10 de setembro de 2011

As Excelências da Mortificação


As Excelências da Mortificação

(Santo Afonso Maria de Ligório)



I. Da mortificação externa

§ I. Necessidade da mortificação externa


A mortificação externa consiste em se fazer e sofrer o que contraria os sentidos exteriores e em se privar daquilo que os lisonjeia. Enquanto ela é necessária para evitar o pecado, é de obrigação absoluta para cada cristão. Se se trata de coisas que licitamente se podem desfrutar, a mortificação não é obrigatória, mas é muito útil e meritória. Contudo, deve-se notar aqui que, para aqueles que tendem à perfeição, a mortificação nas coisas lícitas é absolutamente necessária.

Como pobres filhos de Adão, devemos lutar até a nossa morte, pois 'a carne deseja contra o espírito e o espírito contra a carne' (Gál 5, 17). É próprio dos animais seguir os seus sentidos, enquanto que aos anjos compete cumprir a Vontade de Deus; disso conclui um ilustre escritor que nos tornamos anjos, esforçando-nos por cumprir com a Vontade de Deus, e irracionais, se procuramos satisfazer os nossos sentidos. Ou a alma subjuga o corpo, ou o corpo escraviza a alma.

Em vista disso, devemos tratar o nosso corpo como um cavaleiro trata um cavalo bravio, puxando-lhe fortemente a rédea para que não o derrube, ou como o médico que, estando a tratar de um doente, prescreve remédios que lhe são desagradáveis e proíbe-lhe comidas e bebidas nocivas, que ele apetece. Sem dúvida alguma, seria cruel um médico que permitisse ao doente deixar os remédios prescritos por serem amargos e tomar outros, nocivos, por lhe agradarem. Quanto maior não é, pois, a crueldade de um homem sensual, que quer poupar a seu corpo todos os desgostos nesta vida, e expor, assim, sua alma e seu corpo, ao perigo de ter que sofrer por toda a eternidade penas imensamente maiores.

Esse falso amor, diz São Bernardo (Apol. ad Guil., c. 8), destrói o verdadeiro amor que devemos ter para com o nosso corpo; uma tal compaixão com o corpo é, antes, uma grande crueldade, porque, poupando-se o corpo, mata-se a alma. O mesmo Santo dirige aos mundanos, que zombam dos servos de Deus por mortificarem sua carne, as seguintes palavras: 'Somos em verdade cruéis para com o nosso corpo, afligindo-o com penitências; porém, mais cruéis sois vós contra o vosso, satisfazendo a seus apetites nesta vida, pois assim o condenais juntamente com vossa alma a padecer infinitamente mais na eternidade'.

Se queremos, portanto, agradar a Deus e alcançar a salvação, devemos corrigir nosso falso gosto: devemos achar satisfação naquilo que a carne detesta e desprezar aquilo que ela apetece. Isso significou Nosso Senhor Nosso Senhor a São Francisco de Assis, dizendo-lhe: 'Se me desejas ter junto de ti, deves ter como amargo o que é doce e como doce o que é amargo'. Não venhas com a objeção que alguns costumam fazer, dizendo que a perfeição não consiste na mortificação do corpo, mas na mortificação da vontade. A isso responde o padre Pinamonti: 'Se uma videira não dá fruto [simplesmente] por estar protegida com uma cerca de espinhos, contudo a cerca protege os frutos', pois 'onde não há uma cerca, será roubada a feitoria', diz o Sábio (Ecli 36, 27).

São Luís Gonzaga era de saúde muito melindrosa. Apesar disso, era tão assíduo em crucificar o corpo, que não buscava outra coisa senão mortificação e penitências; e como lhe dissessem uma vez que a santidade não consiste nessas coisas, mas na abnegação de sua vontade própria, respondeu mui sabiamente com as palavras do Evangelho: 'Deveis fazer isso e não deixar aquilo' (Mt 23, 23). Com isso queria dizer que, ainda que seja necessário mortificar sua vontade, não se deve deixar de mortificar o corpo, para refreá-lo e submetê-lo à razão. Dizia o Apóstolo: 'Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão' (I Cor 9, 27). Sem a mortificação da carne, é difícil submetê-la à Lei de Deus.

O mundo e o demônio, são, em verdade, grandes inimigos da nossa salvação; contudo, o maior de todos é o nosso corpo, porque ele mora conosco. 'O inimigo que mais nos prejudica é aquele que mora conosco em casa', diz S. Bernardo (Med., c. 13). Oa mais perigosos inimigos de uma fortaleza sitiada são aqueles que se acham no seu interior, pois é muito mais difícil se defender contra estes que contra os que estão fora.

Assim como os mundanos só cuidam em lisonjear seu corpo com prazeres sensuais, as almas que amam a Deus só procuram mortificar a sua carne tanto quanto possível. São Pedro de Alcântara assim fala a seu corpo: 'Fica certo de que nesta vida não te deixarei descansar; só tribulações serão tua partilha; mas quando estivermos no Céu, desfrutarás de uma paz que não terá mais fim'. Nesse mesmo espírito procedia Santa Maria Madalena de Pazzi que, pouco antes de sua morte, podia afirmar que não se lembrava de ter jamais encontrado alegria fora de Deus.

Leiamos a biografia dos Santos, consideremos suas penitências e envergonhemo-nos de ser tão medrosos e comedidos na mortificação de nossa carne.

Mas eu tenho uma saúde muito fraca, me dirás, e meu confessor me proibiu todas as penitências. Pois bem; em tal caso deves obedecer; mas ao menos aceita resignadamente todos os incômodos que teu estado corporal te ocasionar; suporta alegremente todas as penas que a mudança de frio e calor traz consigo. Se não podes mortificar teu corpo com penitências, ao menos renuncia de vez em quando a um prazer lícito. Quando São Francisco de Borja se achava na caça, fechava os olhos no momento em que o falcão se apoderava de sua presa, para se privar do prazer que essa vista lhe causava. S. Luís Gonzaga também evitava olhar para as representações a que devia, às vezes assistir.

Por que não poderás também tu, alma cristã, praticar semelhantes mortificações? Se negares a teu corpo satisfações lícitas, não ousará reclamar ele outras ilícitas; se, porém, te entregares a todos os prazeres lícitos, te procurarás em breve deleitações ilícitas.

Um grande servo de Deus, o padre Vicente Carafa, da Companhia de Jesus, diz que Deus nos concedeu as alegrias deste mundo não só para que delas desfrutemos, mas também para que tenhamos ocasião de oferecer a Deus um sacrifício, privando-nos delas por Seu amor.

É verdade que algumas inocentes alegrias são mui próprias para auxiliar a nossa fraqueza humana e nos dispôr para os exercícios espirituais; contudo, deves estar persuadido de que os prazeres dos sentidos por si são venenos para a alma, porque eles a prendem às criaturas; por isso se deve gostar desses prazeres como se usa fazer quando se toma veneno. As plantas venenosas, quando devidamente misturadas e tomadas em pequena quantidade, são às vezes úteis à saúde do corpo; mas são sempre e permanecem veneno. É o que se dá com os prazeres mesmo lícitos.

Por essa razão, só com grande precaução e moderação é que se pode desfrutar deles sem apego, e só por necessidade, com a única intenção de se poder servir melhor a Deus.

Além disso, devemos tomar cuidado para que, com o esforço de preservarmos o nosso corpo de doenças, não deixemos desfalecer a nossa alma, que está sempre doente, não se mortificando a carne. 'As doenças do corpo me causam compaixão, diz São Bernardo (Ep. 315), porém, maior compaixão me causam as doenças da alma, que são mais perigosas e mais para temer'.

Oh! Quantas veszes um mal estar do corpo não nos serve de pretexto para nos concedermos certas liberalidades de que não temos nenhuma necessidade! 'Um dia deixamos deixamos a oração porque sentimos dor de cabeça, diz Santa Teresa d'Ávila (Cam. da perf. , c. 10), no outro dia porque a tivemos no anterior, e no terceiro dia para que não nos volte a dor de cabeça'.

9 de setembro de 2011

O novo rito da Missa: uma trágica necessidade de optar?


O novo rito da Missa: uma trágica necessidade de optar? 

Um leitor nos escreve:

«Revmo. Sr. Diretor:

Acabo de ler o último parágrafo do número do 30 de novembro passado [nº 109, de junho de 2002, para a edição portuguesa; p. 6] de seu quinzenário e me creio no grave dever de impugnar a sua afirmação segundo a qual não é obrigatório ouvir Missa quando não há meio de ir aos centros de Missa tradicional, pois, a meu juízo, ainda que a comida não nos seja servida devidamente, temos a obrigação ‘permanente’ de alimentar-nos (trata-se de uma comparação, de uma analogia...).

Quando a Santa Missa é válida, devemos assistir a ela (ainda que seja ilícita, sem importar no caso que o saibamos ou não). Isto a título de posição objetiva.

Haverá que examinar qualquer eventual posição subjetiva, em função de gravíssimos problemas pessoais.

A distinção que acabamos de fazer (posição objetiva - posição subjetiva) brilha por sua ausência no parágrafo que censuramos, o qual se limita a dar uma resposta à alma que a pede (quer dizer, o leitor cuja carta se transcreve), mas sem convidá-lo a discernir com habilidade as verdades de fé, até na mesma hora de ouvir uma Missa que não seja a dos ‘centros de Missa tradicional’.

A obrigação de ouvir Missa é capital na Igreja, até nos mesmos tempos ruins, ainda em meio de dificuldades objetivas e subjetivas.

A bênção!

Uma cordial saudação». 

Carta assinada

Outro leitor nos escreve também sobre o mesmo assunto:

«Sou um entusiasta de sua revista, gota preciosíssima de verdade neste pântano de mentiras. Mas, como é natural, há algumas coisas que não entendo... Em um dos últimos números, por exemplo, respondia-se a um leitor aconselhando-lhe que se instruísse nas coisas da religião, que fizesse obras de caridade e que rezasse nos dias de preceito se verdadeiramente não podia ouvir Missa segundo o rito católico romano tradicional.

Se entendi bem, pode-se passar o domingo sem ouvir Missa, o que constitui pecado, no meu entender: até a Missa celebrada pelo sacerdote mais indigno goza sempre de valor capital para o católico. Estarei enganado?»

Carta assinada

Uma questão “objetiva”

Comecemos esclarecendo algumas idéias sobre o preceito de ouvir Missa, porque hoje é mais necessário do que nunca ter idéias claríssimas para não sermos envolvidos pela tempestade neomodernista que açoita a Igreja.
«O preceito de escutar a Santa Missa — lemos no Dizionario di Teologia morale [Dicionário de Teologia Moral] do cardeal Roberti — exige que:

a) (...)

b) A Missa se deve escutar segundo o rito católico, já latino, já oriental (...). Causas escusatórias são: a impossibilidade física ou moral. Escusam, pois, da observância do preceito (...) o perigo de sofrer um grave dano material ou moral» (ed. Studium, verbete santificazione delle feste).

De igual modo, E. Jone, O.F.M. Capuchinhos:  

«Todo motivo medianamente grave escusa da obrigação de ouvir Missa, como o que se daria no caso de que a assistência à Missa provocasse um dano corporal ou espiritual para nós ou para outros» (Compendio di Teologia morale, ed. Marietti, 1955, nº 200).

Pode-se seguir qualificando de “católico” o novo rito da Santa Missa? 

Pode-se reputar tal, que não possa provocar nenhum “dano espiritual” para nós ou para outros? Estas são questões objetivas que suscita o Novus Ordo Missae, e às quais já respondemos com amplitude várias vezes, mas às quais responderemos aqui brevemente uma vez mais.

Notemos entretanto que:

1) a obrigação de ouvir Missa não é absoluta, razão por que cabe admitir causas isentivas;

2) carecem de relevância, no tocante ao assunto que nos ocupa, tanto os “problemas pessoais” de cada fiel quanto à “indignidade” pessoal do celebrante: do que se trata é o rito mesmo tal qual é em si, objetivamente;

3) não é certo em absoluto que, “quando a Santa Missa é válida, devemos assistir a ela (ainda que seja ilícita, sem importar no caso que o saibamos ou não)”. A Igreja vedou sempre, com efeito, a assistência às Missas válidas, mas ilícitas, dos ortodoxos cismáticos (cf. cânon 1.258 do código pio-beneditino). E o Santo Ofício afirmou em um decreto de 7 de agosto de 1704 que:
 
«o católico deve abster-se de assistir à Missa válida, mas ilícita, do sacerdote herético ou cismático, ainda que haja a obrigação de ouvir Missa por ser dia de preceito e tenha de ficar sem esta ao agir assim» (cf. Enciclopedia Cattolica, verbete comunicazione nelle cose sacre, col. 113).

Assim, pois, o certo é exatamente o contrário do que pensam os dois leitores cujas cartas reproduzimos supra: se eu sou “consciente” de que uma Missa é válida mas ilícita, não devo assistir a ela. O motivo da dita proibição da Igreja se baseia em que, no dito suposto, se esfuma a obrigação de ouvir Missa nos dias de preceito por ser contrária a uma «virtude que obriga mais» (Suárez, De legibus, VI, VIII, 1), a qual, no caso presente, não é outra senão a virtude da fé, que «entre as obrigações graves... é a maior do ponto de vista objetivo» (Enciclopedia Cattolica, verbete fede).

A obrigação fundamental da fé

É esta uma verdade que os fiéis devem ter hoje particularmente presente. 

E, a fim de que fique claro que não expomos opiniões pessoais, mas a doutrina da Igreja, citaremos amplamente a Enciclopedia Cattolica, verbete fede [verbete “fé”].

Que se entende por obrigação grave?  

«Na linguagem teológica, chamam-se deveres que constituem a essência da ordem moral, mediante cuja observância tende ou renuncia o homem substancialmente a seu fim último, tornando-se réu de pecado mortal neste último caso (...). Entre as obrigações graves, a de professar a fé é a maior do ponto de vista objetivo». 

O que significa que perder a fé é perder nosso fim último, pôr em perigo nossa vida eterna, e que todo atentado à nossa fé constitui um atentado à vida de nossa alma. Quando São Pio X escreve na Pascendi que o modernismo «meneia o machado à raiz», pretende dizer nem mais nem menos que é uma agressão mortal à fé.

«A fé é principio da salvação humana, o fundamento e raiz de toda a justificação», ensina o Concílio de Trento (Denzinger, n. 801). Nosso Senhor Jesus Cristo mostrou que professar a fé é uma obrigação fundamental que os homens têm de satisfazer para salvar-se: «Quem crer se salvará; mas quem não crer se condenará» (Mc. 16, 16); o Espírito Santo afirma pela boca de São Paulo que «sem fé é impossível agradar a Deus» (Heb. 11, 6), e pela boca de São Pedro e dos Apóstolos confirma que professar a fé é um dever que goza de primazia sobre qualquer outro (cf. Atos 10, 43; 15, 7).

Donde «o primeiro dever do católico e o mais importante é crer. A fé é a primeira coisa que Deus pede ao homem (Heb. 11, 6), é o primeiro passo do homem para Deus, e Este não permite retrocessos. A fé constitui a raiz da justificação, o princípio e a fonte de toda a vida espiritual, o fundamento indispensável de toda virtude, até da esperança e da caridade (Heb. 11, 1); da fé mana toda a vida sobrenatural (Gal. 3, 11). Por isso devemos estimar a fé mais que qualquer outra coisa» (P. M. Meschler, S.J., na Civiltà Cattolica, 1906, vol. 2º, p. 391).

O “pecado que inclui a todos os demais”

É um fato que o mero enfraquecimento da fé comporta, forçosamente, o enfraquecimento do homem, sem excluir o moral (pois se vê privado da razão mais forte para resistir ao mal e obrar o bem), ao passo que seu desaparecimento sela a ruína espiritual do indivíduo (e talvez também a eterna), para não falar do esfacelamento moral com que açoita os povos. 

Por isso diz Santo Agostinho, ao comentar Jo. 15, 22, que a carência de fé «é um pecado que inclui todos os demais», e Santo Tomás escreve por seu lado que «a fé é a primeira das virtudes» (Summa Theologiae, II-II, q. 4, a. 7) e que «a incredulidade é o maior de todos os pecados na ordem das virtudes morais» (S. Th., II-II, q. 10, a. 3); o que significa que os pecados contra a fé são «culpas maiores que o sacrilégio, o homicídio, o adultério, o furto, etc.», e que «todo zelo pela reforma cristã dos costumes é cego, vão, ruinoso se não aspira constantemente a salvaguardar ou reconstruir a fé, que goza por natureza de prioridade sobre todas as demais virtudes» (Enciclopedia Cattolica, verbete fede).

O dever fundamental de custodiar a própria fé

Assim, pois, da obrigação fundamental de professar a fé nasce o dever primordial de todo cristão de salvaguardá-la dos perigos que possam matá-la, ou ainda tão-só enfraquecê-la, em sua alma ou na daqueles que lhe estão confiados (filhos, cônjuges, fiéis etc.). Daí que entre os pecados contra a fé figurem igualmente — hoje é necessário tê-lo muito presente — «os pecados contra o dever de cultivar a fé e preservá-la dos perigos» (Enciclopedia Cattolica, verbete fede). Com efeito, «a perda da fé é muito amiúde o resultado mais ou menos direto de passos imprudentes e temerários. Por isso o direito [divino] natural veda ao crente que ponha em perigo sua fé. Pois bem, o maior perigo para a fé, e o mais imediato, se funda no contato com o erro oposto» (idem). Donde decorre a proibição de participar em um rito acatólico ainda quando a Missa seja válida; proibição formulada pela Igreja «aderindo-se estreitamente ao direito natural e ao espírito das normas apostólicas» (idem); a mesma Igreja, acrescentamos nós, jamais autorizou ninguém a conjeturar a existência, em si ou nos demais, da capacidade de “discernir com habilidade as verdades de fé” (capacidade que poderia faltar e que falta certamente na maioria).

Assim, pois, continuando com a comparação ou analogia de nosso primeiro leitor, há que dizer que, segundo a “mente” da Igreja, se o prato que me é servido está envenenado, ou o está a guarnição que tem de acompanhá-lo, sigo obrigado a nutrir-me, sim, mas não com semelhante comida.

Paróquia São Jorge - Santo André-SP

Uma comida envenenada

É sobremaneira triste, mas estes princípios estamos obrigados a aplicá-los hoje ao novo rito da Missa.
 
A esta altura, não deveria ser preciso demonstrar que o novo rito da Missa é um prato cuja guarnição está envenenada: comunhão na mão, homilias aberrantes, cânticos e melodias mais profanos que sagrados, “ministros extraordinários da Eucaristia” (quer dizer, seculares: homens e mulheres que, contrariamente à tradição constante da Igreja, distribuem a Comunhão, não raro enquanto o sacerdote está sentado), “animações litúrgicas dessacralizadoras”, iniciativas ecumênicas e até “intercâmbios de púlpito” com hereges e cismáticos etc. constituem objetivamente um perigo para a fé. Com o tempo, até o católico mais bem prevenido acaba por se “protestantizar” sem o perceber, porque, como diz Santo Agostinho, à força de ver de tudo, a gente se habitua a tudo e termina por justificar tudo.

Ademais, que o novo rito da Missa seja também um prato envenenado em si mesmo, e não só em sua guarnição, não somos nós quem o diz. 

Confessou-o Monsenhor Bugnini em L'Osservatore Romano de 19 de março de 1965, quando escreveu o seguinte para ilustrar o espírito da “reforma litúrgica”, então em preparação:  

«A oração da Igreja não deve ser motivo de mal-estar para ninguém»; 

Daí o propósito declarado de:
«remover toda pedra que pudesse provocar ainda que só fosse a sombra de um risco de tropeço e desgosto [quanta delicadeza!] a nossos irmãos separados». 

E para tal efeito chamaram seis hereges e cismáticos, para que cooperassem na elaboração do novo rito católico, os quais figuram na capa da Documentation Catholique de 3 de maio de 1970, posando com Paulo VI como conclusão dos trabalhos do Consilium para a reforma litúrgica. O Padre Antonelli, O.F.M., mais tarde cardeal, que havia trabalhado na reforma litúrgica da Semana Santa sob Pio XII, aterrado pelo aspecto “aberrante” que iam tomando diante de seus olhos os trabalhos do dito Consilium, anotava em seu diário:  

«Tenho a impressão de que se fizeram muitas concessões à mentalidade protestante, sobretudo em matéria de Sacramentos» (cf. Nicola Giampietro, O.F.M. Cap. Il cardinale Ferdinando Antonelli e gli sviluppi della riforma liturgica dal 1948 ao 1970 [O cardeal Fernando Antonelli e os desenvolvimentos da reforma litúrgica de 1948 a 1970], Roma: ed. Studia Anselmiana, p. 264; cf. também Sim Sim Não Não, n. 95, Março de 2001, edição portuguesa, pp. 10 a 12.: Uma preciosa contribuição à historia da “reforma litúrgica” de Paulo VI).

Missa Show do Pe. Manzotti em Iporã-PR

A “trágica necessidade de optar”

De fato, com o disfarce de uma falsa caridade para com os protestantes, e com agravo flagrante dos católicos, tiraram-se do novo rito da Missa, antes de tudo, as “pedras-de-tropeço” maiores, quer dizer, tudo o que pudesse parecer clara profissão de fé nos dogmas católicos rejeitados pela heresia luterana: transubstanciação, presença real, caráter sacrifical e propiciatório da Santa Missa, distinção entre sacerdotes e fiéis, e depois qualquer outra coisa que pudesse “desgostar” os protestantes, por pouco que fosse. 

Resultado? Denunciou-o a Paulo VI o Cardeal Ottaviani em seu devido tempo (o mesmo cardeal que só poucos meses antes se havia demitido do cargo de prefeito do Santo Ofício), e o fez em companhia do Cardeal Bacci, no Pentecostes de 1969, ainda que tal não tenha servido para nada:

«Beatíssimo Padre:

Uma vez examinado e mandado examinar o
Novus Ordo Missae preparado pelos especialistas do Consilium ad exequendam Constitutionem de Sacra Liturgia, e depois de muita reflexão e oração, julgamo-nos na obrigação, diante de Deus e de Vossa Santidade, de expressar as considerações seguintes:

1. Como o demonstra suficientemente, a despeito de sua brevidade, o exame crítico adjunto — obra de um seleto grupo de bispos, teólogos, liturgistas e pastores de almas —, o Novus Ordo Missae (...) se afasta de maneira impressionante, tanto em seu conjunto quanto em seus detalhes, da teologia católica da Santa Missa tal qual foi formulada na sessão XXII do Concílio tridentino, o qual, ao fixar definitivamente os ‘cânones’ do rito, erigiu uma barreira infranqueável contra qualquer heresia que atacasse a integridade do mistério».

Escreveram também, à guisa de conclusão do Breve Exame Crítico:  

«É evidente que o Novus Ordo Missae já não pretende representar a ‘fé tridentina’. A esta fé, contudo, a consciência católica se acha atada para sempre. Assim, pois, a promulgação do Novus Ordo coloca o católico verdadeiro, seja qual for sua condição e função, na trágica necessidade de optar».

(E quão “trágica” é a dita “necessidade de optar” provam-no igualmente as cartas de nossos dois leitores).

Por trágica que seja, porém, impõe-se a opção:

a) pelo fato de que o novo rito, ao já não ser católico, senão estar “protestantizado” (até ao ponto de algumas comunidades luteranas o considerarem utilizável para suas “ceias”), constitui um perigo real para a fé;

b) porque «os erros contra a fé não só se insinuam mas se impõem mediante abusos e aberrações litúrgicas» (Breve Exame Crítico, cit.).

Por fim, as iniciativas ecumênicas, cada vez mais audazes e executadas hoje tranqüilamente, não fizeram senão corroborar o que escrevemos no distante número 12 do ano VII de Sì Sì No No (edição italiana): 

«1) O preceito de ouvir Missa aos domingos e festas de guarda obriga a assistir à Missa enquanto ato supremo do culto público da Igreja, mas não obriga a participar em sua profanação.

2) O preceito da Igreja obriga a escutar a Santa Missa celebrada segundo o rito católico e ‘por um sacerdote católico’; não obriga a participar em uma ‘ceia’ protestante, talvez ‘presidida’ por algum repetidor dos heréticos teólogos transalpinos, negadores da divindade de Cristo, da presença real e de todas as verdades católicas relativas ao sacrifício da Missa.

3) Os preceitos da Igreja tendem principalmente ao bem de todos e cada um dos fiéis; por isso obrigam sempre que redundem em proveito das almas, mas nunca em seu detrimento. Se não obrigam no caso de que acarretem moléstias graves, ainda menos o farão se provocam dano espiritual».

Na fotografia estão com Paulo VI os seis pastores protestantes que ajudaram na fabricação da Missa Nova: Georges, Jasper, Sephard, Konneth, Smith, e Thurian.

“A Missa nova foi feita por uma comissão de que faziam parte seis pastores protestantes, e foi impregnada do espírito do Concílio Vaticano II, isto é, um espírito ecumênico de aceitação de todas as religiões, de adaptação ao mundo moderno. Pela mentalidade ecumênica, sobretudo para não chocar os protestantes, a Missa nova atenua (a Missa tradicional acentua) os principais dogmas incluídos na Santa Missa: Sacrifício propiciatório, Sacerdócio hierárquico, Presença Real e Transubstanciação.” (A missa nova em questão)

O âmbito “subjetivo”

Expusemos até agora os princípios objetivos que regulam a obrigação de ouvir Missa nos dias de preceito e os aplicamos, objetivamente sempre, ao novo rito da Missa. Ainda nos falta abordar o âmbito subjetivo, pessoal, que nosso primeiro leitor anula no âmbito objetivo quando escreve “que o saibamos ou não” (o mesmo leitor que nos censura em seguida o ter passado por alto a distinção objetivo/subjetivo). O âmbito subjetivo é o da responsabilidade pessoal, a qual se liga à consciência moral; por isso, aplicando a nosso caso a doutrina católica sobre a consciência, o problema se coloca e resolve assim:

1) quem tenha consciência certa e informada de que o novo rito da Missa não é católico, senão que está protestantizado e que por isso mesmo provoca o perigo de que a fé se debilite ou se perca, está obrigado a freqüentar, ainda que ao custo de grandes sacrifícios, os centros de Missa tradicional, e, caso não possa fazê-lo, está obrigado de qualquer modo a santificar a festa da maneira que indicamos ao leitor que nos perguntava sobre o assunto;

2) quem tenha dúvidas ou se ache perplexo sobre a bondade do novo rito da Missa deve informar-se para deixar de ter dúvidas, porque a ninguém nunca é lícito agir em estado de consciência duvidosa;

3) quem possua uma consciência vencivelmente errônea sobre este assunto há de corrigi-la, e, por conseguinte, o que possa instruí-lo e esclarecê-lo tem o dever de fazê-lo;

4) não falamos de quem tenha uma consciência invencivelmente errônea, porque este é incorrigível; daí que seja mister deixá-lo aos cuidados da Providência divina.

Depois de tudo isto, deveria estar claro por que nós não poderemos aconselhar jamais a assistência ao novo rito da Missa a quem tenha a menor dúvida sobre sua bondade: a obrigação de salvaguardar a fé goza de prioridade (ponto este que é preciso manter com muita firmeza nas atuais condições anormais). Tudo se funda em agir não com espírito de rebeldia, mas sim de fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Igreja, a qual tem de guardar-se muito, hoje mais que nunca, de se identificar com os eclesiásticos infiéis.

Valens

Fotos: Autor desconhecido. A fotografia que representa uma característica da missa nova foi tirada do site da "Paróquia São Jorge" e a do Pe. Manzotti do "portalnoticiasaltoalegre".

A contrição perfeita



A contrição perfeita

A contrição perfeita
uma chave de ouro do Céu


Aos fiéis oferecida por J. de Driesch
Sacerdote da Arquidiocese de Colônia

Com um prólogo pelo P. Agostinho Lehmkuhl, S.J.
Tradução para o português
Bahia
Tip. de S. Francisco
1913


NIHIL OBSTAT.
Fr. Benigno Randebrock, O.F.M.
Cens.
Dioc.
IMPRIMATUR.
Bahia, 11 de Março de 1913.
Mons. Castro,
Vigário Geral



Prólogo

Tanto pela importância da matéria, de certo bem pouco conhecida da maioria dos cristãos, como pela abundância de doutrina e o interesse com que ela é tratada no que diz respeito à sua utilidade prática, bem pode dizer-se que este livrinho encerra em suas poucas páginas o valor de muitos volumes

O grande meio de salvação chamou Santo Afonso Maria de Ligório a um livrinho que, entre muitos outros, compôs sobre a oração; e diz dele que queria vê-lo nas mãos de todos, por tratar de um meio tão principal e de tanta eficácia para assegurar o Céu às almas. Pois, com não menos verdade, ainda que em sentido algum tanto distinto, devemos dizer outro tanto da prática do amor e contrição perfeita, como sendo o grande meio de salvação, pois que está em conexão ainda mais imediata com a consecução da vida eterna do que somente a oração.

Por isso, queria eu, como Santo Afonso com o seu, ver este livrinho nas mãos de todos, persuadido de que a sua atenta leitura e a execução prática das doutrinas que nele se ensinam, abrirão as portas do céu a muitíssimas almas, para quem, sem ele, estariam eternamente cerradas, e de que hão de acrescentar de uma maneira inesperada o direito ao Céu e à eterna bem-aventurança a muitas outras que, pela guarda da graça santificante, já são credores dele.

Não devia haver cristão algum que não estivesse solidamente instruído sobre a transcendência que tem um ato de contrição e caridade perfeita, pois que é de incalculável importância tanto para a hora da morte própria como para a dos outros, a quem talvez tenha de assistir.

Assim, pois, ninguém deveria esquecer-se desta verdade em tempo de saúde; porém, para o tempo de enfermidade e de perigo sobretudo, é sumamente para desejar-se que a conheçam a fundo e profundamente a gravem na alma os que a têm esquecido ou só imperfeitamente a conhecem.

Oxalá, pois, se difunda o mais possível esta obrazinha, e não duvido de que a sua leitura será acompanhada de inumeráveis bênçãos do céu.

Pe. Agostinho Lehmkuhl, S.J.

Valkenburg, Colégio de Santo Inácio, outubro de 1903.


Introdução

Ao ver o título de Chave de ouro do Céu, parece-me, amado leitor, que estarás ansioso por ver se este livrinho corresponde por dentro ao que promete por fora. Mas, pode ser que te ocorram algumas suspeitas. Talvez que, nas práticas dominicais, o teu zeloso pároco te tenha prevenido contra certas folhas e publicações supersticiosas, contra as Chaves do Céu, os Ferrolhos do Inferno, as Orações maravilhosas autênticas e contra todas as mercadorias parecidas, chamem-lhe como quiserem.

"Porém, se este livrinho é o que deve e promete ser — dirás, de ti para ti — seria ditoso, teria uma chave do Céu, de que poderia muito bem aproveitar-me".
E verdadeiramente de ouro e digna, portanto, de todo o apreço deve ser a chave que este autor me apresenta reluzente diante dos olhos.

Se é de verdadeiro ouro, e não só de ouropel, estou feliz.

Sim, amado leitor, sólida e legítima é a chave e bem fácil de manejar por certo: é a contrição perfeita. Ela te abrirá, em cada dia e a cada momento, o Céu se o fechaste com o ferrolho do pecado mortal; e sobretudo se, no fim da tua vida, como pode suceder, não tiveres nem puderes ter a teu lado o sacerdote, que é o depositário das chaves da divina misericórdia, a contrição perfeita será a última e suprema chave com que, ajudado da graça de Deus, poderás franquear-te o Céu. Porém, para isso, é preciso que te acostumes a manejá-la em vida.

Pela contrição perfeita, estão salvas no Céu inumeráveis almas que, de outro modo, se teriam perdido para sempre. Já vês, pois, que é importante, e sumamente importante, o que te recomendo neste livrinho. Por isso, dizia o douto e piedoso cardeal Franzelin: "Se eu pudesse percorrer os campos pregando a palavra divina, nenhuma outra coisa pregaria com mais freqüência do que a contrição perfeita".

Mais adiante, no capítulo V, te direi como vim a escrever este livrinho e a percorrer assim os campos pregando a contrição perfeita. Deus Nosso Senhor, por seu amor e misericórdia, te assista com sua graça para que o compreendas, e, sobretudo, para que o pratiques, que é o que importa, conforme a sua doutrina.

Posto isto, começo em nome do Senhor.


I

Que é a contrição perfeita?


Contrição é uma dor da alma e uma detestação dos pecados cometidos. Deve acompanhá-la o propósito, quer dizer, uma firme vontade de emendar a vida e de não mais pecar. Para que a contrição seja legítima, deve ser interna e estar na alma, isto é‚ que não seja uma mera expressão feita com os lábios e sem reflexão: isto seria apenas contrição de boca.

Não é necessário manifestar exteriormente a contrição interna por meio de suspiros, lágrimas, etc.: tudo isto pode ser sinal de contrição, não é, porém, sua essência. A essência da contrição está na alma, na vontade, em afastar-se deveras do pecado e converter-se para Deus.

Além disto, a contrição deve ser geral, quer dizer, deve estender-se a todos os pecados cometidos ou, pelo menos, a todos os mortais. Deve, finalmente, ser sobrenatural e não meramente natural, pois esta nada aproveita.

Segue-se que a contrição, como todo o bem, deve proceder de Deus e da sua graça, e, com a graça de Deus, desenvolver-se na alma. Porém, não tenhas receio; basta que a peças, basta que tenhas boa vontade e te arrependas por algum motivo legítimo, sobrenatural, e Deus te dará a graça necessária.

Se o motivo se funda na natureza ou somente na razão (por exemplo, nos danos temporais, na vergonha, doença, etc.), é muito fácil que a dor seja puramente natural e sem mérito; porém, se o motivo da contrição é alguma verdade da Fé, por exemplo: o inferno, o purgatório, o céu, Deus, etc., então a contrição é legítima, sobrenatural.
E esta contrição legítima e sobrenatural pode, por sua vez, ser de duas classes: perfeita e imperfeita; e com isto temos chegado a nossa matéria da contrição perfeita.

Em poucas palavras, contrição perfeita é a contrição que procede de amor; imperfeita, a que procede do temor de Deus.

É contrição perfeita quando procede de amor perfeito a Deus. Pois bem, o nosso amor a Deus é perfeito quando o amamos porque Ele é em Si infinitamente perfeito, formoso e bom (amor de benevolência), e porque nos mostrou de uma maneira tão admirável o seu amor (amor de agradecimento).

É imperfeito o amor de Deus quando o amamos porque esperamos alguma coisa dEle. De modo que, com o amor imperfeito, pensamos sobretudo nos dons; com o perfeito, na bondade do dador; com o amor imperfeito, amamos mais os dons; com o perfeito amamos mais o dador, e isto não tanto pelos seus dons como pelo amor e bondade que nos dons se manifesta.

Do amor nasce a contrição. Será, pois, perfeita a contrição se nos arrependermos dos pecados por amor perfeito de Deus, quer seja de benevolência quer de agradecimento. Será imperfeita se nos arrependermos dos pecados por temor de Deus, porque pelo pecado perdemos a recompensa de Deus, o Céu, e merecemos seu castigo, o inferno ou o purgatório.

Na contrição imperfeita, fixamo-nos principalmente em nós e nas desgraças que, segundo a Fé nos ensina, nos acarretou o pecado. Na contrição perfeita, fixamo-nos sobretudo em Deus, na sua grandeza, na sua formosura, amor e bondade, vendo quanto o pecado O ofende, e que foi o pecado que Lhe ocasionou tantos sofrimentos e dores para nos redimir.

Na contrição perfeita, não queremos unicamente o nosso bem, senão o bem de Deus.

Com um exemplo o verás melhor. Quando São Pedro negou o Divino Salvador, saiu fora e "chorou amargamente" (I Lc 22,62). — Por que chora São Pedro? É, porventura, pensando na vergonha que vai ter diante dos outros apóstolos? Se assim fosse, a sua dor teria sido puramente natural e sem mérito. É porque receia que seu Divino Mestre lhe tire, como ele merece, o cargo de Apóstolo e Superior e o expulse do seu reino? Então seria boa contrição, mas somente imperfeita. Mas, não; Pedro arrepende-se e chora, antes de tudo, porque ofendeu a seu amado Mestre, tão bom, tão santo, tão digno de ser amado e por ser tão desagradecido ao seu imenso amor por ele. Tem, pois, verdadeira e perfeita contrição.

Agora dize-me: tens tu também, cristão de minha alma, algum fundamento, algum motivo, parecido com o de São Pedro, para te arrependeres dos teus pecados por amor, e por amor perfeito e agradecido? Sim, certamente, pois os benefícios que Deus te tem feito são mais que os cabelos da tua cabeça, e, considerando-os, podes dizer, em cada um deles, o que dizia São João: "Amemos a Deus já que Ele nos amou primeiro" (I Jo 4,19).

E como te amou?

"Com amor eterno te amei — disse Ele — e me compadeci de ti e te atrai a mim" (Jer 31,3).

Sim, com amor eterno te amou. Desde toda a eternidade, desde quando ainda não havia nem um átomo de ti sobre a terra, te olhou com aqueles seus olhos amorosos e que tudo penetram, e te preparou alma e corpo, céu e terra, com o amor com que uma mãe prepara todo o necessário para o filhinho que ainda não nasceu. Ele deu-te a saúde e a vida, Ele te deu e te dá, em cada dia, todos os bens naturais. Consideração esta que até aos pagãos pode fazê-los chegar ao conhecimento e amor perfeito de Deus; quanto mais a ti, cristão, que conheces outro gênero muito diferente de amor e de bondade, o amor e bondade sobrenatural de Deus para contigo; porque Deus se compadeceu de ti; e quando, com todo o gênero humano, estavas condenado pela culpa original, Deus enviou o seu Unigênito Filho, e Ele se fez teu Salvador e te remiu com seu sangue, morrendo na Cruz. E em ti pensava com entranhado amor quando agonizava no horto das Oliveiras, e quando derramava o seu sangue com os açoites e os espinhos, e quando subia arrastando a pesada Cruz pelo longo e áspero caminho do Calvário; e quando, cravado nela, se desfazia em sangue entre indizíveis tormentos. Em ti pensava com entranhado amor, como se tu foras o único homem da terra.

Que tens a concluir daqui? "Amemos a Deus já que Ele nos amou primeiro" (I Jo 4,19).

E Deus te atraiu a Ele pelo batismo, graça capital e primeira da tua vida, e pela Igreja, em cujo seio foste então admitido. Quantos há que, só a força de trabalhos e canseiras, conseguem encontrar a verdadeira Fé, e a ti te a ofereceu Deus desde o berço, por puro amor. Atraiu-te a Ele e te atrai sempre pelos sacramentos e pelas inumeráveis graças interiores e exteriores de que te enche todos os dias, pois, em verdade, estás nadando, como em imenso mar, na bondade e amor de Deus. E este amor, quer ainda coroá-lo colocando-te consigo no Céu e fazendo-te eternamente feliz. Que lhe deves por tanto amor? Não é verdade que deves corresponder a ele? Amemos também a Deus já que Ele nos amou primeiro.

Pois, vamos a contas e dize-me: Como tens pago a Deus, tão bom e amoroso, o seu amor e bondade para contigo? Dir-me-ás, sem dúvida, que com ingratidão e pecados. E pesa-te essa ingratidão? Sem dúvida que sim e queres ressarcir a tua pesada ingratidão, amando quanto possas tão grande e amoroso benfeitor. Pois, olha, se assim é, já tens contrição perfeita, contrição de amor de Deus. Para facilitar, chama-se a esta contrição de amor de Deus, contrição de amor ou de caridade.

Na mesma contrição de caridade, há uma mais levantada, que é quando alguém ama a Deus porque Ele é em si infinitamente formoso, glorioso, perfeito e digno de amor, prescindindo do seu amor e misericórdia para conosco. Há estrelas — e com esta comparação julgo que entenderás melhor — que, por estarem muito longe de nós, não as podemos distinguir, e, contudo, são tão grandes e formosas como o sol, que tão prodigamente nos dá o calor e a vida. Pois assim, ainda quando o homem não tivesse visto nem gozado nunca do amor de Deus, eterna estrela do céu, ainda quando Deus não tivesse criado o mundo nem criatura alguma, seria apesar disso grande, formoso, glorioso e digno de ser amado, porque é em si mesmo e para si, o bem mais excelente, o mais perfeito e digno de amor. Isto e não outra coisa quer dizer essa expressão que, mais de uma vez, terás encontrado nos devocionários e nas fórmulas do ato de contrição e te terá parecido talvez algum tanto obscura.

Detém-te, pois, agora e contempla o amor de Deus; contempla-o, sobretudo, nos amargos sofrimentos do Salvador, a cuja luz o compreenderás tão facilmente como facilmente te arrebatará o coração.

Eis aqui o modo de alcançar praticamente a contrição perfeita.

8 de setembro de 2011

Pe. Antônio Vieira: Sermão sobre o Juizo Final

O Juízo Final, D' Beato Fra Angelico (Galeria Nacional, Roma)

Sobre o Juizo Final



SERMÃO DO PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO



– Padre Antônio Vieira –

I

 “Abrasado finalmente o Mundo e reduzido a um mar de cinzas tudo o que o esquecimento deste dia edificou sobre a terra... (Dou princípio a este sermão sem princípio, porque já disse Quintiliano que as grandes ações não hão mister exórdio: elas per si mesmas, ou supõem a atencão ou conciliam. Também passo em silêncio a narração portentosa dos sinais que precederão ao juízo, porque esta parte do Evangelho pertence aos que hão-de ser vivos naquele tempo, e não a nós; e o dia de hoje é muito de tratar cada um só do que Ihe pertence). Abrasado, pois, o Moundo, e consumido pela violência do fogo o que a sabedoria dos homens e o esquecimento deste dia levantou e edificou na terra; quando já não se verão nesse formoso e dilatado mapa senão umas poucas cinzas, relíquias de sua grandeza e desengano de nossa vaidade, «soará no ar uma trombeta» espantosa, não metafórica, mas verdadeira (que isso quer dizer a repetição de São Paulo: Canet enim tuba; e obedecendo aos impérios daquela voz o Céu, o Inferno, o Purgatório o Limbo, o mar, a terra, abrir-se-ão em um momento as sepulturas e aparecerão no Mundo os mortos vivos. 

Parece-vos muito, que a voz de uma trombeta haja de achar obediência nos mortos? Ora reparai em outro milagre maior, e não vos parecerá grande este. Entrai pelos desertos do Egipto, da Tebaida da Palestina; penetrai o mais interior e retirado daquelas soledades. Que é o que vedes? Naquela cova vereis metido um Hilarião, naquela outra um Macário, na outra mais apartada um Pacómio; aqui um Paulo, ali um Jerónimo, acolá um Arsénio; da outra parte, uma Maria Egipcíaca, uma Thais, uma Pelágia, uma Teodora. Homens, mulheres, que é isto ? Quem vos trouxe a esse estado ? Quem vos antecipou a morte? Quem vos amortalhou nesses cilícios? Quem vos enterrou em vida? Quem vos meteu nessas sepulturas? Quem? Responderá por todos São Jerónimo: Semper mihi videtur insonare tuba illa terribilis: surgite mortui, venite ad judicim. Sabeis quem nos vestiu destas mortalhas, sabeis quem nos fechou nestas sepulturas?__«A lembrança daquela trombeta temerosa que há-de soar no último dia: levantai-vos, mortos, e vinde a juizo». Pois se a voz desta trombeta só imaginada, (pesai bem a consequência) se a voz desta trombeta só imaginada, bastou para enterrar os vivos, que muito que, quando soar verdadeiramente, seja poderosa para desenterrar os mortos? 

O meu espanto não é este. O que me espanta, e o que deve assombrar a todos, é que haja de bastar esta trombeta para ressuscitar os mortos, e que não baste para espertar os mortais! Credes, mortais, que há-de haver juízo? Uma de duas é certa: ou o não credes, ou o não tendes. Virá o dia final, e então sentirá nossa insensibilidade sem remédio o que agora pudera ser com proveito. Quanto melhor fora chorar agora e arrepender agora, como faziam aqueles e aquelas penitentes do ermo, do que chorar e arrepender depois, quando para as lágrimas não há-de haver misericórdia, nem para os arrependimentos perdão. Agora vivemos como queremos; e ainda mal, porque depois havemos de ressuscitar como não quiséramos.

II

Grandes cousas e lastimosamente grandes haverá que ver e considerar naquele acto da ressurreição universal! Mas entre todas as considerações a que me parece mais própria deste lugar e mais digna de sentimento, é esta. E quanta gente bem nascida se verá naquele dia mal ressuscitada! Entre a ressurreição natural e a sobrenatural há uma grande diferença: que na ressurreição natural cada um ressuscita como nasce; na ressurreição sobrenatural, cada um ressuscita como vive; na ressurreição natural nasce Pedro e ressuscita Pedro; na ressurreição sobrenatural nasce pescador, e ressuscita príncipe: Sedebitis in regeneratione judicantes duodecim tribus Israel. Oh que grande consolação esta para aqueles a quem não alcançou a fortuna dos altos nascimentos! Bem me parecia a mim que não podia faltar Deus a dar uma grande satisfação no dia do juízo à desigualdade com que nascem os homens, sendo todos da mesma natureza. Não se faz agravo na desigualdade do nascer, a quem se deu a eleição de ressuscitar. A ressurreição é um segundo nascimento com alvedrio.

Tanta propriedade considerou Job neste segundo nascimento, que até outro pai, outra mãe disse que tínhamos na sepultura: Putredini dixi: pater meus es tu; mater mea et soror mea, vermibus. Temos outro pai e outra mãe na sepultura em que jazem nossos ossos, porque ali somos outra vez gerados, de ali saímos outra vez nascidos. Notai agora: Statutum est hominibus semel mori: «Quis Deus que morrêssemos uma só vez», e que nascêssemos duas, porque, como o morrer bem dependia de nosso alvedrio, bastava uma só morte; mas como o nascer bem não estava na nossa mão, eram necessários dois nascimentos, para que pudéssemos emendar no segundo tudo o que nos faltasse no primeiro. Bem pudera Deus fazer que nascessem os homens todos iguais, mas ordenou sua providência, que houvesse no Mundo esta mal sofrida desigualdade, para que a mesma dor do primeiro nascimento nos excitasse à melhoria do segundo. 

Homens humildes e desprezados do povo, boa nova! Se a natureza ou a fortuna foi escassa convosco no nascimento, sabei que ainda haveis de nascer outra vez, e tão honradamente como quiserdes; então emendareis a natureza, então vos vingareis da fortuna. 

Que maior vingança da fortuna que as mudanças tão notáveis, que se verão naquele dia! Virão naquele dia as almas do grande e do pequeno buscar seus corpos à sepultura, e talvez à mesma Igreja: e que sucederá pela maior parte? O pequeno achará seus ossos em um adro sem pedra nem letreiro, e ressuscitará tão ilustre como as estrelas. O grande, pelo contrário, achará seu corpo embalsamado em caixas de pórfiro, aos ombros de leões, ou elefantes de mármore, com soberbos e magníficos epitáfios, e ressuscitará mais vil que a mesma vileza. Oh que metamorfose tão triste, mas que verdadeira! Vede se há-de dar Deus boa satisfação aos homens da desigualdade com que hoje nascem. O ser bem nascido, que é uma vaidade que se acaba com a vida, é verdade que o não pôs Deus na nossa mão; mas o ser bem ressuscitado, que é aquela nobreza que há-de durar por toda a eternidade, essa deixou Deus no alvedrio de cada um. No nascimento somos filhos de nossos pais, na ressurreição seremos filhos de nossas obras. E que seja mal ressuscitado por culpa sua quem foi bem nascido sem merecimento seu! Lástima grande. Ressuscitar bem sobre haver nascido mal, é emendar a fortuna; ressuscitar mal sobre haver nascido bem, é pior que degenerar da natureza. Que ressuscite bem David sobre nascer de Jessé, grande glória do filho de um pastor; mas que ressuscite mal Absalão sobre nascer de David, grande afronta do filho de um rei! Se os homens se prezam tanto de ser bem nascidos, como fazem tão pouco caso de ser bem ressuscitados? Nenhuma cousa trazem na boca os grandes mais ordinàriamente, que as obrigações com que nasceram. E aposto eu que mui poucos sabem quais são estas obrígações. Nascer bem é obrigacão de ressuscitar melhor. Estas são as obrigações com que nascestes. 

O mais bem nascido homem que houve, nem pode haver, foi Cristo; ninguém teve melhor pai, nem melhor mãe; e foi notar Santo Agostinho que, se Cristo nasceu bem, ressuscitou melhor: Gloriosior est ista ,nativitas, quam illa: illa cortus mortale genuit, ista redidit immortale. Cristo, diz Santo Agostinho, «nasceu mais nobremente no segundo nascimento que no primeiro: no primeiro nascimento nasceu mortal e passível; no segundo, que foi a sua ressurreição, nasceu impassível e imortal» Eis aqui as obrigações dos bem nascidos—nascerem a segunda vez melhor do que nasceram a primeira. Se Deus pusera na mão do homem o nascer, quem houvera, por bom que fosse, que não se fizesse muito melhor? Pois este é o caso em que estamos. Se havemos de tornar a nascer, porque não trabalharemos muito por nascer muito honradamente? Não nascer honrado no primeiro nascimento, tem a desculpa de que «Deus nos fez» Ipse fecit nos, Não nascer honrado no segundo, nenhuma desculpa tem: tem a glória de sermos nós os que nos fizemos: Ipsi nos. Que glória será naquele dia para um homem poder tomar para si em melhor sentido o elogio do grande Baptista: Inter natos mulierum non surrexit major:«Entre os nascidos das mulheres nenhum ressuscitou maior». Ser o maior dos nascidos, em quanto nascido, é pequeno louvor e de pouca dura; ser o maior dos nascidos, em quanto ressuscitado, isso é verdadeiramente o ser maior. Na nossa mão está, se o quisermos ser. Nesta vida o mais venturoso pode nascer filho do rei; na outra vida todos os que quiserem podem nascer filhos do mesmo Deus: Dedit eis potestatem filios Dei fieri. E que não sejam isto considerações, senão verdade e Fé católica! Bendito seja aquele Senhor, que é nossa ressurreição e nossa vida: Ego sum resurrectio et vita.


7 de setembro de 2011

Sermão Mons. Emanuel José Possidente - Festa do Imaculado Coração de Maria (1996)


Faleceu ontem dia 06 de setembro de 2011 o Monsenhor Emanuel José Possidente, Vigário Geral emérito da Administração Apostólica São João Maria Vianney e Diretor Espiritual do Seminário da Imaculada Conceição. 

Anima eius et animae omnium fidelium defunctorum per Dei misericordiam requiescant in pace.

"Padre Emanuel José Possidente nasceu em 11 de outubro de 1935, em Santo Antonio de Pádua (RJ). Foi Ordenado padre a 19 de dezembro de 1959 na Catedral Basílica de Santíssimo Salvador em Campos dos Goytacazes (RJ), por Dom Antônio de Castro Mayer. Fazia parte dos chamados "Padres de Campos", padres tradicionalistas que formavam a União Sacerdotal São João Batista Maria Vianney. Nesta época estes padres defendiam a ortodoxia da Fé Católica e combatiam os erros progressistas/modernistas juntamente com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e outras Comunidades tradicionais. Após fazerem Acordos com Roma no ano de 2002, os "Padres de Campos" abandonaram a defesa da Tradição Católica; agora combatem o que defendiam e defendem o que combatiam."(canalmariasantissima)

O vídeo disponibilizado no youtube é um sermão do Monsenhor Emanuel José Possidente, por ocasião da Festa do Imaculado Coração de Maria em 1996.

Santos e demônios IV: Santo Antonio Maria Claret



Santos e demônios IV: Santo Antonio Maria Claret

(Padre João Echevarría, CMF)


Um esquadrão de demônios viu o Pe. Claret ao lado esquerdo de sua cama quando, ainda seminarista, foi vítima de horrorosa tentação que se dissipou com a doce aparição de Maria Santíssima.

E este exército infernal combateu-o principalmente na época das missões, com as quais tantas almas o Pe. Claret arrebatou ao inferno, para apresentá-las a Jesus como gloriosos despojos de combate.

Encontrava-se em Vich o santo missionário.

Uma manhã, as pessoas da casa onde ele estava hospedado viram com grande surpresa que não descia para tomar seu café, na hora de costume. Temeram que estivesse indisposto. Bateram à porta, entraram no quarto e perguntaram-lhe se se encontrava adoentado.

– Sinto uma dor profunda no lado esquerdo – respondeu.

Alarmados com isto, pois o Pe. Claret não costumava queixar-se, chamaram o médico. Chegando este, mandou que descobrisse o lado afetado, e afastando a roupa, viu no lado esquerdo uma ferida como se uma fera lhe houvesse despedaçado a carne com as garras, deixando à mostra algumas costelas.

Ninguém conheceu a causa desse ferimento, porque o Pe. Claret nada dizia; mas todos acreditaram ser efeito do demônio que assim queria atormentar as carnes do inocente missionário.

Voltou por duas vezes o médico, e vendo que havia sinais de gangrena, após uma demorada consulta, resolveu ser necessária uma intervenção cirúrgica, e determinou fazê-la na manhã seguinte.

Veio; bateu à porta do doente, mas este não respondeu. Perguntou por ele, alarmado, e enquanto esperava, apareceu risonho o doente prodigioso.

– Não se espante, disse-lhe, ajude-me a agradecer a Deus este favor. Esta noite Nossa Senhora curou-me.

O doutor, atônito, mandou descobrir o lugar da ferida; e notou com surpresa que já havia cicatrizado, e o lugar recoberto de pele branca e firme.

– Milagre! – exclamaram a uma voz todos os circunstantes.

***

As perseguições do demônio eram mais freqüentes na época das missões.

Pregava o Pe. Claret em Sarreal, província de Tarragona. As multidões, comovidas, tomaram quase que de assalto a igreja; invadiam-na, deixando-a repleta; e muita gente se acotovelava no adro por não poder entrar no templo.

Quando o missionário estava mais fervoroso e emocionante no sermão, desprendeu-se do arco central do templo uma pedra enorme, que caiu em pedaços sobre a multidão.

– Não é nada!, gritou o Pe. Claret, ninguém se mova! É o demônio que quer impedir o fruto da santa missão. Mas não tem permissão de Deus para vos fazer mal.

Assim foi; pois os diversos pedaços não feriram a ninguém. Este milagre aumentou o fervor e o entusiasmo do auditório, e assim ficou derrotado o demônio.

***

Pregava, doutra feita, perante enorme concorrência. Estava já na metade da missão. O povo cada dia dava maiores demonstrações de piedade e arrependimento.

Era de noite. Quase todos os habitantes estavam reunidos na igreja. Quando o Pe. Claret tomou nas suas mãos o santo crucifixo para findar o sermão com fervorosa súplica, um desconhecido entrou à viva força no templo, alvoroçando o povo e gritando:

– Fogo! Fogo! Que se queima uma casa. Auxílio! Socorro!

O Pe. Claret, com voz forte, disse, interrompendo o sermão:

– É o demônio! Não há casa alguma a arder. E para que vos convençais, que vá o sacristão constatar o fato. Se houver fogo, iremos todos apagá-lo; mas, enquanto não vier o aviso, ficai tranqüilos e sossegados.

Chegou o sacristão e disse não haver sinal nenhum de incêndio... Então o povo quis dar uma sova no homem, mas este, misteriosa e subitamente, desapareceu.

– Não vo-lo dizia?, exclamou o Pe. Claret, era o demônio, inimigo de vossas almas, que pretendia impedir o fruto desta santa missão.

E tomando pé deste fato, pregou novo sermão sobre a importância da salvação.

As lágrimas e soluços da multidão acompanhavam as palavras do missionário. O fracasso do demônio não podia ser maior nem mais humilhante.

***

A conquista das almas foi o lema que escreveu o heróico missionário no programa do seu apostolado. E para o efetuar, reproduziu na sua vida o catálogo de sofrimentos e perseguições que sofreu, no seu tempo, o Apóstolo das Gentes [São Paulo].

E como não devia ser alvo da perseguição, se cada alma, cada coração conquistado para Cristo era um despojo, que arrancava violentamente das garras de satanás?

Por isso, o demônio devotava ódio ferrenho às missões do Pe. Claret; porque principalmente com elas obtinha os grandes triunfos. E para impedi-los, lançou mão de todos os meios o príncipe das trevas.

***

Foi em Masnou, província de Tarragona.

Pregava o Pe. Claret uma missão. As povoações vizinhas, entusiasmadas e a se penitenciar, vinham todas as tardes escutar atentamente a palavra do missionário. Uma multidão compacta e fervorosa enchia o vasto templo paroquial.

Apareceu na capela-mor o Pe. Claret e entoou, em frente do auditório, um cântico da missão.

A multidão, que conhecia aquele cântico, acompanhou-o unissonamente, como imensa massa coral.

O organista, Pe. João Quintana, carmelita calçado, assentou-se ao órgão para acompanhar o canto. Mas, contra a vontade do organista, saía dos tubos do órgão a música duma canção escandalosa, muito em voga naquele tempo em teatros e tabernas...

O público emudeceu, escandalizado, e logo alvoroçou-se diante do insulto...

O organista, espantado, trabalhava para dominar o teclado do órgão, mas seu esforço era em vão. A canção continuava soando escandalosamente.

Então o Pe. Claret subiu rapidamente ao púlpito e, dirigindo-se à multidão, disse com voz dominadora:

– Meus irmãos, não vos espanteis! É o demônio que, com esta canção escandalosa, quer inutilizar o fruto dos sermões...

E erguendo a mão em direção ao coro, gritou:

– Sr. Organista, abra o registro flautado, porque dentro dele está o demônio.

Assim fez o organista, e o demônio fugiu vencido.

O órgão acompanhou harmoniosamente os cantos da missão; serenou o auditório e, ao findar a pregação, puderam recolher os ceifadores evangélicos do campo espiritual magnífica colheita de pecadores convertidos.

***

Estava um dia a pregar em campo aberto. Foi uma solenidade religiosa em que milhares de ouvintes se reuniram para escutar o sermão do ilustre missionário.

Quando sua palavra apostólica ecoava mais eloqüente e ungida de piedade, cobriu-se o céu de nuvens pardacentas; despontou o raio e o trovão, e em torvelinho de poeira se desencadeou o furacão.

A multidão, aterrorizada, começou a fugir, mas o Pe. Claret a conteve, dizendo:

– Ninguém se mova! É o demônio que vem, envolto na tempestade. Prestes fugirá, vencido.

[E tal ocorreu.]

Em outro dia, pregava uma missão na igreja. Mas era tão numerosa a assistência, que se viu forçado a improvisar um púlpito em praça pública. Ao império da sua eloqüência sobrenatural, a multidão, entre profundos soluços e lágrimas sinceras, implorava de Deus perdão para seus pecados.

De repente ouve-se um golpe como se fosse uma chicotada, no púlpito; o rosto do Pe. Claret contrai-se em trejeitos de dor; seu corpo treme; e, quando parece que vai cair, e o público, alarmado, se precipita para ampará-lo, brada com voz serena:

– Deixai-me... nada receeis. É o demônio que me deu este golpe para que não pregue mais.

O Pe. Claret ficou em silêncio alguns minutos, e o povo a chorar e com os braços ao alto, exclamava:

– Perdão, ó meu Deus! Perdão e clemência!

***

Foi desta vez em Igualada. A missão estava dando belos resultados. Já de público se contavam as grandes conversões, e estavam prestes a dar esse passo outros muitos pecadores.

Para mover a estes que permaneciam hesitantes, o Pe. Claret preparou com a oração e o estudo, um sermão especial: o sermão da Madalena.

Todos choravam ao escutá-lo... Sua palavras era uma concentração luminosa e palpitante de todas as ternuras, de todos os arrependimentos, de todos os amores que sentiu na hora feliz da sua conversão a Madalena, a sublime penitente...

Quando mais ardentes e gerais eram os soluços no auditório, um ruído espantoso alvoroçou o público.

Milhares de cães raivosos brigavam, mordiam-se, despedaçavam-se invisivelmente na igreja; perseguiam-se, desgarravam-se com uivos aterradores. A multidão, consternada, lançou um grito de espanto. Todos olhavam em redor, mas ninguém via onde estavam os cachorros.

Então o Pe. Claret, estendendo a mão sobre o auditório disse:

– Calma, meus irmãos! Calma! Não vos espanteis. Esses cães são os demônios que receiam vos aproveiteis da santa missão. Desprezai-os e logo vos largarão.

Tranqüilizou-se o público ao ouvir estas palavras do santo missionário; os demônios fugiram e a matilha de cães emudeceu...

Mais tarde, o Pe. Claret, referindo-se a esta época de suas missões, consignou em sua ‘Autobiografia’ estas singelas palavras:

– Se foi grande a perseguição que contra mim levantava o inferno, imensamente maior foi a proteção do céu. Conhecia visivelmente que a Virgem Santíssima, os Anjos e Santos me conduziam por caminhos ignorados; livraram-me dos ladrões e assassinos, e me conduziram a porto seguro, sem que eu conhecesse o modo.


(Pe. João Echevarria, CMF, in: Santo Antônio Claret, Editora Ave-Maria, São Paulo: 1962, 2ª edição, páginas 101-107)

Fonte: Texto retirado do antigo blog odioaheresia
Foto: Autor desconhecido - Retirada do blog alexandriacatolica