1]