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25 de dezembro de 2011

O teológico favorito de J.P.II

URS VON BALTHASAR, O PAI DA APOSTASIA ECUMÊNICA

Chegou a vez de outro representante da "nova teologia", hoje exaltado como "pedra angular da Igreja" (J. Meinvielle), o ex-jesuíta suíco Urs von Balthasar. Se Maurice Blondel encarna o tipo do filósofo modernista e apologeta, se Henri de Luba é o tipo do teólogo modernista, Urs von Balthasar encarna o aspecto pseudomístico e ecumenista do modernismo.

Temos em mãos a obra Urs von Balthasar ? Figura e Opera1, de Karl Lehmann e Walter Kasper, personalidades da "nova teologia". Lemos na orelha do livro: "escrito por seus amigos e discípulos [Henrici, Haas, Lustiger, Roten, Greiner, Treitler, Löaser, Antonio Sicari, Ildefonso Murillo, Dumont, O´Donnel, Guido Sommavilla, Rino Fisichella, Max Shönborn... e Ratzinger], pretende fazer redescobrir toda a importância e o valor de sua obra e de sua pessoa". Descubramo-lo também nós; é de extrema importância.

"Brilhante mas Vazio"

Von Balthasar foi apaixonado, desde a juventude, pela música e, como Montini, pela literatura, mais do que pelos estudos filosóficos e teológicos2. Somente a filosofia "mística" de Plotino teve o poder de fasciná-lo. Ao contrário, a filosofia e a teologia escolástica suscitaram seu horror:

"Todos os meus estudos durante os anos de formação na Ordem dos Jesuítas foram uma luta enfurecida com a desolação da teologia, com o que os homens tinham feito da glória da Revelação; não podia suportar essa figura da palavra de Deus, queria aplicar golpes à direita e à esquerda com a fúria de um Sansão, queria, com sua força, derrubar o templo e nele me enterrar. mas isso era, agora que a missão começava, querer impor meus planos, era viver com minha indignação infinita porque as coisas ficavam assim. Tudo isto eu não dizia praticamente a ninguém. Przywara compreendia tudo, mesmo sem palavras; dos demais ninguém me poderia compreender. Escrevi o "Apocalypse" com essa fúria que se propunha destruir o mundo pela violência e reconstruí-lo a partir das fundações, custasse o que custasse"3

A "missão" do futuro demolidor se esboçava. Pelo momento, o resultado foi que seus estudos na Companhia de Jesus terminaram pela "dupla licença eclesiástica em filosofia e teologia; Balthasar nunca obteve doutorado nessas matérias"4.

Em compensação, porém, o jovem von Balthasar aprendera a correr atrás dos sistemas e tendências agitadas do pensamento moderno, encorajado pelos "grandes animadores da época de seus estudos"5. Erich Przywara, da Universidade de Pullach-Munique, que o forçou a "confrontar Agostinho e Tomás com Hegel, Scheler e Heidegger"6, e Henri de Lubac, da Maison d´études de Lyon Fourvières. "Por sorte e para minha consolação", escreve von Balthasar, "Henri de Lubac morava na casa conosco. Foi ele que, além do material de estudo escolástico, nos levou aos Padres da Igreja e com magnanimidade nos emprestava a nós todos [Balthasar, Daniélou e Bouillard] seus próprios estudos e notas."7 Foi assim que von Balthasar, "durante as aulas, com os ouvidos tapados com algodão, leu todo [Santo] Agostinho" e aprendeu, pelas notas generosamente emprestadas por De Lubac, a opor, com afetação, a patrística à escolástica, cuja linguagem rigorosa não permitia os jogos interpretativos com textos dos Padres da Igreja a que se entregavam os "novos teólogos"8. Ao mesmo tempo, von Balthasar conhecia a poesia francesa: Péguy, Bernanos, Claudel, na tradução dos quais ele trabalhará durante vinte e cinco anos.

No fim de seus estudos, aquele que, segundo De Lubac, seria "o homem mais dotado de nosso século" (outro sistema dos modernistas consiste em criar, uns para os outros, um halo de grandeza inexistente9), leva consigo somente uma poeira, tão vasta quanto superficial, nos domínios que testemunham um verdadeiro diletantismo. O Pe. Labourdette O.P., numa tirada significativa, definiu um dos primeiros artigos de von Balthasar como "uma página brilhante mas vazia"10.

Com esse "defeito de origem", von Balthasar estava pronto para engrossar o número dos eclesiásticos modernistas, "que, sob as aparências de amor à Igreja, absolutamente deficientes em filosofia e teologia sérias, impregnados, ao contrário, até os miolos, de um veneno de erro recebido dos adversários da fé católica, se colocam, sem nenhuma modéstia, como renovadores da Igreja"[ 11.

Privado de sólida formação filosófica e teológica, admirador apaixonado da poesia e da música, von Balthasar misturará, com inacreditável superficialidade, a teologia e a literatura, acreditando poder criar uma teologia "dele" com a mesma imaginação com que um artista cria sua obra de arte.

"Somente mais tarde", escreve ele, "quando o brilho da vocação já me acompanhava havia vários anos e quando eu tinha terminado meus estudos filosóficos em Pullach (acompanhado de longe por Erich Przywara) e os quatro anos de teologia em Lyon (inspirados por Henri de Lubac) com meus condiscípulos Daniélou, Varillon, Bouillard e muitos outros, compreendi como seria de grande ajuda para a concepção de minha teologia o conhecimento de Goethe, Hölderin, Nietzsche, Hofmannsthal e, sobretudo, dos Padres da Igreja, para os quais me dirigiu De Lubac. O postulado fundamental de minha obra Gloria foi a capacidade de ver uma 'Gestalt' [forma complexa] na sua coerente totalidade: a visão goethiana devia ser aplicada ao fenômeno de Jesus (sic) e à convergência das teologias neotestamentárias"12

O Conquistador dos (Mal) Convertidos

Em 26 de julho de 1936, von Balthasar foi ordenado padre na igreja de São Miguel em Munique. Em 1939, fez maisw uma vez os exercícios espirituais de trinta dias, com o padre Steger, que "era, no meio alemão, um dos primeiros a compreender a espiritualidade inaciana, não tanto asceticamente quanto misticamente"13. Esta inclinação pela mística, que já manifestara no contato com a filosofia de Plotino, se revelará cada vez mais nociva para von Balthasar, de tanto que era desprovido de sólida base de saber filosófico e teológico. Pouco depois, encontramo-lo como capelão dos estudantes, em Basiléia, onde cultiva música e poesia (desta vez, alemã). Ele também organiza cursos para estudantes e chama, entre outros oradores, Karl Rahner, Congar e De Lubac; no fim dessas noitadas, "sentava-se ao piano e, de memória, tocava o Don Juan de Mozart" 14.

Em Basiléia, ele encontra o protestante Karl Barth, que se torna (depois de Przywara e De Lubac) "o terceiro grande inspirador da teologia de Balthasar". "A teoria da predestinação de Barth", escreve, "atrai-me poderosa e constantemente" 15; mas a influência decisiva que sofreu foi a do "cristocentrismo radical de Barth"16: daí a idéia de um ecumenismo que reúne todos em torno de Cristo, separado de sua inseparável Igreja, um Cristo que é, no final, o solus Christus de Lutero, ainda que filtrado, como veremos, através de Hegel.

O Vaticano II estava, contudo, ainda longe, e então "o encontro com os protestantes acontecia, nesses anos, na Suíça, de modo quase inevitável (sic) sob a perspectiva da conversão"17.

Foi assim que, em 1940, von Balthasar batizou (a contragosto?) o esquerdista Béguin, que, em 1950, deveria suceder ao filocomunista Mounier na direção da revista Esprit (o Osservatore Romano de 3 de março de 1979 dizia que Beguin e Esprit prepararam o Vaticano II). Fato ainda mais importante, von Balthasar batizará a "convertida" Adrienne von Speyr, médica, casada em segundas núpcias com o professor Kaegi, "mulher cheia de humor e de espírito, de língua afiada, bem-vista na sociedade"18.

Em Basiléia, von Balthasar adquiriu rapidamente o renome de "conquistador de convertidos"19. Parece-nos mais exato dizer dos "mal convertidos". Já citamos Beguin. De Adrienne von Speyr convém dizer mais amplamente que, como De Lubac esteve "em simbiose intelectual" com Blondel, von Balthasar esteve em "simbiose teológica e psicológica" com Adrienne von Speyr 20.

Lado a Lado com Adrienne

"Logo depois da conversão [de Adrienne] começaram a crescer os boatos de milagres que, manifestamente, aconteciam durante os colóquios e visitas que ela recebia. Murmurava-se sobre visões que ela tivera." Murmurava-se também sobre esses "longos e regulares encontros com seu diretor espiritual, von Balthasar" 21.

Para publicar os escritos místicos de Adrienne, von Balthasar funda as Edições Johannes; depois, com Adrienne, funda o Instituto Secular Johannes, e ainda para Adrienne, como seus superiores não vissem evidência no misticismo de Adrienne von Speyr, na véspera de sua profissão solene, von Balthasar deixa a Companhia de Jesus, escolhendo a "obediência imediata" a Deus.

A partir de então, von Balthasar trabalhará na sombra de Adrienne, morando na casa de seu marido, ocupando-se de literatura, de teologia estética (e estetizante), de seus ditados "místicos", até que, em 1960, a mobilização neomodernista para o Concílio o engaja na febril preparação do Vaticano II:

"Rádio, televisão, quanta agitação e pedidos sem fim para escrever."22

Em Deus a Contradição é Impossível

"Não é aqui o lugar", lemos na página 51, "de submeter os carismas de Adrienne a um exame teológico-crítico." Ao contrário, teria sido justamente o lugar e o caso, visto que o próprio von Balthasar afirma: "sua obra e a minha não são separáveis nem psicológica nem filologicamente. São as duas metades de um todo que tem por centro uma fundação única"23 E ele começa Il nostro compito (Nossa tarefa) escrevendo:

"Este livro tem como objetivo, sobretudo, impedir que depois de minha morte procurem separar minha obra da de Adrienne von Speyr."24

Teria bastado a von Balthasar aplicar os critérios que a Igreja aplica em tais casos para repudiar como falso o misticismo de Adrienne. Deixaremos de lado a estranheza de "carismas" como os "estigmas" que ela teria recebido quando ainda era protestante, "a possibilidade dada a seu confessor [von Balthasar] de 'transferir Adrienne ao passado', a cada uma das suas idades, para percorrer sua biografia"25, sua virgindade recuperada, segundo ela, depois de dois casamentos etc. Basta-nos, como teria bastado a von Balthasar, aplicar o critério fundamental usado pela Igreja para julgar toda e qualquer pretensa "revelação":

"É preciso considerar como absolutamente falsas as revelações que se opõem ao dogma ou à moral. Em Deus a contradição é impossível."26

Á luz desse critério fundamental examinemos, entre muitos outros, dois pontos que estão na origem de dois gravíssimos desvios conciliares e pós-conciliares:

1) "A teologia da sexualidade" de Adrienne von Speyr;

2) Sua concepção da Igreja, a "Católica".

Mas para Adrienne e von Balthasar, Deus Pode Contradizer-se

Segundo von Speyr, ou segundo von Balthasar (concordamos com Balthasar que é impossível separá-los), Adrienne teria recebido do Céu a missão de "repensar" o "valor positivo da corporeidade [ou ainda da sexualidade] no interior da religião da encarnação" 27.

Acontece que este "valor positivo" é tão positivo que chegar a anular as... conseqüências do pecado original e a advertência do Espírito Santo: "quem ama o perigo nele perecerá". Escreve Adrienne no seu diário: "As receitas de se manterem afastados um do outro, de não se verem, no que concerne à esfera do corporal, hoje estão esgotadas."28 O que é claramente contra o dogma do pecado original e contra o ensinamento tradicional da Igreja no domínio moral. Fiel à sua "revolução sexual", Adrienne concebe e exprime sua relação "espiritual" com von Balthasar pelas categorias mais cruas da sexualidade. Assim, a gênese do instituto secular Johannes é descrita como um gravidez, em que o instituto é a criança, Adrienne a mãe e Balthasar o pai29. Eis, em seguida, como "Inácio" (leia-se Santo Inácio) explica a Adrienne que ela recebeu os estigmas (mesmo sendo protestante) para von Balthasar: "mesmo sendo virgem [Adrienne, casada, só por prodígio, apesar do 'valor positivo' da sexualidade], é um modo pelo qual a mulher podia ser marcada pelo homem"30.

E, para que não tenhamos mais dúvidas sobre a linguagem atribuída pela "mística" a "Inácio", leremos o que segue:

"A fecundidade espiritual do homem será depositada na carne da mulher, para que ela possa levar o fruto. Assim, a fecundidade de Hans Urs von Balthasar foi posta nos estigmas que Adrienne tinha recebido para ele." 31

E isto pode bastar para que se pergunte, com razão, se não estamos diante de um caso de sensualismo pseudomístico.

Entretanto, aqui é importante indicar, na "inteligência do valor positivo da corporeidade", por parte de Adrienne, uma das causas, se não a causa determinante, da exaltação atual da sexualidade, infelizmente em voga, até nos meios religiosos, camuflada pelo slogan "integração afetiva".

E von Balthasar? Ele também não admitia "que se pudesse diminuir o significado dos corpos masculino e feminino (e portanto do ser humano masculino e feminino) [de onde o 'Caros irmãos e irmãs' e as palestras sobre a masculinidade e a feminilidade de João Paulo II!], justamente onde se fala de uma real encarnação do Filho de Deus"32. E, na sua concepção estetizante da teologia, ele deplorava:

"E onde foi parar o Eros no Cântico dos Cânticos [até como poema erótico, naturalmente], que faz parte do centro da teologia?"33

Há pior, porém. Von Balthasar sabe muito bem que a "teologia mística" da visionária não se enquadra na doutrina católica. "Na obra teológica global de Adrienne", escreve ele, "existem passagens particulares que, fora de seu contexto, poderiam parecer às vezes estranhas [também dentro do contexto]"34.

Em seguida, no prefácio, admite claramente que as obras de Adrienne "de início são de espantar e talvez desorientadoras [sic] para alguns leitores"35. Para von Balthasar, contudo, isto não levantava dúvidas sobre o carisma de Adrienne, mas sim sobre a... doutrina católica! "As coisas", escreve ele, "são sempre tais que a teologia atual não é ou não é ainda [sic] capaz de compreender o que é indicado" [nas visões ou nos "ditados" de Adrienne]36. O que só pode ser dito admitindo-se que a doutrina católica possa evoluir em contradição com ela mesma, visto que a "teologia mística" de Adrienne não somente é obscura mas também está em oposição à teologia católica.

Infelizmente, von Balthasar não somente não aplicava (talvez porque não os possuísse) os critérios teológicos, para ver claramente, ao "misticismo" de Adrienne von Speyr, mas dividia com Blondel e De Lubac a nova noção vitalista e evolucionista da verdade, pela qual, em Deus, e portanto no desenvolvimento da doutrina católica, "a contradição é possível". Isto aparecerá de modo ainda mais evidente no segundo ponto que nos propomos examinar e que permitirá compreender a borrasca de loucura ecumênica que levou alguns responsáveis da Igreja Católica a ceder sem nenhum freio.

A "Católica" Não-Católica

Adrienne afirma que uma missão eclesial foi confiada pelo Céu a von Balthasar e a ela própria. Urs von Balthasar fala disso em Il nostro compito37. Adrienne, numa visão "marial", diz a Deus:

"Nós [Adrienne e von Balthasar] queremos amar-te, servirt-te e agradecer-te a 'Igreja que nos confias' [...]. Estas últimas palavras foram pronunciadas de modo improvisado e ditadas pela Mãe de Deus, isto é, nós [a Mãe de Deus e Adrienne] o dissemos as duas juntas, e o filho (o nosso [de Adrienne e de von Balthasar], você sabe), ela colocou-o uma fração de segundos nos braços, mas não era somente a criança, era a Una Sancta em miniatura, e assim me parece que é uma justa unidade de tudo o que nos foi confiado e que é trabalho em Deus para a Católica."

O que é então esta outra "criança" de Adrienne e de von Balthasar, essa "Igreja" dita "Católica", que Deus lhes teria confiado?

Na introdução de Mystique objectiva de Adrienne von Speyr, de Bárbara Albrecht38, lemos acerca da "mística" Adrienne esta afirmação espantosa: "Ainda que [Adrienne] se tenha afastado claramente e de modo decisivo da forma protestante do cristianismo, por uma necessidade interior, falta a seu conceito de 'católica' certa delimitação confessional." Então, se o afastamento de Adrienne do protestantismo foi claro e decisivo, sua conversão ao catolicismo não foi nada clara e decisiva. A menos que se dê ao termo "católica" um significado completamente diferente do habitual.

Note-se, de passagem, que o que escreve Bárbara Albrecht corresponde exatamente ao testemunho da governanta italiana de Adrienne, a qual, como boa católica veneziana, afirma claramente:

"Eu li também... essa história de 'Mística'. Eu não gosto nada disso. Por que escrever essas bobagens? Madame não era da Igreja, ela ia à missa somente duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa."39

O mesmo conceito de "católico", privado de "certa determinação confessional", encontramos em von Balthasar, que afirma ser também devedor de Adrienne von Speyer. Em Katholisch, uma obra que publicou em 1975, ele escreve:

"Essa pequena obra é, ao mesmo tempo, uma homenagem a meus mestres E. Pryzwara e H. de Lubac e igualmente a Adrienne von Speyr, pois todos, em face de uma teologia escolástica, me mostraram a dimensão da realidade católica, vasta como o mundo."

E nessa "catolicidade que não omite nada"40, tudo encontra lugar e justificação: a verdadeira e as falsas religiões, a Igreja Católica e as seitas heréticas e/ou cismáticas, o sagrado e o profano, a religião e o ateísmo; abreviando: o erro e a verdade, o bem e o mal. Exatamente como na dialética hegeliana.

O Iceberg

Aprofundemos a conversa. Urs von Balthasar ? admite a revista Communio ? é exaltado como "teólogo da beleza" e "ao mesmo tempo é criticado por seu estilo hermético e complicado"41. Além disso, escreve ainda Communio, o que se conhece e o que se diz dele "representa ?mal haja quem nisto põe malícia ? somente a ponta do iceberg". Lancemos pois um olhar para a parte submersa do iceberg, isto é, para o que se esconde sob o estilo hermético e complicado, para ver se há ou não razão para pensar mal dele.

Aparentemente, os escritos de von Balthasar são obscuros e herméticos e seu comportamento é incompreensível. Por exemplo, ele trabalha para demolir a teologia católica e a Roma católica, mas critica asperamente Karl Rahner e o "complexo anti-romano"; quer o ecumenismo mais vasto possível, que abrace até as religiões pagãs e idólatras, mas critica a "tendência à liquidação" dos católicos pós-conciliares. Entretanto, basta possuir a boa chave interpretativa de sua teologia para que tudo se torne claro. Esta chave interpretativa é o idealismo em geral e a lógica hegeliana em particular, que, sabe-se, é diametralmente oposta não só à lógica aristotélica e tomista mas também ao bom senso comum. Enquanto a lógica aristotélica, de fato, tem por fundamento o princípio de identidade e de não-contradição, segundo o qual os opositores se excluem, a lógica hegeliana é fundada no princípio exatamente contrário: os opostiores não se excluem, mas são a alma da realidade, sendo momentos necessários, apesar de abstratos; realidade que é uma síntese de opositores na qual os ditos opostos (afirmação e negação, teses e antíteses) encontrarão sua realização e sua verdadeira realidade.

Urs von Balthasar aplicou à eclesiologia essa lógica obscura e hermética, porque ele ignora "o medo da contradição", medo que é natural a qualquer homem de bom senso, mas que foge das preocupações do... ecumenismo atual: tantas "Igrejas", tantas "religiões", o ateísmo, com suas contradições, não espantam von Balthasar e, segundo seu julgamento, não devem espantar ninguém, porque são somente os momentos (teses e antíteses, afirmações e negações) desse processo que conduzirá inevitavelmente, por necessidade intrínseca, à síntese, que é a "Católica" (a catolicidade que não omite nada, a universalidade sem exclusão alguma), na qual se realizará (finalmente, depois de dois mil anos) a verdadeira Igreja de Cristo.

Uma vez possuindo esta "chave", a teologia de von Balthasar de hermética se torna transparente e todo o mundo pode ver a enormidade doiceberg que navega sob a água contra a santa Igreja de Deus.

Do "Delírio Filosófico" ao Delírio Ecumênico

Do "delírio filosófico" de Hegel (assim o define Schopenhauer) só poderia nascer o atual delírio ecumênico.

Com esta chave interpretativa, de fato, é possível compreender todos os enigmas de von Balthasar e do ecumenismo atual, de que ele é mestre e autor. Compreende-se, de fato, porque no diálogo ecumênico "uma única coisa fica: fiar-se nas configurações eclesiais e teológicas e na rivalidade entre elas"42. Só o jogo necessário dos opositores é que conduzirá à síntese: "Se esta indicação é levada a sério [fiar-se nas rivalidades]", escreve von Balthasar, "então ela exige muito daqueles que lutam cristãmente pela catolicidade, sobretudo o não fixar-se em nenhum sistema [católico ou não] que, a priori, se suponha onicompreensível e ofereça a mais ampla perspectiva, e não desprezar os pontos de vista opostos."43 Essa onicompreensividade, de fato, será dada somente à "Católica", que é a síntese, e não aos sistemas atuais (incluindo o "sistema" católico"), que são as teses e antíteses destinadas a ser ultrapassadas, aniquilando-se mutuamente, na síntese.

Aos "sistemas" atuais pede-se somente duas coisas: por um lado, que favoreçam a síntese, o "relaxamento e o degelo" de seu próprio bloqueio em torno de um ponto de vista que exclui os pontos de vista opostos; por outro lado, a "competição", o deixar agir a "rivalidade" com os outros sistemas, incluindo as "formas de cristianismo anônimo"44. A síntese, de fato, brota justamente do jogo dos contrários. Tudo isso é incompreensível pela lógica aristotélico-tomista, que é a lógica do bom senso, mas não pela lógica hegeliana.

Compreende-se, então, por que o atual ecumenismo (ver Assis45) põe no mesmo plano e até mantém separadas as diversas "religiões" ("não queremos sincretismo", e é verdade) e, ainda quando promove o insensato diálogo, quer que os budistas sejam bons budistas, os católicos bons católicos (segundo a "nova teologia", é claro), os protestantes bons protestantes e assim por diante: a "competição", o jogo das "rivalidades", de contradições e oposições é essencial ao processo que conduzirá à super-Igreja ecumênica, a "Católica", síntese de todas as religiões, na qual enfim as contradições e oposições serão ultrapassadas.

Compreende-se também por que von Balthasar teve, como De Lubac, sua "crise" pessoal pós-conciliar, que, entretanto, também para ele não foi uma conversão46. Não entrava em sua lógica hegeliana que os católicos abandonassem assim sua identidade: a "Católica" é, também ela, "comunhão entre aquilo que aparentemente se exclui"47. Assim, os contrastes são essenciais à realização da dita "comunhão", exatamente como, na lógica de Hegel, a tese e a antítese são essenciais à realização da síntese, pois, se a tese se retira da "competição" e se torna também antítese, nunca haverá "síntese"48.

Eis por que a Igreja Católica não deve "pôr entre parênteses" mas deve "integrar" (é a palavra-chave para von Balthasar) no "todo católico" (= a "Católica") tudo o que é visto atualmente como "excesso católico"49. No seu livro, enganador e mal-compreendido, Le Complexe antiromain, que tem o incrível e significativo (e freqüentemente omitido) subtítulo Como Integrar o Papado na Igreja Universal (= "Católica"?), von Balthasar sugere justamente a maneira de integrar "esse elemento, que parece atrapalhar, ao todo católico", que claramente não é a Igreja Católica. Eis a maneira sugerida: a Igreja deve ser não somente de Pedro mas também de Paulo, de Maria e de João50. E assim o primado de jurisdição, definido pelo Vaticano I, se apaga atrás de um vago primado da caridade inventado por von Balthasar (e por seus "irmãos separados"), para o qual João Paulo II, como São Paulo, percorre o mundo há anos, explicando aos jornalistas que ele recebera não somente o carisma de Pedro mas também o de Paulo!

A Apostasia

Basta conhecer o Catecismo da Igreja Católica (o antigo, não o novo) para compreender que o ecumenismo de Balthasar é uma verdadeira proposta de apostasia.

Christophe Schönborn, secretário de redação (aviso ao leitor!) do novo "Catecismo", por ocasião do primeiro aniversário da morte de von Balthasar ilustrou o ecumenismo na Igreja de Santa Maria em Basiléia51.

O que é, então, o ecumenismo para von Balthasar? É a "integração no todo da Católica"52, a qual "Católica" não existe ainda e no momento é "somente uma promessa, uma esperança escatológica". Eis como Schönborn explica "a importância ecumênica" da "figura" de Maria em von Balthasar: "em Maria a Igreja aparece como a Igreja santa e imaculada, em quem a plena figura da Igreja, sua 'catolicidade', é não somentepromessa, esperança escatológica, mas antes plenitude já realizada". Então, contrariamente à Fé constante e infalível da Igreja, repetida por Pio XI em Mortalium Animos, e contrariamente ao dogma que todo e qualquer católico tem o dever de professar (Credo Ecclesiam unam, sanctam, catholicam), a catolicidade da Igreja não é uma realidade, realizada há dois mil anos, mas uma realidade que ainda está por se realizar, uma simples "promessa, uma esperança escatológica". E o que é, então, a atual Igreja Católica para von Balthasar? Um "sistema" entre outros, uma das numerosas "configurações eclesiais", teses ou antíteses (consoante ela recusa ou é recusada), que será ultrapassada e aniquilada na "Católica", como as seitas, as religiões pagãs e idólatras e os diversos "marxismos".

No catolicismo, não menos que no protestantismo, para von Balthasar, a "negação do outro, a recusa da comunhão", teria produzido uma unidade que, no fundo, consistia somente na reunião em torno de um ponto de vista rígido". 53

A Igreja Católica é a "realização romana da Catolicidade"54; tanto a Igreja Católica como as seitas heréticas e/ou cismáticas, o próprio judaísmo e as "formas anônimas do Cristianismo" são "o todo em fragmentos", onde o todo é a "Católica" e a Igreja Católica é um dos numerosos fragmentos que, inevitavelmente, retornam ao todo. "Cada fragmento", escreve von Balthasar, "faz logo pensar no vasto sagrado de que ele provém, cada pedaço brilha pelo espírito, a partir da obra inteira completa"55, e a Igreja Católica é um "fragmento", um pedaço entre os outros.

Vê-se claramente, então, por que já não se ensina que a Igreja de Cristo "é" a Igreja Católica, mas continua-se a ensinar, com o Vaticano II (ver o novo "Catecismo"), que a Igreja de Cristo "subsist in", subsiste na Igreja Católica, exatamente como o "todo no fragmento"! Eis por que, no diálogo ecumênico, em matéria de fé, o católico concorda em aprender tanto quanto os outros:

"Para os católicos é imperativo afastar a voz daqueles que nos sugerem e nos levam de volta a algum pedaço que falta [sic] ou medianamente valorizado da integridade da fé."56

É por isso que hoje, como escreve Romano Amerio, "se professa abertamente que a união não se deve fazer por conversões individuais, mas pelo acordo das grandes coletividades [as diversas teses e antíteses] que são as Igrejas", e que essa união deve fazer-se não por um retorno dos separados da Igreja Católica, mas "por um movimento de todas as confissões para um centro que está fora de cada uma delas [a síntese evolutiva]"57

E aqui a proposta de apostasia, isto é, de abandono de toda e qualquer doutrina de fé, se torna flagrante. Onde achar a Revelação Divina na sua integridade e na sua pureza senão na Igreja Católica? Propor aos católicos, de maneira mais ou menos dúbia, o êxodo da Igreja Católica é propor a apostasia:

"A fé em Jesus Cristo não ficará pura e incontaminada se não for sustentada e defendida pela fé na Igreja, coluna e fundamento da verdade (1 Tm 3, 15)."58

O Desprezo do Magistério

Em conclusão, é importante assinalar que von Balthasar, como também Blondel e De Lubac, cultivou "sua" teologia com evidente desprezo pelo Magistério da Igreja e especialmente por São Pio X, que, na encíclica Pascendi (1907), condenou o ecumenismo, em que desemboca inevitavelmente o naturalismo dos modernistas; e por Pio XII, que em Humani Generis condena tanto as tentativas de conciliar o idealismo, e portanto Hegel, com a teologia católica como o ecumenismo, em que todos se teriam, "sim, unidos, mas em ruína geral". Em 1946, escrevia o Pe. Garrigou-Lagrange: "Para onde vai a nova teologia com os novos mestres em que se inspira? Para onde senão o caminho do ceticismo, da fantasia e da heresia?" E os novos "mestres" eram Hegel e Blondel, que Fessard (da "turma" de De Lubac) chamava, não sem razão, "nosso Hegel"59. Hoje, no domínio ecumênico, mais do que na fantasia, estamos no delírio. Num dos documentos "ecumênicos" dos mais escandalosos: "Indicações Úteis para Apresentar Corretamente o Judaísmo", da Comissão para Relações com o Judaísmo, presidida pelo cardeal Willebrands60, pode-se ler que os católicos e os judeus, "ainda que partindo de pontos de vista diferentes [ler:opostos], tendem para fins análogos [sic], a vinda ou o retorno [é a mesma coisa!] do Messias". É textualmente o pensamento de von Balthasar, que, como Hegel, encontra o modo de conciliar todos os opostos, fazendo violência à realidade dos fatos:

"Pedro, o renegado, abandona o julgamento do Senhor e se solidariza [sic] com os judeus [que crucificaram Cristo] [...]; juntamente com vós, judeus, também nós, cristãos, esperamos a (re)vinda [sic] do Messias."61

Contudo, von Balthasar e seus companheiros da "nova teologia" nunca teriam conseguido impor na Igreja suas nebulosas elucubrações, que não têm a seu favor nem a força da verdade da razão nem a força da verdade revelada, se João Batista Montini não tivesse subido ao trono de Pedro, mas... daquele mal teólogo filomodernista, posto ao serviço da "nova teologia", sua alta autoridade e seu sucessor foram os propagadores eufóricos. Voltaremos a falar nisso.

Sim Sim Não Não, no. 14, fevereiro de 1994

1.Ed. Piemme.

2.Figura e opera, pp. 29 ss.

3.Ibid., p. 35, citado da introdução de Erde und Himmel (Terra e Céu).

4.Ibid., 33-34.

5.P. 35.

6.Urs von Balthasar, Priifet Alles, p. 9.

7.Ibid.

8.Ver Figura e opera, p. 36.

9.Ver São Pio X, Pascendi.

10.Ibid., pp. 47-48.

11.São Pio X, Pascendi.

12.Il nostro compito (Nossa tarefa), Jaca Book, p. 29.

13.Ibid., p. 37.

14.Ibid., p. 39 ss.

15.Unser Auftrag, p. 85.

16.Figura e opera, cit., p. 43.

17.Henrici S.J., op. cit., p. 44.

18.Ibid., p. 45.

19.Ibid., p. 44.

20.Op. cit., p. 147.

21.Idem.

22.Ibid., p. 59.

23.P. 60, citado de Rechenschaft ou, em italiano, Il filo di Arianna attraverso la mia opera.

24.P. 13.

25.Il nostro compito, p. 13, nota 1.

26.Antonio Royo Marin O.P., Teologia della perfezione cristiana, p. 1077.

27.Il nostro compito, p. 25.

28.P. 1.703; ver Il nostro compito, p. 91.

29.Communio, mai-jun de 1989, pg. 91.

30.Ibid., pp. 91 ss, citando o parágrafo 1.645 de Erde und Himmel, obra póstuma de Adrienne.

31.Erde und Himmel, II § 680.

32.A. Siccari O.C.D., Communio, nov-dez. de 1991, p. 89.

33.Figura e opera, cit., pp. 58 ss.

34.Il nostro compito, p. 14.

35.Ibid., p. 9.

36.Ibid., p. 16.

37.P. 61; Unser Auftrag, p. 78; ver Communio, mai.-jun. de 1989, p. 102, que dá, entre parênteses, as explicações necessárias.

38.Jaca Book, p. 72.

39.Il Popolo de Pordenone, 16 de agosto de 1992.

40.Ibid., p. 32.

41.Mai.-jun. de 1989, p. 83.

42.Figura e opera, cit., p. 417.

43.Ibid., citado por Anspruch auf Katholizität, p. 66.

44.Ibid., pp. 69-70.

45.Na cidade italiana de Assis, em 1986, deu-se uma reunião de representantes de todas as religiões, convocada por João Paulo II, e que, dando origem ao chamado “espírito de Assis”, se vem repetindo desde então todos os anos, em diferentes cidades. Já provocou diversos escândalos, como uma imagem de Buda posta sobre um sacrário.

46.Ver Figura e opera, pp. 417-418.

47.Communio, jul-ago de 1992, art. H. Urs von Balthasar, Communion: un programme.

48.Ver Figura e opera, p. 417.

49.Ibid., p. 446.

50.Ibid., p. 447.

51.Ver Figura e opera, pp. 31 ss: “A Contribuição de Hans Urs Balthasar ao Ecumenismo”.

52.Ibid., p. 448.

53.Ver Figura e opera, p. 407.

54.Ibid., p. 405.

55.Citado em Figura e opera, p. 409.

56.H. U. von Balthasar, Kleine Fibel, p. 92, citado em Figura e opera, p. 444.

57.R. Amerio, Iota Unum, Nouvelles Editions Latines, p. 461.

58.Pio XI, Mit Brennender Sorge.

59.Ver A. Russo, H. de Lubac: Théologie et dogme dans l´Histoire. L´Influence de Blondel.

60.Ver Sì Sì No No, ed. francesa, no. 64, outubro de 1985.

61.H. U. von Balthasar, Communio, jul.-ago. de 1992, p. 57.

21 de novembro de 2011

RCC



O movimento carismático: uma perigosa ilusão

Jornal Sim Sim Não Não

A Renovação Carismática Católica parece ser a última esperança dos Bispos para encher as suas igrejas. Será realmente a solução correta?
Todos os promotores do movimento carismático que se autodenomina católico fazem alarde, com complacência, dos efeitos do “batismo do Espírito”, como o Pe. Caffarel em Deve-se falar de um pentecostismo católico?. Falam de muitos assuntos: o incremento de vida divina e o descobrimento do Hóspede interior, uma oração viva e jubilosa; o amor à Sagrada Escritura; o apego à Igreja; o impulso missionário; uma experiência de liberação (no plano físico, moral, psicológico) e, por último, os carismas: profecia, discernimento dos espíritos, poder de curas, falar em línguas, dom de interpretar… Em poucas palavras: tudo de que se precisa para renovar a paz na terra! E justamente porque provoca estes efeitos maravilhosos de ardor religioso, a renovação carismática apresenta um atrativo fora do comum, uma vez que a atração do extraordinário é mais forte do que todas. De fato, que sacerdote, que católico militante não deseja que seu apostolado seja eficaz? Que discípulo de Cristo não deseja ardor ao rezar, ao ler a Sagrada Escritura, ao praticar a caridade? Que cristão não deseja “sentir” o amor de Deus, sua inefável presença, sua ação benéfica? Que católico não se cansa de viver na “nudez” da fé, na “negrura” da esperança (sperare contra spem), num mundo cada vez mais deserto, no qual os medos, os compromissos, as traições asfixiam cada vez mais a Verdade, natural ou sobrenatural, e onde a caridade é muitas vezes nada mais que filantropia sem fogo divino e sem chama?
A “fé” carismática é feita de intuição, de sentimento, de experiência interior. É uma “fé” imanente e subjetiva. Não se trata de “saber” para crer, mas de “sentir” para crer. A alma toma o caminho da sensibilidade, e é aí onde o demônio está na espreita.

Suas origens
Tudo começou com a participação de alguns católicos em assembléias de pentecostistas protestantes e com a recepção do “batismo do Espírito” por obra dos pentecostistas.
Em 13 de janeiro de 1967, “dia da oitava da Epifania, consagrado pela liturgia católica à celebração do batismo de Jesus por meio do Espírito Santo no Jordão, … eles [os fundadores do pentecostismo] encontravam-se na casa de Miss Florence Dodge, uma presbiteriana que havia organizado um grupo de oração há algum tempo. O grupo reunia-se em sua casa com regularidade e ela habitualmente dirigia essas reuniões” (Le Retour de l’Esprit, p. 22, ed. du Cerf, Paris – livro dos Ranaghan, que figuraram entre os primeiros “pentecostistas católicos” e também entre os primeiros em escrever sobre o movimento carismático). Mais tarde, três professores de Pittsburg e a esposa de um deles assistiram uma primeira reunião carismática: “Deixou-nos uma impressão duradoura, diz um deles, de que ali operava o Espírito [?]” (Ibidem, p. 23).
Dois dos professores (Ralph Keifer e Patrick Bourgeois) assistem à reunião seguinte: “terminou – diz Ralph Keifer – quando Pat [Patrick Bourgeois] e eu pedimos que rezassem conosco a fim de recebermos o batismo do Espírito.
Eles se dividiram em vários grupos, porque rezavam por várias pessoas. Só me pediram que fizesse um ato de fé para que o poder do Espírito operasse em mim. Logo rezei em línguas” (Ib., p. 23). “Na semana seguinte – acrescentam os Ranaghan -, Ralph [Keifer] impôs as mãos aos outros dois [ou seja, ao outro professor de Pittsburg e à esposa de um deles] e também eles receberam o batismo do Espírito” (Ib., p. 24). O processo está a caminho: o iniciado torna-se iniciador e transmite o “influxo espiritual”. Todo o chamado pentecostismo ‘católico’ se encontra em germe nesses textos do livro dos Ranaghan. Prosseguindo sua leitura, vemos como a “corrente” passa de um dos promotores aos recém-chegados: “Um casal de noivos … tinha ouvido falar do “batismo do Espírito Santo” e desejava recebê-lo. Aproximaram-se então de Ralph Keifer [um dos fundadores do pentecostismo “católico”] e pediram-lhe que rezassem com eles para que o Espírito Santo se fizesse plenamente em sua vida… Foram profundamente tocados pelo Espírito de Cristo. O Espírito manifestou-se muito rápido com o dom das línguas e aquele jovem e aquela senhorita louvaram a Deus” (Ib., p. 29). E tudo não acaba aqui: “Mas eles sabiam que, ao mesmo tempo, uma das jovens [membro do grupo pentecostista] … tinha sido atraída para a capela e que ali tinha sentido a presença quase tangível do Espírito de Cristo. Saiu tremendo da capela e chamou os outros para que regressassem até ali. Os membros do grupo, sozinhos ou em dupla, dirigiram-se para lá e, enquanto estavam todos unidos em oração, o Espírito Santo se fez derramar sobre eles” (pp. 29-30). Salta à vista que essa espécie de “Espírito” sopra muito e “pneumatiza” todo aquele que se entrega a sua ação transbordante de favores carismáticos! Em poucas palavras: a corrente carismática passou do protestantismo herético e iniciático aos supostos católicos, provocando “efeitos maravilhosos” de ardor religioso que não podem ser explicados por uma causa sobrenatural, porque o Senhor não pode de maneira alguma participar de uma experiência feita por católicos desobedientes à Igreja, em um ambiente herético e com uma iniciação, um rito, abertamente acatólico.

A iluminação iniciática
O pentecostismo carismático parte de um fenômeno que, segundo parece, quer se fazer passar por uma obra do Espírito Santo; tal fenômeno consiste em uma iluminação iniciática.
A iluminação iniciática constitui o umbral das sociedades secretas, congregações iniciáticas, etc. No movimento carismático, essa iluminação “precipita” a alma num universo que já não é o da fé católica, e sim outro universo. Para se chegar à iluminação iniciática, requer-se uma escolha, uma decisão. No movimento carismático, tal escolha consiste em receber o famoso “batismo do Espírito”. Nota-se que a iluminação iniciática não é algo que se aprenda, mas uma “impressão” que se recebe e que não se pode explicar.
No movimento carismático, nada, absolutamente nada, pode verificar-se sem um membro “iniciador”, que já tenha recebido o “batismo do Espírito” (ou seja, a “iniciação carismática”) e que, por si só, tenha-se tornado capaz de transmitir o “influxo espiritual” responsável pela impressão iniciática. Isso constitui um elemento capital no movimento carismático, elemento que também permite distinguir o Sacramento da Confirmação conferido no seio da Igreja Católica do mencionado “sacramento carismático”, pois somente um bispo pode conferir o Sacramento da Confirmação (ou um sacerdote delegado por ele), e ele não pode transmitir seu poder a seus sacerdotes e muito menos aos leigos. No movimento carismático, ao contrário, o iniciado transmite, através da iniciação, seu próprio poder de “iniciar”. Além disso – coisa estranha – um Cardeal pode receber a iniciação carismática das mãos de um menino dotado de “poderes espirituais” dos quais careceria o príncipe da Igreja. Basta que este menino tenha recebido o “sacramento” iniciático do “batismo do Espírito”. Tendo em vista a natureza hierárquica da Igreja, isso é simplesmente uma aberração!
Assim, os grupos carismáticos podem multiplicar-se até o infinito: basta que tenham um “iniciado”, seja padre, religioso ou leigo, homem ou mulher, velho, adulto ou criança. Isso não importa.

A iluminação iniciática exige um rito
Outro ponto capital é o da necessidade de um rito para realizar a iluminação iniciática.
O movimento carismático é a história de um influxo “espiritual” (alheio à fé católica) transmitido por um “iniciado” mediante um rito que serve de veículo: o “batismo do Espírito” com a imposição das mãos. Rito que os católicos foram buscar entre os pentecostistas protestantes! O movimento carismático não é nada, absolutamente nada, sem esse rito, quer dizer, sem a transmissão de um influxo “espiritual” destinado a produzir uma impressão ou uma iluminação iniciática.

A questão capital: de que natureza é esse influxo iniciático?
Nesse ponto arma-se a pergunta importante: qual é a verdadeira natureza desse influxo iniciático?
Basta ler o testemunho das vítimas da renovação carismática para compreender que o “Espírito” que dá sua força preternatural ao influxo iniciático produz efeitos absolutamente extraordinários pelo seu número, gênero, rapidez, intensidade.
Será um influxo de ordem preternatural, diabólico? É possível. Mas, uma vez que o demônio se sobressai na arte de disfarçar-se em anjo de luz, o que importa é distinguir os influxos. Que anjos intervêm na iniciação? Os bons concorrem somente para preparar a iluminação da fé e têm sempre a maior discrição. Mas os anjos maus podem alimentar qualquer tipo de ilusão e torná-la sedutora, acompanhando-a até de prodígios nos homens que se entregam à sua ação.
A iluminação carismática não pode ter uma origem divina no movimento carismático, porque sua fonte não é a da fé católica.

A doutrina católica dá o remédio contra a sedução diabólica
Visto que o mal contido na iluminação iniciática não é manifesto, as almas não se questionam se tudo está bem ou mal, e caem facilmente na rede infernal sem sabê-lo. Para livrá-las de sua cegueira, seria mister fazer o discernimento dos espíritos, o único meio que permite realmente ver uma inspiração diabólica ali onde se crê ver uma inspiração divina.
Deus, de fato, não se pode deixar roubar o Sacramento da Confirmação por uma caricatura simiesca totalmente alheia à fé católica. Deus, na verdade, é dono de seus dons e pode dar os que quiser, a quem quiser e quando quiser. Mas o católico não deve “tentar” o Senhor (Mt 4,7), diferente do que o pentecostismo-renovação convida a fazer.
Por isso São Vicente Ferrer, assim como Santo Tomás e São João da Cruz, põe as almas de sobreaviso contra a “sugestão e ilusão do demônio, que engana o homem em suas relações com Deus e em tudo o que se refere a Deus” (A vida Espiritual). Ele dá o remédio contra as tentações espirituais suscitadas pelo diabo: “Os que queiram viver na vontade de Deus não devem desejar obter [...] sentimentos sobrenaturais superiores ao estado ordinário daqueles que têm um temor e um amor a Deus muito sinceros. Tal desejo, de fato, só pode vir de um fundo de orgulho e de presunção de uma vã curiosidade em relação a Deus e de uma fé demasiado frágil. A graça de Deus abandona o homem que está preso a este desejo e o deixa à mercê de suas próprias ilusões e das tentações do diabo que o seduz com revelações e visões enganosas” (Ibidem). E também: “Fugi da companhia e da familiaridade daqueles que semeiam e difundem essas tentações e daqueles que a defendem e louvam. Não escuteis seus relatos nem suas explicações. Não procureis ver o que fazem porque o demônio não deixaria de vos fazer ver em suas palavras e obras, sinais de perfeição aos quais vós poderíeis prestar fé e assim cair e vos perder junto com eles” (Ib.). Acrescentamos as palavras de Santo Inácio, “expert” no discernimento dos espíritos: “É próprio do anjo mal, transfigurado em anjo de luz, começar com os sentimentos da alma devota e terminar com os próprios”.
Desde o momento em que a alma cruza o umbral do universo carismático (universo oculto) pode acontecer de tudo. Tudo começa com dons inefáveis: entusiasmo e ardor fervoroso, liberação dos complexos, dos vícios, dom de profecia, de cura, de glossolalia (ou xenoglossia: falar em língua estrangeira desconhecida), etc…
Impossível não se lembrar dessas palavras do Evangelho: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expulsamos os demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? E então eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que operais iniqüidades” (Mt 7 – 22, 23).

A “Igreja do amor” ou o homem no lugar de Deus
No livro de Huysmans intitulado Là bas, há uma passagem particularmente importante que evoca a igreja carismática de João (contraposta à Igreja hierárquica de Pedro), que florescerá com a vinda do Paráclito e que se chama a “igreja do amor” (em sintonia com a “civilização do amor” de Paulo VI), a “igreja da reconciliação”, a “igreja ecumênica” ou “universal” (em virtude de seu carismatismo): “É um axioma teológico que o espírito de Pedro vive em seus sucessores. Viverá neles, até a expansão auspiciada do Espírito Santo. Então João, – diz o Evangelho – começará seu ministério de amor e viverá na alma dos novos Papas”. Esse texto mostra claramente o laço esotérico que liga a “expansão do Espírito Santo” (conduzido pela “renovação carismática”) e o “ministério de amor” de João. O autor esotérico Salémi enunciava em 1960: “O novo evangelho de João logo será pregado em toda a Terra” (Le message de l’ Apocalypse, p. 293).
Estamos no tempo desse “novo evangelho”: “Invoca-se o Apóstolo S. João – escreve Pierre Virion -, discípulo do amor, contra a autoridade de Pedro. É a velha teoria Rosa-Cruz, que profetiza a igreja esotérica [iniciática] de João, superior à igreja exotérica [não iniciática] de Pedro, e cujos tempos apocalípticos parecem ter chegado. A Igreja Romana deve ceder-lhe o posto, deve desaparecer tal como é: ‘Abriu-se … o ciclo de João’” (Mystère d’iniquité, p. 146).
Surge então a pergunta: que significa essa “igreja de João”, a igreja da terceira hora, a igreja da hora do Espírito Santo? A igreja de João já não é Deus em primeiro lugar, mas o homem; não a transcendência, mas a imanência; não a fé, mas o gosto sensível, o prodigioso, os carismas (democraticamente assegurados a todos, graças ao “batismo do Espírito”); não o dogma, mas a “revelação interior”, o subjetivismo, o profetismo, o iluminismo; não o sacramento instituído por Cristo, mas outra espécie de “sacramento” enxertado em uma corrente oculta (assim é o “batismo do Espírito”: uma paródia de sacramento com efusão da “graça diabólica” através de um rito herético); não a Eucaristia-Sacrifício (daqui vem a fúria contra o rito chamado de S. Pio V), mas a eucaristia-festa; não o sacerdócio ministerial, mas o caráter sacerdotal de todo fiel (1); não a igreja hierárquica e carismática ao mesmo tempo, mas uma igreja meramente carismática; não o Papa, mas um sínodo paralisador; não os bispos, mas uma colegialidade sufocante; não os párocos, mas as assembléias presbiteriais; não a hierarquia oficial, mas as comissões, comitês, etc., etc., constitutivos de um governo paralelo; não a Igreja Católica Romana, mas uma igreja universal que inclui todos os cultos tributados a qualquer divindade. Em conclusão: o que René Guénon chamaria de “igreja integral”. E esta “igreja integral”, cujo objetivo é destruir por asfixia a igreja hierárquica tradicional, a igreja de Pedro, deve ser o fruto da vinda do Espírito (os Ranaghan diziam: do “retorno” do Espírito), porque é o “Pentecostes” deste “Espírito” que permitirá a João exercer seu “ministério de amor”!
Compreendemos agora porque em nossos dias fala-se tanto de amor: “Enganar-se-á o povo em nome do amor, de um amor que não é a caridade teologal, mas cujo nome usurpa. Assim, nunca tínhamos lido tanto nas publicações maçônicas a frase: ‘Amai-vos uns aos outros’. Mas é sempre empregada, em nome de Cristo, contra sua Igreja” (Mystère d’Iniquité, cit., p. 146).

Que fazer?
Que fazer diante desta cegueira causada pela invasão carismática, caricatura diabólica do Sacramento da Confirmação, chamada de “batismo” com razão, porque marca a passagem do mundo católico ao mundo oculto? São João da Cruz dizia: “[Uma vez cegada a alma] poder-se-á enganar quanto à quantidade ou qualidade, pensando que o que é pouco é muito, e o que é muito, pouco; e quanto à qualidade, considerando o que está em sua imaginação como uma coisa, quando não é senão outra coisa, trocando, como diz Isaías, as trevas pela luz e a luz por trevas, e o amargo por doce e o doce por amargo (5, 20)” (Subida do Monte Carmelo, L. 3, cap. 8).
Hoje, mais do que nunca, é necessário insistir no que constitui a verdadeira vida de fé. Continuemos ouvindo S. João da Cruz: “ (…) e assim, estando a alma vestida de fé, o demônio não a perturba, porque com a fé ela está muito amparada – mais do que com todas as demais virtudes – contra o demônio, que é o mais forte e astuto inimigo.
Por isso S. Pedro não encontrou maior amparo do que a fé para livrar-se do demônio quando disse: Cui resistite fortes in fide (2) (I Petr 5,9). E para conseguir a graça e a união com o amado, a alma não pode ter melhor túnica e vestimenta interior, como fundamento e princípio das demais virtudes, que esta brancura da fé, porque sem ela, como diz o Apóstolo, é impossível agradar a Deus (Hebr 11,6), e com ela é impossível também deixar de agradar, pois Ele mesmo diz pelo profeta Oséias: Desponsabo te mihi in fide (Os 2,20), que quer dizer: “Se queres, alma, unir-se a mim e me desposar, deverás vir interiormente vestida de fé” (Noite passiva do espírito, cap. 21).
Recorramos à Santíssima Virgem para que esmague a cabeça daquele que se faz passar pelo Espírito Santo e quer fazer-se adorado em seu lugar. Recitemos por isso o Santo Rosário com todo o ardor de nossa fé, inimiga da “sensibilidade carismática”.

PS: Em nossa edição portuguesa, fizemos um resumo do texto original, modificando também um pouco a ordem do mesmo e alguns títulos e fazendo alguns pequenos acréscimos.

—
Notas:
(1) Assim testemunha um pentecostista: “Os católicos sabem agora que pode-se receber o batismo do Espírito Santo sem a imposição das mãos por parte dos bispos ou sacerdotes, porque podem ir diretamente a Jesus [como os protestantes]. De minha parte, descobri com muita surpresa que os católicos se alegram por já não dependerem completamente dos sacerdotes” (citado por Lumière, julho de 1975). Também um padre católico carismático testemunha: “Começamos a realizar o sacerdócio de todos os fiéis” (Ibidem).
(2) Ao qual resisti forte na fé

19 de novembro de 2011

CANÇÃO NOVA — Já ouvi esta canção... velha favorecedora de posições anticatólicas

Canção Nova tem apresentador a favor da Revolução Homossexual 

Luís Felipe Escocard  



Folheto afirma que católicos
não podem votar em abortistas.
Coletiva do Sr. Edinho Silva
discordando.
A rede de TV Canção Nova estreou um novo programa denominado Justiça e Paz, apresentado pelo Sr. Edinho Silva, com o intuito de falar sobre a doutrina social da Igreja Católica.

O novo apresentador é deputado pelo PT em São Paulo. É sempre bom lembrar que a atuação anticatólica desse partido não se restringe ao campo político, ao defender o MST e o socialismo, mas também moral.

Por exemplo, para o segundo mandato do presidente Lula, o PT estabeleceu diversas diretrizes, entre elas, a de que “o governo federal se empenhará na agenda legislativa que contemple a descriminalização do aborto.”(1)

Além disso lançou o malfadado PNDH-3, – que vem sendo valorosamente combatido pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira – que contém o incentivo à legalização do aborto, ao “casamento” homossexual, à retirada de crucifixos de locais públicos e outras aberrações.

Os deputados contrários ao aborto que pertenciam ao partido ou foram expulsos ou foram pressionados a se desfiliarem. O “católico” Sr. Edinho Silva lá permaneceu…

A então candidata Dilma Roussef, conhecida por ser favorável ao aborto, viu seriamente ameaçada sua candidatura até que houve uma série de censuras aos esclarecimentos que se fazia com relação a ela.

O leitor deve se lembrar dos folhetos da Regional Sul I da CNBB, impulsionado por D. Bergonzini, bispo de Guarulhos. Uma grande encomenda de folhetos foi apreendida pela justiça eleitoral (que mais tarde verificou a legalidade destes) a pedido do PT.

Já adivinhou quem era na época, e ainda é, o presidente do PT paulista, não?

O mesmo que a Canção Nova contratou, e que, à época, afirmou que “os advogados da campanha irão à Justiça Eleitoral para impedir a continuidade da impressão.”(2). Isto porque o documento dos bispos, segundo ele, estaria “abrindo um precedente, criando uma cultura política nociva que nenhum de nós sabemos onde pode chegar. Se resultado eleitoral pode ser alcançado com esse tipo de prática, com mentiras, calúnias, difamações, boatos, efetivamente, a democracia está em risco.”(3)

Além disso, no site do Sr. Edinho encontra-se a notícia (4) de um encontro homossexual na cidade de Araraquara promovido pelo PT “para enfrentar o conservadorismo religioso” nas cidades pequenas. O que diz a notícia sobre o “fervoroso” Sr. Edinho? “O presidente do Diretório Estadual, Edinho Silva, enviou uma saudação aos presentes e reiterou o apoio do Partido nos debates envolvendo o movimento.” 

Na biografia descrita em seu website, afirma-se que “como cristão engajou-se nas pastorais da Igreja Católica e, seguindo os passos da Teologia da Libertação, orientou-se politicamente para o Partido dos Trabalhadores, no qual se filiou em 1985.”

Ou seja, além de tudo, um membro da velha Teologia da Libertação (esta que há anos esperneia por comunismo e que foi condenada pelo Vaticano).

A Canção Nova faz parte da Renovação Carismática Católica, movimento que, segundo alguns, teria surgido e existiria em contraposição à Teologia da Libertação, porque veria nesta muita ação político-social em detrimento da prática religiosa.

A ser assim, seria inexplicável que uma pessoa como o Sr. Edinho Silva tenha um programa televisivo na Canção Nova. Ou então a sobredita rede de TV também simpatizaria com suas ideias? Ou, ainda, quer abrir espaço para “novas ideias”, bem diversas da Doutrina Católica de sempre?

O fato é que já se percebe, especialmente na internet, uma grande perplexidade e apreensão no público que geralmente assiste à Canção Nova ou que achava ser esta um pólo de oposição à Teologia da Libertação.
_________________ 
Notas: 
1- http://www.pt.org.br/site/noticias/noticias_int.asp?cod=43228 
2- http://www1.folha.uol.com.br/poder/815617-grafica-recebe-encomenda-de-bispo-para-imprimir-21-mi-de-panfletos-anti-dilma.shtml 
3- http://edinhopt.com.br/noticias/socia-da-grafica-dos-panfletos-ilegais-antidilma-e-filiada-ao-psdb 
4- http://edinhosilva.com.br/2011/08/pt-realiza-1%C2%BA-encontro-lgbt-em-araraquara/ 


Fonte: Blog da Família 

11 de novembro de 2011

Os devidos cuidados com o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Sacrílega Comunhão na Mão - Fonte: Site Capela

Francisco Lafayette de Moraes

Este trabalho do Sr. Lafayette é um dos capítulos de uma grande compilação sobre a  Santa Missa, onde o autor recolhe de vasta bibliografia e organiza com inteligência, muitas explicações sobre a Missa Nova, seus erros, a comparação com a Missa de São Pio V etc. Nesta obra inédita são dadas exaustivas referências a todas as obras citadas. Essas notas  foram aqui retiradas para não tornar a leitura desagradável. 


Antecedentes -  Sobre o Concílio Vaticano II e a Reforma Litúrgica 

O Papa Pio XII faleceu em 1958 e no início de 1959 foi dado o primeiro aviso oficial sobre o futuro Concílio; e a 25 de julho de 1960, João XXIII tornou pública a sua decisão de confiar aos Padres do Concílio a reforma litúrgica.
As comportas iam ser abertas; era preciso, então, acelerar as providências. O monge beneditino Dom Adrien Nocent, "neolitúrgico típico", foi nomeado, em 1961, professor do Pontifício Instituto de Liturgia de Santo Anselmo em Roma, uma venerável universidade beneditina fundada por Leão XIII; e lá Dom Nocent preparava o Concílio. Naquele mesmo ano de 1961, em sua obra O Futuro da Liturgia, Dom Nocent definia os princípios e os fundamentos da nova missa que então preconizava. Seu propósito: influir direta e decisivamente na "revisão da liturgia" que poderia ser realizada durante o Concílio Vaticano II.

Veio o Concílio.
Pela vontade do Papa João XXIII, o Vaticano II quis ser um Concílio Ecumênico e, como disse um bispo não tradicionalista, aí esta palavra "ecumênico" deve ser entendida não no sentido tradicional de "universalidade" ou de "catolicidade", mas "na acepção moderna (ou errônea?) de favorecer a unidade dos cristãos" 1.
Essa intenção de fazer do Concílio um instrumento de ecumenismo (aliás, falso) abriu as portas da Santa Sé e a cidadela foi ocupada pelos neolitúrgicos progressistas.
Deixemos de lado o que nos separa, guardemos o que nos une; este bem conhecido programa de João XXIII foi o principio inspirador da nova liturgia.
Ora, uma reforma litúrgica inspirada em "motivos ecumênicos" é inconcebível, porque contradiz o princípio imutável da liturgia católica: cabe à regra de fé regular a oração. Uma tal reforma é, ao contrário, pôr em prática a "caridade sem fé" que São Pio X condenou no modernismo. Não é de espantar que a "reforma" (que ia ser implantada) tenha sacrificado a claridade e a exatidão doutrinal em troca de ambigüidade e compromisso.
Todavia, imbuídos do princípio anunciado por João XXIII, os Padres conciliares irão dizer, no primeiro documento que aprovaram, ou seja, na Constituição "Sacrosanctum Concilium" sobre a reforma da "Sagrada Liturgia", de 4 de dezembro de 1963, que o Concílio Vaticano II, desde o seu inicio, propunha-se a "favorecer tudo o que possa contribuir para a união dos que crêem em Cristo"... e para tanto julgou "ser seu dever cuidar de modo especial da reforma e do incremento da Liturgia" (idem, pg 259. O destaque é meu)., estando a Reforma do Ordinário da Missa inserida nessa reforma. E esse documento foi redigido de uma forma tão ambígua que tornou possível a remoção "das pedras que pudessem constituir mesmo sombra de um risco de tropeço ou de desagrado para nossos irmãos separados", como declarou Monsenhor Annibal Bugnini, artífice da Nova Missa, no L’ Observatore Romano de 19 de maio de 1965, pedras essas que existiam (e que continuam a existir) na liturgia da Igreja Católica, particularmente no rito romano tradicional, restaurado e canonizado por São Pio V para deter e combater as heresias protestantes.
Com a aprovação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia foi iniciada a protestantização da Missa católica. E, isto feito, Paulo VI, a 29 de fevereiro de 1964, criou o "Consilium ad Exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia" – Conselho para a Aplicação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, o "Consilium", tendo por presidente o Cardeal Lercaro e por secretário o Monsenhor Annibal Bugnini, ou seja, os elementos mais avançados do Movimento Litúrgico italiano. Ao Consilium coube a tarefa de fazer a Reforma Litúrgica, aprovada pelo Vaticano II.
A VERDADEIRA HISTÓRIA DA COMUNHÃO NA MÃO

I - Introdução

Na "Missa de Dom A. Nocent", sugerida por este monge beneditino em 1961, já estava recomendado que a comunhão deveria ser feita sob ambas as espécies — costume que havia sido abolido "por graves e justas causas", como afirmou o Concílio de Trento, mas que a Constituição "Sacrosanctum Concílium" sobre a Sagrada Liturgia, de 1963, tornou novamente possível 2 — e, mais ainda, de pé e na mão.
O procedimento de receber a comunhão de pé e na mão não consta do Livreto "Liturgia da Missa", obra com a “Tradução Oficial para o Brasil” aprovada pela CNBB e pela Sagrada Congregação do Culto Divino, mas foi adotado sem a menor sombra de dúvida e, depois, tornou-se uma prática universal.
Quanto à questão de ser a comunhão feita de pé, salvo a menção feita na "Missa de Dom A. Nocent", nada encontrei em documento algum. Todavia, é um procedimento que acompanha naturalmente à decisão de permitir a comunhão na mão, pois ninguém vai se ajoelhar para receber a comunhão desse modo e, hoje em dia, os comungantes só recebem a comunhão de pé; até mesmo aqueles que a querem receber na boca (ver X – “Conclusões”).
A comunhão na mão foi especificamente autorizada pela Instrução "Memoriale Dómini" – Instrução essa redigida "por mandato especial de Paulo VI e por ele mesmo aprovada em razão de sua autoridade apostólica" (28/05/69) – e na qual a Sagrada Congregação para o Culto Divino, na esteira de outros autores, afirma que "em épocas muito antigas se fez uso da comunhão na mão", dando a entender que este era o procedimento normal. É este o tema que vamos aprofundar neste ensaio, para mostrar a verdadeira história da comunhão na mão.

II - O Corpo de Deus e o respeito que lhe é devido

"Eu sou o pão da vida"... (Jo.6,48), "Eu sou o pão vivo que desci do céu... e o pão, que Eu darei, é a minha carne para a vida do mundo" (Jo.6,51) (e não apenas para a vida dos discípulos) e "Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos" (Mt.28,20).
Este pão da vida e pão vivo - Carne do Senhor - o Corpo de Deus vivo e verdadeiro - sempre foi tratado com o maior respeito e cercado de inúmeros cuidados desde os primeiros tempos do cristianismo (voltaremos a este ponto a seguir), como não poderia deixar de ser por se tratar do próprio Deus vivo, que quis se transubstanciar, usando um pedaço de PÃO, para que os homens pudessem comer da sua carne (Jo.6,54), alimento da alma, e (pudessem) alcançar a vida eterna (Jo.6, 54 e 58).
O Senhor se fez carne, Cordeiro de Deus, para o sacrifício e, de carne, se fez Pão – Pão do céu – para alimento de nossas almas.

III - Os cuidados com as partículas que caem da Hóstia consagrada

Era norma dos primeiros cristãos só comer a Carne do Senhor depois de tê-la adorado, o que prova a crença na presença real de Nosso Senhor; e àquele que ia comê-la era dirigida esta advertência: "...recebe com cuidado de nada perder. É em verdade o Corpo de Cristo" (ver IX - A "Memoriale Dómini").
A Igreja sempre tomou um grande cuidado a fim de evitar que qualquer partícula da Santa Eucaristia se perdesse ou caísse no chão. São Cirilo de Jerusalém (313-316) dizia aos novos batizados que eles deviam lamentar mais a perda de qualquer partícula da Hóstia que a perda de ouro, de diamante ou de qualquer um dos membros de seu corpo. De acordo com este modo de pensar, os orientais chamam os fragmentos da Eucaristia de "pérolas". Por sua vez, a liturgia de São Crisóstomo (344-407) assinala que, ao fim da Missa, o padre ou o diácono consome com atenção e devoção todos os fragmentos e cuida para que não se perca qualquer partícula ou "pérola". Note-se que tal norma era, no século IV, dirigida apenas aos ministros do culto, não fazendo menção aos fiéis leigos.
E eles tinham todos esses cuidados ainda que as partículas, ou fragmentos, que caíam da Hóstia consagrada fossem naquele tempo muito menos numerosas que hoje em dia. Isto porque o "dom" oferecido nos primeiros tempos era um pão ázimo como agora, mas de uma forma, com um contorno, que não favorecia a deposição de partículas, ou seja, as "pérolas", como acontece com as pequenas hóstias que são hoje em dia empregadas pela Igreja do Ocidente; e é preciso dizer que é da máxima importância ter todo cuidado com qualquer partícula da Hóstia já consagrada, por menor que seja, pois está "o Cristo todo inteiro sob a espécie do pão e sob a mínima parte desta espécie", como definiu dogmaticamente o Concílio de Trento 3.
Com efeito, das bordas das pequenas hóstias que hoje são utilizadas para serem oferecidas e consumidas caem pequeninas partículas; quem já viu um cibório, onde são guardadas as hóstias já consagradas, ou uma patena depois da comunhão dos fiéis sabe quantas "pérolas" ali ficam. Com a nova forma de comungar, o Corpo do Senhor fica agora na palma da mão ou entre os dedos de quem comunga ou então cai no chão e pode ser pisado.

IV - A manipulação do Corpo do Senhor: o procedimento normal

Talvez já prevendo que tais profanações pudessem vir a ocorrer e, também, em função do respeito que se deve ter para com o Corpo do Senhor, os Santos Padres se preocuparam desde os primórdios do Cristianismo em firmar uma doutrina sobre quem estava habilitado a tocar no Pão e no Vinho consagrados. E o procedimento normal adotado, desde o início, sempre foi o de ficar a manipulação dos dons consagrados - e, portanto, a sua distribuição também - restrita a pessoas, também, consagradas, aquelas que recebem o dom de poder tocar no Santíssimo Sacramento, o que mostra que ao leigo não é lícito (salvo em casos especiais) tocar neste Corpo; e se não lhe é permitido tocar, muito mais grave é recebê-lO nas mãos e levá-lO à boca para consumir a Vítima sagrada do Sacrifício — o Corpo de Deus Filho — oferecido a Deus Pai.
Além disso, as normas estabelecidas pelos Santos Padres (que serão mostradas mais adiante) não seriam necessárias se os fiéis leigos estivessem também autorizados a tocar nos santos mistérios. Não podendo tocá-los, por não terem mãos consagradas para fazê-lo, como é que estas mesmas mãos podem receber o Corpo de Deus vivo?
Porém, hoje, depois do Vaticano II, para justificar a comunhão recebida na mão, é dito que era esse o costume dos primeiros cristãos. O próprio, e insuspeito, Padre Le Brun afirma que "durante os cinco primeiros séculos os padres davam a Eucaristia na mão dos fiéis" 4. Todavia, como veremos, esta não é a verdadeira história, e se, no século V, um Papa afirmou explicitamente que a comunhão deve ser recebida na boca não foi porque antes fosse recebida na mão, mas, sim, por causa dos abusos que, ainda, continuavam a ocorrer em seu tempo, como será também mostrado.

V - O procedimento de exceção na manipulação do Corpo de Deus

De fato, a manipulação do Corpo do Senhor pelos leigos — para seu próprio uso ou para distribuí-lO a outros fiéis (o que não significa necessariamente que estivessem autorizados a distribuir a comunhão na mão desses fiéis) — era um costume que devia ficar restrito a alguns casos especiais, casos de exceção (ver VII – “As exceções”), e isto se aplica tanto aos primeiros tempos do cristianismo como aos tempos atuais. Assim é que o Santo Ofício, em resposta (21 de julho de 1841) a uma consulta, diz: "É unicamente em tempo de perseguição, em caso de real necessidade e se o padre, ministro ordinário do Sacramento, estiver impedido, que os leigos podem manipular a Santa Eucaristia".
 
VI - Os acontecimentos históricos
 Vejamos, então, o que realmente aconteceu, ou seja, qual era a doutrina dos Santos Padres dos primeiros tempos e quais eram os casos de exceção; passemos aos fatos históricos.

São Paulo chama os padres de "ministros do Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus" (1Cor.4,1 e 2) e, portanto, cabe a eles a manipulação do Corpo de Deus e a distribuição dos dons consagrados.
Abusos devem ter ocorrido, pois, São Sixto I - Papa de 117 a 126 - julgou necessário lembrar e publicar a norma apostólica, reafirmando que somente os ministros do culto (os padres e seus ajudantes, os diáconos) são aptos a tocar (tangere) os santos mistérios: "hic constituit ut mysteria sacra non tangeretur, nisi a ministris".
São Justino (100-166), por sua vez, na sua Apologia dedicada ao Imperador romano, testemunha esta disciplina primitiva afirmando que são "os diáconos que distribuem a comunhão e levam aos doentes".
E o sábio Tertuliano de Cartago (160-250) diz, também, que o Sacramento da Eucaristia era recebido "somente da mão do padre": "nec de aliorum manu sumimus".
Como os casos em que estava autorizada a manipulação da Santa Eucaristia pelos leigos (ver VII – “As exceções”) continuassem a gerar abusos, Santo Estevão - Papa de 254 a 257 - teve que advertir os leigos, dizendo-lhes que eles não deviam "considerar como suas as funções eclesiásticas"; e, quanto ao clero, Santo Eutiquiano - Papa de 275 a 283 - exortou os padres a manterem a disciplina cumprindo seus deveres, especialmente levando eles mesmos a Comunhão aos doentes: "nullus praesumat tradere Communionem laico vel feminae ad deferendum infirmo" (que ninguém ouse confiar a um leigo ou a uma mulher o cuidado de levar a Comunhão a um doente).
Assim, pelos textos citados, vemos que mesmo em tempo de perseguição, ou seja, mesmo antes da "paz da Igreja", o que ocorreria pouco depois do ano 313, ano do Edito de Milão, não era um costume generalizado os leigos manipularem a Eucaristia para distribuí-la ou consumi-la. Não seriam necessárias todas as advertências dos Santos Padres, acima citadas, sobre quem devia manipular o Corpo de Deus, se os fiéis pudessem tocar habitualmente no Santíssimo Sacramento. Se eles pudessem tocá-lO, poderiam também servir a si mesmos e também (poderiam) distribuir a Comunhão à outras pessoas (o que hoje fazem errada, pois habitualmente, os ministros extraordinários da Eucaristia). Porém, o que de fato se verifica é que, pelo menos desde o Papa São Sixto I, somente aos padres e aos diáconos é permitido manipular e distribuir a Eucaristia e, mais ainda, o diácono devia receber o Santíssimo Sacramento das mãos do padre. Os leigos só podiam tocar na Hóstia consagrada excepcionalmente.

VII - As exceções

É verdade que casos havia em que era permitido aos leigos manipular e distribuir a Comunhão. Os leigos podiam fazê-lo nos chamados casos de necessidade, ou seja, quando não havia sacerdote para se ocupar daqueles deveres; fora dessas circunstâncias, nem os leigos, nem os padres menores, devem ser considerados como ministros da Eucaristia. Eles somente serão chamados a título de ministros extraordinários em casos excepcionais.
Portanto, é verdade que - em tempo de perseguição e, portanto, tempo de exceção - os fiéis leigos foram autorizados a levar para casa o Santo Sacramento, para consumi-lo durante as semanas seguintes ou levá-lo aos doentes, mas era, conforme o caso, ou por causa da ameaça sempre eminente de perseguição ou da distância ou da falta de padres e de diáconos. São Basílio de Cesaréa (329-379), em sua Carta 93, datando aproximadamente de 372, declara que por esses motivos poder-se-ia "receber a Comunhão por meio de sua própria mão". Temos, assim, mais uma confirmação de que, normalmente, o fiel não deve receber a Comunhão de sua própria mão. Podemos concluir, também, que no caso de distribuição autorizada do Corpo de Deus a outros (doentes, por exemplo), isto não significa que a comunhão fosse dada na mão; estando o leigo que a ia receber proibido de tocar no dom consagrado, não é lícito esperar que recebesse o Corpo do Senhor na mão; e se o fizesse não seria em função de uma norma da Igreja, mas de um abuso. Para evitar dúvidas e abusos, os Santos Padres passarão a dizer, explicitamente, que a Santa Comunhão é recebida na boca (ver VIII - "Os tempos normais").
Desde que as circunstâncias permitiram, o costume excepcional mencionado no parágrafo anterior foi-se tornando desnecessário e é certo que esta prática de exceção, como diz o "Dicionário de Arqueologia Cristã e de Liturgia", de Dom H. Leclerq, "caiu em desuso pouco tempo depois da paz da Igreja".
Todavia, o hábito arraigado em alguns leigos fazia com que esses praticassem abusos já em tempos normais, por continuarem levando o pão consagrado para suas casas. Além disso, com a paz e liberdade concedidas à Igreja, as conversões para o Cristianismo se efetuavam em grande escala e de maneira por vezes brusca; conseqüentemente os novos cristãos ainda guardavam consigo traços de sua antiga mentalidade pagã, muito dada à superstição e ao uso de amuletos. Documentos atestam que a partícula sagrada era não raro pendurada ao pescoço dos fiéis, aos leitos, às paredes das casas, aos cofres, como se fora um amuleto, um feitiço dotado de poderes quase mágicos ou um instrumento poderoso contra doenças, desgraças, inimigos, etc.
Então, medidas enérgicas foram tomadas para restabelecer as regras apostólicas.
Para tanto, São Dâmaso I - Papa de 366 a 384 - proibiu aos fiéis terem o Alimento divino em suas residências: "oblationes... sub dominium laicorum deteneri vetat".
No ano 380, o Concílio Regional de Saragoça lança anátemas contra aqueles que insistissem em continuar a tratar o Santo Sacramento da mesma maneira que em tempos de perseguição, e o Concílio Regional de Toledo, no ano 400, insiste na mesma determinação: "Se alguém não consumir realmente a Eucaristia recebida do sacerdote, seja expulso como um sacrílego" (canon 14).
Verifica-se, portanto, que naquele tempo já era claramente distinguida a regra normal, daquilo que tinha sido, por muito tempo, exceção na Igreja.
Além disso, sendo as sanções acima citadas, pelas quais a Igreja protegeu o cumprimento das normas litúrgicas transmitidas pelos Apóstolos, de âmbito específico (regional), pode-se concluir também que esses abusos eram desvios não generalizados.

VIII - Os tempos normais
A paz externa, a expansão da Igreja por todo o Império Romano e o aumento das vocações sacerdotais fizeram com que a manipulação do Santíssimo Sacramento pelos leigos não tivesse mais justificativa.

A) A norma expressa sobre a Comunhão na boca

Se os primeiros Santos Padres se preocuparam em afirmar que cabia aos ministros do culto distribuir a comunhão, a fim de evitar que o Pão da Vida fosse manuseado por qualquer um como um pão comum, agora, no século IV e seguintes, em tempos de normalidade, vamos encontrar os Santos Padres citando explicitamente o costume tradicional de comungar; já haviam desaparecido os motivos que justificavam a manipulação do Corpo do Senhor pelos leigos e, por outro lado, era preciso firmar doutrina para combater os abusos que ainda ocorriam, bem como, também, (combater) a prática herética dos arianos5 de receber a comunhão na mão.
Assim, São Leão I - Papa de 440 a 461 - diz, explicitamente, que o Sacramento da Eucaristia recebe-se na boca: "hoc enim ore sumitur quod fide tenetur" (os/oris=boca).
Em 536, o Papa Agapito I, tendo se dirigido a Constantinopla, realiza uma cura milagrosa de um surdo mudo, durante a Comunhão, no momento em que lhe punha na boca o Corpo do Senhor: "cunque ei Dominicum corpus mitteret in os", conforme assinalado por São Gregório Magno - Papa de 590 a 604 - e sabemos que o próprio São Gregório I, também, dava a Comunhão na boca aos comungantes, como atesta o seu biógrafo Jean Diacre.
Os únicos que sempre comungaram de pé e com a mão foram, desde o princípio, os arianos, que negavam, obstinadamente, a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e que, por isso mesmo, não viam na Eucaristia senão um símbolo de união que podia ser manipulado à vontade.
Por volta de 650, sob o império de Clóvis II, o Concílio de Rouen estabeleceu, também, regras sobre a distribuição do Sacramento da Comunhão, indicando com muita precisão a atitude conveniente dos fiéis, isto é, a recepção da hóstia unicamente na boca — "Nulli autem laico aut feminae Eucharistiam in manibus ponat, sed tantum in os ejus" (cf. Acta Conciliorum Rothomagense, cap. II, pág. 8).
Apesar do cisma do Oriente já estar se anunciando, entre outras coisas por desvios na Liturgia, o Concílio de Constantinopla (692) proibiu, também, aos fiéis leigos se darem a si próprios a comunhão e ameaça de excomunhão por uma semana aqueles que se atreverem a distribuí-la quando houver um bispo, padre ou diácono na região.
Em 878, mais outro Concílio de Rouen (canon II) volta a lembrar a regra tradicional, o que mostra o aspecto realmente esporádico do abuso da prática de comungar com a mão.
Vê-se bem, face ao exposto, que a Igreja não mudava sua regra original, mas a consolidava, desejando o desaparecimento completo dos abusos, porque sempre foi costume, na Igreja de Deus, os leigos receberem dos padres a Comunhão.
São Tomás de Aquino, o Doutor Comum da Igreja Católica (1225-1274), ensina as razões teológicas que embasam esse costume:

"A distribuição do Corpo de Cristo cabe ao padre por três motivos. Primeiro, porque... é ele que consagra assumindo o lugar de Cristo. Ora, o próprio Cristo distribuiu o seu Corpo durante a Ceia. Portanto, assim (como) a consagração do Corpo de Cristo cabe ao padre, é também a ele que cabe a sua distribuição. Segundo, porque o padre foi instituído intermediário entre Deus e os homens. Por conseguinte, como tal, é ele que deve encaminhar a Deus as oferendas dos fiéis e também levar aos fiéis as dádivas santificadas por Deus. Terceiro, porque, por respeito por este Sacramento, ele não é tocado por nada que não seja consagrado. Por causa disto, o corporal e o cálice são consagrados e igualmente as mãos do padre o são, para tocar este Sacramento. Assim, nenhuma pessoa tem o direito de o tocar, a não ser em casos de necessidade como, por exemplo, se o Sacramento cair no chão, ou casos semelhantes" (Summa, III pars, Qu. 82, art 3).

Em 1551, o Concílio Ecumênico6 de Trento, também, repetiu o ensinamento tradicional da Igreja por causa dos desvios dos protestantes:

"Na comunhão sacramental sempre foi costume na Igreja de Deus receberem os leigos a comunhão das mãos do sacerdote... . Com razão e justiça se deve conservar este costume como proveniente da Tradição apostólica" (Sessão XIII, de 11-10-1551 – Decreto sobre a Santíssima Eucaristia – capítulo 8).

O Concílio Vaticano II, porém, nada decidiu e decretou sobre a maneira de comungar: se de pé ou de joelhos, se na mão ou se deve o Corpo do Senhor ser depositado pelo padre na língua do comungante.
Foi a Sagrada Congregação dos Ritos que se manifestou sobre o assunto em questão pela Instrução "Memoriale Dómini", redigida "por mandato especial de Paulo VI e por ele mesmo aprovada em razão de sua autoridade apostólica", a 28 de maio de 1969. Esta Instrução, que traz as assinaturas do Cardeal Gut e do Monsenhor A. Bugnini, Prefeito e Secretário daquela Congregação, foi suscitada por solicitações dirigidas à Santa Sé por umas poucas Conferências Episcopais (que já faziam uso da Comunhão na mão, como é dito na própria Instrução, sem qualquer licença para isso). E, em função dessas poucas solicitações, a norma apostólica sobre a comunhão: (I) que deve ser dada pelos ministros do culto, (II) que não deve ser tocada por mãos não consagradas, e (III) que deve por isso mesmo ser recebida na boca, será alterada em 1969.

B) A cronologia das mudanças

Antes de entrar no mérito do conteúdo da "Memoriale Dómini" julgo ser interessante apresentar a cronologia das alterações relativas à Missa e do modo de receber a Comunhão:

[03-04-69] Paulo VI aprova a Constituição "Missale Romanum", reformando o rito da Missa (ainda sem missal).
[06-04-69] A Sagrada Congregação de Ritos promulga o novo Ordo Missae, com sua "Institutio Generalis", que deveria entrar em vigor a 30-11-69.
[28-05-69] Paulo VI aprova a Instrução "Memoriale Dómini", permitindo a comunhão na mão.
[19-06-69] A Congregação para o Culto Divino por carta dirigida ao Presidente da Conferência Episcopal da França autoriza a comunhão na mão, ainda que contrariando a recente "Institutio Generalis" - a "Instrução Geral" do novo Missal - cujo artigo 80 diz que a patena é um dos objetos que se deve preparar para a celebração da Missa e cujo artigo 117 descreve a maneira como se deve efetuar a comunhão: ... O fiel responde: Amém e sustentando a patena debaixo do seu rosto recebe o sacramento7.
[23-09-69] Data constante do Livreto "Liturgia da Missa" com a "Tradução Oficial para o Brasil" da Nova Missa, aprovada pela CNBB e pela Sagrada Congregação do Culto Divino.
[20-10-69] Data da Instrução da Congregação para o Culto Divino: "De constitutione missale romanum gradatim ad effectum decudenda" (Instrução sobre a Aplicação Progressiva da Constituição Apostólica "Missale Romanum"), ficando a introdução do Novus Ordo Missae diferida para 28-11-71.
 
As regras da Nova Missa a respeito do modo de comungar, constantes da Instrução Geral da Constituição "Missale Romanum", estavam, portanto, superadas antes mesmo de terem entrado em vigor e, na prática, uma Instrução vai alterar não só essa Constituição, como, também, indiretamente, aquela que tinha sido aprovada pelo Vaticano II, ou seja, a "Sacrosanctum Concilium" sobre a Sagrada Liturgia. Vejamos, então, a Instrução "Memoriale Dómini".

IX - A "Memoriale Dómini"
 
Na Instrução "Memoriale Dómini", em sua introdução sobre o valor e o histórico do Sacramento Eucarístico, está dito que, em tempos muitos remotos, nas pequenas comunidades primitivas, a distribuição do Pão da Vida era feita nas mãos dos fiéis.
Contudo, apesar deste início - com o qual não concordo, como se vê pelo exposto acima - é importante transcrever longamente a "Memoriale Dómini", pois este documento mostra e reconhece aquilo que estamos querendo demonstrar, como se vê pelas partes reproduzidas abaixo.

(Nota - Todas as transcrições da Instrução "Memoriale Dómini" que se seguem foram tiradas de artigos de Gustavo Corção, publicados em sua coluna no jornal "O Globo" dos dias 19, 21 e 26 de junho de 1975. Os destaques são, no entanto, todos do autor deste ensaio).

1) Os grandes cuidados que a Santa Igreja sempre teve com relação à Santa Eucaristia.

"As prescrições da Igreja e os textos dos Santos Padres atestam abundantemente o profundíssimo respeito e as grandes precauções que cercavam a Santa Eucaristia. Assim, "que ninguém (...) coma esta Carne se antes a não adorou"; e a quem a come se dirige esta advertência: "...recebe com cuidado de nada perder. É em verdade o Corpo de Cristo".

2) Que sempre foi assegurado o respeito que é devido ao Corpo do Senhor.

"Assim, a função de levar a Santa Eucaristia aos ausentes não tardou a ser exclusivamente confiada aos ministros sagrados, a fim de melhor assegurar o respeito devido ao Corpo de Cristo e também de melhor atender às necessidades dos fiéis".

3) Que o aprofundamento da verdade do mistério eucarístico arraigou o costume de dar a comunhão na língua do comungante.

"Com o tempo, quando a verdade e a eficácia do mistério eucarístico, assim como a presença real do Cristo foram mais aprofundadas, tornou-se mais consciente o respeito devido a esse Santíssimo Sacramento e a humildade com a qual deve ser recebido, estabelecendo-se então o costume pelo qual deveria o próprio ministro colocar a partícula consagrada na língua do comungante".

4) Que a "comunhão na boca" deve ser mantida.
 
"Levando em conta a situação atual da Igreja no mundo inteiro, esta maneira de distribuir a santa comunhão deve ser conservada, não somente em razão de sua multissecular tradição, mas principalmente porque exprime o respeito dos fiéis em relação à Eucaristia. Este uso, aliás, em nada fere a dignidade pessoal de quem recebe tão alto sacramento, ao contrário favorece a preparação exigida para que o Corpo de Deus seja recebido de maneira frutuosa".
 
Mas, então, por que um grande número de sacerdotes se nega a dar a comunhão da maneira que, como diz a própria “Memoriale Dómini”, dá mais frutos? Por que querem tornar obrigatória a "comunhão na mão"?
Continuamos, abaixo, com a "Memoriale Dómini".

5) Que a "comunhão na boca" é a maneira tradicional de comungar, que assegura o respeito, o decoro e a dignidade que devem cercar o Corpo do Senhor.

"Esse respeito bem exprime que não se trata de «um pão e uma bebida comuns», mas do Corpo e do Sangue do Senhor, pelo qual o povo de Deus participa dos bens do sacrifício pessoal, re-atualiza a Nova Aliança uma vez por todas selada por Deus com os homens no Sangue de Cristo e na fé e esperança prefigura e antecipa o banquete escatológico no Reino do Pai".
"Além disso, essa maneira de fazer, que já deve ser considerada como tradicional, assegura mais eficazmente o respeito, o decoro e a dignidade com que convém distribuir a Santa Comunhão,...".

6) Que a "comunhão na boca" evita as profanações.

"(com que convém distribuir a Santa Comunhão), garante também o afastamento de qualquer perigo de profanação das espécies eucarísticas, nas quais, ‘de um modo único o Cristo total e inteiro, Deus e homem, se acha presente substancialmente e permanentemente’; e enfim, essa maneira de ministrar o sacramento assegurava (este verbo no passado é uma antecipação do que vem mais adiante8) a cuidadosa atenção relativa aos fragmentos sagrados como a Igreja sempre recomendou: ‘considera o que deixaste cair como parte de teus membros que assim te falarão’".

Este final não é um reconhecimento de que a "comunhão na mão" não protege adequadamente as partículas sagradas?
Além disso, como diz Gustavo Corção, já vemos que a Santa Sé parece ter "a firme intenção de reafirmar o desejo de cercar a Santa Eucaristia de todas as garantias e respeitos assegurados pela tradição e não pode ver com simpatias as poucas Conferências Episcopais (ver 7, a seguir) que solicitavam a adoção do rito da ‘comunhão na mão’". Era ainda de se esperar que a Santa Sé fosse contra os abusos que estavam sendo cometidos, pois já estava sendo praticado um rito antes de ter sido obtida a necessária permissão para fazê-lo.
Voltemos, porém, à "Memoriali Dómini".

7) Que a "comunhão na mão" foi pedida por uns poucos e que todos os bispos foram consultados, apesar dos perigos previsíveis, sobre a alteração da verdadeira doutrina.

"Por isso9, diante do pedido formulado por um pequeno número de Conferências Episcopais e certos bispos a título individual para que nos seus territórios fosse permitido o uso da comunhão na mão, o Soberano Pontífice decidiu consultar todos os bispos da Igreja latina sobre o que pensam da oportunidade de introduzir esse rito. Com efeito, mudanças introduzidas em matéria tão grave, que se prende à tradição tão antiga e venerável, não somente tocam a disciplina, mas também podem acarretar perigos que, como todos tememos, nasceriam eventualmente desse novo modo de distribuir a santa comunhão, isto é, um respeito menor pelo augusto sacramento do altar, uma profanação desse sacramento ou ainda uma alteração da verdadeira doutrina (sic)".

"Por que, então, pergunta Gustavo Corção, diante de tão evidente desaconselhável alteração pedida por um pequeno número de CNBB's e não justificada por nenhum motivo plausível, a não ser o de contrariar e romper e contrariar a tradição? Não entendemos o acatamento que pode merecer tão insólito pedido depois de tudo o que sabemos e do que acabamos de ler. E quando lemos no próprio documento que os pouco numerosos solicitantes já praticam sem licença aquilo para o que solicitam permissão [ver 9, adiante], ainda menos entendemos o redobrado acatamento que leva o Soberano Pontífice a consultar os bispos do mundo inteiro. Não terão os redatores de tal Instrução da Congregação para o Culto Divino percebido que a insistência de tão desproporcionada consulta viria diminuir a autoridade da secular tradição, a autoridade do Concílio de Trento, do Vaticano I e do Vaticano II, e finalmente a augusta autoridade do sucessor de Pedro - tudo isso para atender a umas poucas agremiações de duvidosíssima catolicidade? Temos a penosa impressão, conclui Corção, de que alguém em Roma tem a esperança de obter um resultado contrário ao que este próprio documento insistentemente ensina".

8) Que o resultado da consulta universal mostrou que a grande maioria dos bispos foi contra a "comunhão na mão", como está dito na própria "Memoriale Dómini".

"Essas respostas mostram, então, que uma forte maioria dos bispos acham que nada deve ser mudado na disciplina atual; e que, tal mudança ofenderia o sentimento e a delicadeza espiritual desses bispos e de numerosos fiéis."
"Assim sendo e levando em conta as observações e conselhos daqueles que ‘o Espírito Santo constituiu administradores para governar’ as Igrejas (Cf. At.20,28), em vista da gravidade do assunto e do valor dos argumentos invocados, o Soberano Pontífice não pensou dever mudar a maneira tradicional de distribuir a santa comunhão aos fiéis."

"Por isso a Santa Sé exorta vivamente os bispos, os padres e os fiéis a respeitar atentamente a lei de sempre que permanece em vigor e que se acha confirmada novamente levando em conta tanto o julgamento emitido pela maioria do episcopado católico, quanto a forma utilizada atualmente na santa liturgia e enfim o bem comum da Igreja."

9) Que, porém, surpreendentemente, a Santa Sé — depois de ter concluído que o respeito ao Santíssimo Sacramento e o bem comum da Igreja exigiam vigorosamente a manutenção do rito tradicional depois do resultado da consulta formulada a todos os bispos e apesar de ter Paulo VI dito que não pensava dever mudar a maneira tradicional de distribuir a comunhão — a Santa Sé (repetimos) autorizou o uso da "comunhão na mão" nos lugares onde tal prática já havia sido introduzida.

"Mas nos lugares onde já foi introduzido um costume diferente - o de depositar a santa comunhão na mão - a Santa Sé, a fim de ajudar as Conferências Episcopais a desempenhar sua tarefa pastoral, tornadas tantas vezes mais difícil nas atuais circunstâncias, confia a essas mesmas Conferências o encargo e o dever de pesar com cuidado as circunstâncias particulares que poderiam existir, sob a condição, no entanto, de afastar qualquer risco de falta de respeito ou de opiniões falsas que poderiam se insinuar nos espíritos em relação à Santíssima Eucaristia e evitar cuidadosamente todos os outros inconvenientes."
.........
"A Santa Sé examinará cada caso atentamente, levando em conta os vínculos existentes entre as diferentes igrejas locais, assim como entre cada uma delas e a Igreja universal a fim de promover o bem comum e a edificação comum para que o exemplo mútuo aumente a fé e a piedade."
Desnecessário será, talvez, dizer que, a partir daí (antes mesmo da entrada em vigor da Nova Missa), este novo procedimento tornou-se universal, utilizado tanto pelas dioceses que já usavam o rito da "comunhão na mão" como também pelas que não o empregavam e, mais ainda, muitos celebrantes se recusam a dar a comunhão segundo a maneira tradicional, tornando assim obrigatório o novo costume, apesar do mesmo permitir a ocorrência de profanações e sacrilégios.

10) Que os bispos, inclusive os que foram contra a "comunhão na mão", tomaram conhecimento da "Memoriale Dómini" por intermédio das Conferências Episcopais.

"Esta instrução redigida por mandato especial do Sumo Pontífice Paulo VI foi aprovada por ele mesmo em virtude de sua autoridade apostólica em 28 de maio de 1969 e ele decidiu que a mesma seja levada ao conhecimento dos bispos por intermédio dos presidentes das Conferências Episcopais. Revogadas todas as disposições em contrário."

Assim sendo, em junho de 1969, logo depois de aprovada a "Memorile Dómini", por carta dirigida ao presidente da Conferência Episcopal da França, a Congregação para o Culto Divino autorizava a "comunhão na mão", naquele país, a discrição de cada bispo.

X - Conclusões

Monsenhor Bugnini10, responsável pela reforma litúrgica e pela Nova Missa, estava implantando rapidamente a "comunhão na mão".
Não diz a "Memoriale Dómini" que "o próprio ministro deve colocar a partícula consagrada na língua do comungante"? que "esta maneira de distribuir a santa comunhão deve ser conservada"? que esta é "a lei de sempre que permanece em vigor"?
Via de regra, não é isto o que se vê.
A comunhão na boca é a maneira de distribuir a comunhão que deve ser preservada, como reconheceu a própria "Memoriale Dómini", mas, na prática, a comunhão é, hoje em dia, em quase toda parte e em quase todos os casos, nas Missas ou fora delas, recebida de pé e na mão. Em 1961, o monge progressista Dom Adrien Nocent, na obra em que defendia a implantação de uma nova liturgia, já pedia a adoção desse rito. Paulo VI "não pensou dever mudar a maneira tradicional" de distribuir a santa comunhão, porém, por mandato especial dele, o maçon Monsenhor Bugnini o fez com a ajuda das Conferências Episcopais.
O uso da "comunhão na mão", como diz Gustavo Corção, "hoje mais do que nunca expõe o Santíssimo Sacramento da Eucaristia a inimagináveis profanações, que aliás parecem ser o objetivo, muito logicamente, desejado pelas entidades que querem destruir a Igreja e transformar o Cristianismo num Humanismo, que depressa se tornará desumano e infra-humano”.
Existe, ainda, uma outra razão que também contribuiu para que fosse mudada a maneira tradicional de distribuir a santa comunhão: um desejado falso ecumenismo. Se a Eucaristia é um símbolo materializando a simples lembrança de um acontecimento passado (como querem os protestantes) é inteiramente lógico que haja pouca preocupação com as migalhas que inclusive podem cair no chão (e serem pisadas). Mas se se trata da presença do próprio Deus, de nosso Criador, como o quer a fé da Igreja, como compreender que se admita uma tal prática e até que se a encoraje? A idéia que se esforça por inculcar, assim, com tal procedimento, é uma idéia protestante, contra a qual se rebelam os católicos ainda não contaminados. Para melhor impô-la, os fiéis são obrigados a comungar de pé.
Tanto faz se o que acarretou a mudança da maneira tradicional de comungar foram as atividades maçônicas ou o desejo de implantar uma outra religião, humanista ou protestante, porque o resultado desejado é o mesmo: a destruição da Igreja Católica Tradicional. E é uma destruição realizada dentro da própria Igreja, pois o que se verifica "é a existência de uma Outra Igreja que, com grande parte do clero da Igreja Católica, quer destruí-la em nome da evolução", como bem disse Gustavo Corção.
Os católicos passaram a comungar o Corpo do Senhor de pé e na mão e, conseqüentemente, a devoção para com o Santíssimo Sacramento é afetada. Além da falta de respeito, quando uma patena é utilizada, mesmo se as comunhões são pouco numerosas, nela ficam sempre partículas (as "pérolas"). Por conseguinte, estas partículas ficam agora nas mãos dos fiéis. E ninguém se importa mais. O respeito ao Corpo do Senhor diminui, a fé se abala.

A "comunhão de pé e na mão" é uma manifestação pública de falta de fé na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. "O pão, que Eu darei, é a minha carne, para a vida do mundo" (Jo.6,51), e, por causa da dureza desta linguagem, muitos discípulos, então, na Galiléia, se afastaram de Jesus "e já não andavam mais com Ele" (Jo.6,66); já não eram mais discípulos. Aqueles que, hoje, não reconhecem o Senhor na Hóstia consagrada já estão, também, afastados de Jesus e já não são mais católicos.


NOTAS: 

1) Frei Boaventura Kloppenburg - "Compêndio do Vaticano II" - 1983 - Editora Vozes – Petrópolis – pag. 11 e 12.

2) Essa Constituição diz que devem ser “salvarguardados os princípios dogmáticos estabelecidos pelo Concílio de Trento”, mas a seguir especifica os casos em que fica autorizada a “Comunhão sob as duas espécies” [Cap. II - O Sacrossanto Mistério da Eucaristia, nº 612, página 612 da obra citada na nota de rodapé nº 1]. Na prática, a abertura limitada da Constituição em pauta abriu as portas para inúmeros abusos.

Os princípios do Concílio de Trento foram estabelecidos na Sessão XXI, de 16-07-1562 – Doutrina da comunhão sob ambas as espécies e das crianças - capítulos 1 a 4, cânones 1 a 3.

3) Sessão XIII, de 11-10-1551 – Decreto sobre a Santíssima Eucaristia – capítulo 3, cânon 3.

4)  Padre Pierre le Brun - "Explication de la Messe" – 1716 e re-editado em 1949 por Les Editons du CERF – Paris - página 421.

5) Discípulos de Ário. A heresia desse clérigo da Igreja teve início no século IV e é conhecida como “Arianismo”

6) Ecumênico está aqui empregado no sentido tradicional de “universalidade” ou de “catolicidade”, o qual era o único sentido existente na Igreja para “ecumenismo” (até o Vaticano II).

7) Louis Salleron - "La Nueva Misa" - 1978 - Editorial Iction – páginas 150, 151 e 156.

8) Esta observação entre parênteses é do autor deste ensaio.

9) Em lugar desse “Por isso”, caberia melhor um “Porém”, pois nada do que foi dito antes justifica o que se segue.

10) Monsenhor Annibal Bugnini foi destituído de sua função de Secretário da Congregação do Culto Divino, em 1976, quando se tornou evidente que era membro da franco maçonaria, mas, quando ele foi enfim afastado, o mal já estava consumado.