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7 de junho de 2011

A voz da Igreja e o “rito ordinário”

 
‘‘O motu próprio constitui só o começo deste novo movimento litúrgico. Bento XVI, de fato, sabe bem que a longo prazo, não poderemos ficar numa coexistência entre a forma ordinária e a extraordinária do rito romano, mas a Igreja terá novamente necessidade no futuro dum rito comum’’
+Cardeal Kurt Koch  17-05-2011

Nosso Senhor conduz as almas para o céu como o pastor conduz as ovelhas a um campo de boas ervas. E neste conduzir as ovelhas, é necessário que o pastor fale e que as ovelhas ouçam a sua voz. Nem uma nem outra pode falhar. É na sua Igreja e através Dela que Jesus Cristo fala e elas O seguem. Elas nunca seguiram outro pastor porque conhecem a sua voz, mas do desconhecido, fogem. Nos dois artigos precedentes assinalamos dois pontos centrais dessa nova teologia chamada ‘Mistério Pascal’:

  • o novo conceito de pecado (art. 1)
  • o novo sentido de memorial (art. 2)

Não queremos ser repetitivos, mas o leitor deve avaliar bem o peso das palavras quando dizemos: esta teologia não pertence ao depósito da Revelação. Isto significa nem mais nem menos que não é Nosso Senhor que fala para as ovelhas, mas outro. Vamos fazer uma pequena trajetória através do missal do “rito ordinário” e do breviário que lhe é correlativo, e ao mesmo tempo iremos colocando ao lado as orações com que sempre a esposa de Nosso Senhor fez rezar seus filhos. Depois desta breve e incompleta relação, iremos dirigir uma pergunta à ovelha.

Mas, antes de começar, gostaríamos de nos antecipar sobre uma dúvida ou perplexidade que poderão ter aqueles que ainda não entraram bem neste sistema de pensamento heterodoxo que é o mistério pascal, sobretudo ao compararem as orações: é verdade que nas orações do novo missal não achamos heresias ou erros evidentes que o possam desacreditar de imediato, mas o mecanismo do mistério pascal, assim como o do modernismo, não é ser herético a priori, senão conduzir a uma certa direção (a da heresia). Assim como ninguém morre de AIDS, senão que o enfermo tem diminuídas as defesas corporais, assim o mistério pascal amolece o católico, de tal sorte que depois já não conseguirá fazer frente aos menores adversários.

Feita esta pequena introdução, vamos à comparação:

De - Para
(Breviario Romano)           Hino de Cristo Rei               (Liturgia das horas)
…uma turma criminosa grita: não queremos que Cristo reine…
…os reis das nações te tributem públicos honores, vos sirvam os mestres e juízes e as leis e artes expressem esta Fé…
… resplandeçam as bandeiras dos reinos a ti dedicadas, e submete a teu manso cetro as famílias e os cidadãos…
…multidões reverentes, no céu, vos adoram e cantam louvores…
VERSO SUPRIMIDO
VERSO SUPRIMIDO
Missal Tridentino
Missal Novo
( 1 de julho)                         Preciosíssimo Sangue                  (missa votiva)
A Igreja consagrara especialmente a festa do Preciosíssimo Sangue (instituída por Pio IX, e depois elevada à categoria de primeira classe em 1933) à profissão destas verdades relativas à Redenção. Por sua carta apostólica Inde a primis, que data de 1960, o Papa João XXIII fomentou esta devoção e recomendou a reza das ladainhas do Preciosíssimo Sangue durante todo o mês de julho. Em 1969 esta festa desaparecia do calendário litúrgico reformado. Depois de muitas reclamações, tornou-se a introduzir uma missa votiva, ainda que não sem mudanças muito significativas.
Oração
Omnipotente e sempiterno Deus, que constituístes o Vosso Unigênito Filho Redentor do mundo, e quisestes aplacar-Vos com o seu Sangue [...], preço da nossa salvação”
Oração
“Senhor, que pelo Preciosíssimo Sangue do vosso Filho redimistes todos os homens, conservai em nós a obra do vosso amor, para que, recordando sempre o mistério da nossa salvação, possamos alcançar os seus frutos”
Quinta Feira Santa e Corpus Christi
S. Paulo aos coríntios: “Portanto, todo aquele que comer deste Pão ou beber o Cálice do Senhor indignamente, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Examine-se por isso cada um a si mesmo antes de comer este Pão e de beber este Cálice, porque todo aquele que o come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação por não distinguir o corpo do senhor”Suprimiram-se no novo missal as graves admoestações de São Paulo, recordadas na Quinta-feira Santa e na festa de Corpus Christi no missal tradicional
(27 de maio)                 Santo Agostinho de Cantorbery       
(27 de maio)
(falando dos hereges anglicanos)…concedei-nos que pela sua intervenção, os corações dos que erram voltem à unidade da verdade……concedei que os frutos de seu trabalho permaneçam na vossa Igreja com perene fecundidade…
(27 de abril)                              São Pedro Canísio                         (21 de dezembro)
…concedei propício que os que erram voltem à saúde e os fiéis perseverem na confissão da verdade……concedei a todos os que vos procuram a graça de vos encontrar, e aos que creem vós a perseverança na fé…
(8 de fevereiro)   São João de Mata
“Fizestes, Senhor, de São João de Mata o providencial fundador da ordem dos Trinitários para o resgate dos cristãos escravos dos sarracenos…”Não deu para reformá-la. Suprimida completamente.
(28 de março)                 São João de Capistrano   (23 de outubro)
Ó Deus, que por meio de São João concedestes aos vossos fiéis a graça de triunfar sobre os inimigos da Cruz em virtude do santíssimo nome de Jesus, concedei também a nós que, por sua intercessão, vençamos as insídias de nossos inimigos espirituais e mereçamos receber de vós a coroa da justiça.Ó Deus, que suscitastes o presbítero São João de Capistrano para confortar o povo cristão aflito, colocai-nos sob a vossa proteção e guardai a vossa Igreja em constante paz.
( 5 de maio)                               São Pio  V             (30 de abril)
Ó Deus, que para aplastar os inimigos de vossa Igreja e para restaurar o culto divino vos dignastes colocar no Sumo Pontificado vosso servo S. Pio; fazei que, protegidos por ele e fiéis a vossos mandamentos, possamos triunfar dos ataques de todos os nossos inimigos e gozar de perene tranquilidade.Ó Deus, que suscitastes na Igreja o papa são Pio V, para defender a fé e restaurar a liturgia, concedei-nos, por sua intercessão, participar dos vossos mistérios com fé ardente e fecunda caridade.
LITURGIA DE DEFUNTOS
Sequencia: Dies irae, dies ira…..Desaparecida
Penas do purgatório: …locum refrigerii…Desaparecidas
Trato: “Livrai, Senhor as almas de…..Desaparecido
Ofertório: …livrai as almas da pena do inferno…Desaparecido


Da liturgia dos defuntos ao ordinário da missa, das orações às leituras bíblicas, tudo o que, até indiretamente, podia referir-se à pena devida pelo pecado, foi diminuído, ou até suprimido, pela reforma litúrgica. Neste sentido, a dimensão propiciatória desapareceu do novo missal. Este fato não é mais que a conclusão lógica do que estabelecemos anteriormente: se se considera a missa em primeiro lugar como memorial, mais que como sacrifício,  está claro que a finalidade propiciatória do sacrifício, tão energicamente recordada pelo Concílio de Trento, não podia senão ser deixada de lado em benefício do louvor de ação de graças. A leitura da Institutio Generalis Missalis Romani não deixa nenhuma dúvida quanto a este tema: a dimensão propiciatória jamais se menciona, ao passo que a finalidade eucarística aparece muitas vezes (nº 2, 7, 48, 54, 55, 62, 259, 335 e 339). Ademais, forjou-se um novo vocabulário em torno dessa inversão de valores: falar-se-á de “celebração eucarística” (nº 4, 5, 6, 24, 43, 48, 56, 59, 60, 66, 101, 253, 260, 280, 282, 283 e 284), de “liturgia eucarística”, de “Oração Eucarística”, expressões onipresentes, ao passo que a palavra “missa” é apagada, sem falar na expressão “sacrifício da missa”, convertida em algo obsoleto.

Um outro detalhe (não é um detalhe na verdade) é a total falta de alusão ao combate contra os inimigos da vida espiritual, levando o católico a esquecer destes inimigos, bem mais perigosos que um Saddam ou Osama (e bem mais reais, também).

  • Conclusão

Aparece, assim, uma nova concepção da missa, que não se vive como uma aplicação da Redenção, mas antes como uma liturgia dos que já estão salvos — a do “povo redimido” (Memento da Oração Eucarística III). Em lugar de aplicar, pela mediação do celebrante que obra in persona Christi, as satisfações e os méritos que Cristo adquiriu em seu sacrifício redentor, é todo um povo — “a nação santa, o povo adquirido de Deus, o sacerdócio real” (IGMR 62) — que, na ação de graças, celebra uma Redenção já plenamente cumprida (IGMR 54).

Até aqui, uma colocação aleatória de vários exemplos. 

Agora vem a pergunta iniludível e que não podemos calar:

De quem é a voz da esquerda? E a da direita?

Já se ouve há muito falar que o Papa quer a reforma da reforma, e por isso as palavras do cardeal citadas no começo. Desde o ano de 1969 até agora existiram dois missais e duas missas, e não se mexeu diretamente no missal de 62, mas se fez um novo com aqueles elementos que acharam úteis do antigo, como confessa o então padre Annibale Bugnini numa linguagem próxima à blasfêmia no seu livro póstumo “A reforma da liturgia”.
Será que iremos ter no futuro o missal de 62 “bis”?
Será que agora teremos que perguntar: a qual missa o senhor assiste, 62 ou 62 “bis”?

Teremos o missal de 62 “bis” com a festa de São João Paulo II? Deixamos o leitor imaginar como seria a oração para este ‘‘santo’’.

Mas antes deles colocarem as mãos sobre o missal de 62 (que está em continuidade perfeita com o de 1570 de São Pio V) é bom lembrarmos uma coisa:

…e de esta última edição de Nosso Missal, decretamos que jamais nada seja acrescentado, tirado ou modificado, sob pena de Nossa indignação…mas se alguém ousasse tentá-lo, saiba que incorrerá na indignação do Deus onipotente e dos santos apóstolos Pedro e Paulo…. 

Esta é a voz do Pastor. Todos os outros que não entram pela porta são ladrões e assassinos que roubam e matam as ovelhas.


pelos Padres do Priorado Padre Anchieta

28 de abril de 2011

Boas recordações de D. Mayer

D. Antonio de Castro Mayer

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa


Conheci D. Mayer lá por volta de 1979, em São Paulo, na sede do conselho nacional da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Um amigo convidou-me para ir lá conhecê-lo a ele e ao Dr. Plínio Correa de Oliveira. Foi um encontro brevíssimo. Mas ficou-me uma boa impressão.
Passados alguns anos, um parente longínquo meu, o saudoso Dr. José Benedicto Pacheco Salles, convidou-me para ir à igreja de Santa Generosa, no bairro do Paraíso, assistir a uma missa de D. Mayer. Fiquei surpreso porque ele se recordou de mim e do encontro rápido que tínhamos tido. A partir de então, comecei a ter um contato assíduo com D. Mayer, que vinha com freqüência a São Paulo e se hospedava naquela paróquia regida por seu sobrinho, o cônego José Payne.


Era uma alegria assistir à sua missa celebrada em um altar tradicional situado no coro da igreja. Sempre se reunia um pequeno grupo de católicos da tradição, núcleo inicial desse movimento que se expandiu muito esses últimos anos em São Paulo.


Após a missa, diversas vezes fui convidado a tomar o café da manhã em sua companhia, porque queria pedir-lhe algum esclarecimento sobre minha vocação sacerdotal. Lembro-me de que ele me pediu que escrevesse uma carta  a um padre de Campos responsável pela vocações sacerdotais.
Em todas essas ocasiões D. Mayer sempre se mostrou um homem bem humorado, alegre e sereno.  Sua conversação não se limitava ao assunto que em geral predomina nas reuniões de católicos tradicionalistas, a crise na Igreja e no mundo contemporâneo. Ele nos brindava com suas memórias da antiga São Paulo dos tempos da República Velha.


D. Mayer era um sacerdote formado em uma época em que não só Igreja florescia sob o influxo da luta de São Pio X contra o modernismo, mas também  sociedade paulistana rejuvenescia espiritualmente por obra do grande arcebispo D. Duarte Leopoldo e Silva. As famílias católicas  tinham a sua disposição bons colégios católicos e paróquias bem dirigidas por padres sérios e vida espiritual sólida. E D. Mayer deu uma grande contribuição  para tal rejuvenescimento como professor de sociologia na Faculdade Sedes Sapientiae. Conheci uma senhora que foi sua aluna e me disse que grande professor tinha sido ele. A meu ver, foi o período áureo do catolicismo em São Paulo, e talvez em todo o Brasil. Com efeito, o Brasil crescia graças à cafeicultura, uma riqueza que propiciava industrialização e  a ascensão social de classes mais modestas dentro de uma sociedade marcada profundamente pelos valores católicos. Hoje o Brasil cresce e a sociedade desmorona!


Lembro-me de que uma vez D. Mayer emitiu sua opinião sobre a decadência da sociedade brasileira. Disse que a Proclamação da República tinha sido um golpe contra nossas raízes culturais católicas, mas que a Revolução de 1930, guindando ao poder Getúlio Vargas, tinha aberto as portas do Brasil para o populismo esquerdista e a luta de classes.


Depois, fui convidado a ir a Campos e cheguei a ficar hospedado em sua casa algumas vezes. Desse período ficou a melhor lembrança de um bispo muito pio. Quando falava das coisas de Deus, as expressões que lhe assomavam aos lábios, vindas do fundo do coração, eram sempre Deus Nosso Senhor, Maria Santíssima e nossa santa religião. Bem diferente da maneira como muitos, até padres, pronunciam o nome santo de Deus. Edificava-nos só por sua grande devoção a Nossa Senhora, mas também pela maneira como tratava os padres e como por esses era amado e reverenciado. Nos dias de hoje isso é coisa rara. Tornou-se comum, infelizmente, um relacionamento frio e cheio de desconfiança entre o ordinário e o presbitério. A hierarquia festeja o povo de Deus e despreza o clero.


Desde então comecei a ler seus artigos e cartas pastorais. Em seus escritos é digno de nota  tanto o seu rigor teológico, sua precisão de conceitos, quanto seu estilo castiço, sua linguagem elegante que lembra um Carlos de Laet, a quem ele muito admirava. Se hoje em dia no Brasil houvesse uma crítica literária idônea, D. Antonio de Castro Mayer certamente teria seu nome consagrado como um bom autor da literatura brasileira contemporânea. Não me consta que nenhum outro bispo tenha escrito tão bem como ele. Lia os artigos de D. Lucas Moreira Neves no jornal O Estado de São Paulo e, francamente, D. Mayer sempre me pareceu muito superior pelo conteúdo e pela forma. Se D. Pestana nos tivesse legado cartas pastorais, talvez pudesse ombrear com D. Mayer em nobreza de estilo e acuidade de espírito teológico. Infelizmente partiu desta terra deixando saudades dos seus belos sermões, mas privando-nos de uma obra de grande qualidade que poderia ter produzido. Realmente, foi uma pena, porque, se tivesse sido um articulista dos grandes jornais, como aqueles bispos que nos anos oitenta escreviam no Jornal do Brasil contra a teologia da libertação, sem dúvida D. Pestana se teria distinguido como o melhor deles pelo vigor e inteligência. Mas se tomou a resolução de nada escrever devia ter suas razões que não cabe discutir.
Como mencionei D. Pestana, aproveito para dizer que ele varias vezes elogiou D. Mayer como teólogo e professor de filosofia. Disse-me que D. Mayer tinha um método muito interessante para o ensino da sã filosofia: principiava suas lições  pela refutação dos erros de Kant, conduzindo assim seus alunos a compreender bem o realismo moderado de Santo Tomás de Aquino. D. Pestana demonstrou-me igualmente, em várias ocasiões, certa compreensão pela atitude tomada por D. Lefebvre e D. Mayer em 1988. Sem nunca ter dito abertamente que apoiava as consagrações episcopais,  disse-me que D. Lefebvre tinha com razão visto que as tratativas com o cardeal Ratzinger estavam fadadas ao fracasso devido à pressão contrária do episcopado progressista da Europa. E mostrou-me uma carta dirigida ao papa João Paulo II em que lhe dizia que a disposição do motu proprio Ecclesia Dei que pedia aos bispos que liberassem a missa de São Pio V para os católicos tradicionalistas significava na verdade entregá-los às feras.


Desejaria finalizar essas recordações dando meu testemunho sobre a participação de D. Mayer nas consagrações episcopais de Ecône em 1988. Acompanhei de perto o desenrolar dos acontecimentos de então e posso dizer que ele agiu com toda serenidade e convicção de que era a vontade de Deus. Após a consagração episcopal, houve um padre muito estranho e caviloso que o procurou para tentar achacar-lhe uma retratação. D. Mayer o repeliu com toda energia. Como ele mesmo disse, a excomunhão injusta não o deixava indiferente, porque, embora inválida, denotava o estado lamentável da parte humana da Igreja, que, por um lado, congraça no CONIC com as seitas e, por outro, rechaça seus próprios filhos.
Que Deus Nosso Senhor o recompense por sua luta juntamente com D. Lefebvre e D. Pestana, que, também, à sua maneira, conforme lhe permitiram as circunstâncias calamitosas da Igreja pós-conciliar, lutou contra os erros modernos. Três bispos fiéis, devotíssimos de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, que confiaram plenamente nas promessas de Maria Santíssima: Por fim, meu Imaculado coração triunfará.

Anápolis, 19 de abril de 2011.
Quarta-feira santa