6 de setembro de 2011

Santos e demônios III: São João Maria Vianney



Santos e demônios III: São João Maria Vianney

(Mons. Francis Trouchu)


Que há inferno e anjos decaídos condenados a ele é dogma da nossa fé católica. Conforme ela, o demônio é um ser pessoal e existente e não uma ficção da fantasia.

No mundo, é verdade, a sua ação permanece oculta, porém, às vezes, com permissão de Deus, se manifesta exteriormente. É que sem dúvida vê ameaçada sua influência nesta ou naquela parte da terra, e como não pode atacar diretamente a Deus, o invisível malfeitor se esforça em esterilizar os trabalhos dos seus obreiros.

Por espaço de 35 anos – de 1824 a 1858 – o Cura d’Ars foi alvo das perseguições exteriores do maligno. Se satanás tivesse conseguido roubar-lhe o sono e o repouso, tirar-lhe o gosto da oração, das austeridades e dos trabalhos apostólicos e o obrigasse a deixar o ministério das almas!... Mas o inimigo da salvação foi descoberto e vencido. “As lutas com o demônio, diz Catarina Lassagne, tornaram o Pe. Vianney caritativo e desinteressado”. O péssimo astuto não contava com esse resultado.

As perseguições infernais começaram no tempo em que o Santo Cura meditava no plano da Providência [isto é, o orfanato/educandário de Ars], para a qual acabava de adquirir uma casa, quer dizer, durante o inverno de 1824 a 1825.

Foram a continuação de violentas tentações interiores. Durante o curso de uma enfermidade bastante grave, devida talvez ao que ele chamava “loucuras da juventude” [isto é, suas heróicas penitências], o Pe. Vianney, tentado por pensamentos de desesperação, cria-se próximo à morte. Parecia-lhe ouvir repetidamente, dentro de si mesmo, uma voz que lhe dizia: “Agora cairás no inferno”. Mas o Santo recuperava a paz da alma avivando sua fé em Deus. Para turbar-lhe a paz exterior, começou o demônio com inquietações insignificantes. Cada noite, o pobre Cura d’Ars ouvia rasgarem-se as cortinas do leito. Pensou que se tratasse de vulgares roedores. Deixou um pau na cabeceira, mas tudo em vão. Quanto mais sacudia as cortinas para pegar os ratos tanto maior era o ruído dos rasgões, e no dia seguinte, quando esperava ver as cortinas feitas em pedaços, encontrava-as intactas. Essas manobras duraram algum tempo.

O Cura d’Ars não pensou, a princípio, tratar-se do espírito das trevas. “Não era nada crédulo, e dificilmente dava fé aos fatos extraordinários”, tanto que, mais tarde, quando se lhe ofereciam casos de possessão diabólica, conduzia-se sempre com a maior prudência. “Perguntei-lhe um dia, diz o Pe. Dufour, missionário de Belley, que pensava de uma pessoa que se enfurecia em presença de um sacerdote ou de um crucifixo. Respondeu-me: ‘Tem um pouco de nervos, um pouco de loucura e um pouco do grappin’. – Grappin era o nome com que ele de ordinário designava o demônio. – Quanto a ele [mesmo], conservando perfeito domínio de si mesmo em meio de um trabalho inaudito, não podia ser tido por alucinado. Muito sério e inimigo da mentira para inventar comédias, jamais teria falado em obsessões do demônio se não fossem reais. Tal era, de outro lado, a convicção de quantos dele se aproximavam.

Ora, no silêncio duma noite ouviram-se pancadas e gritos no pátio da casa paroquial. Seriam acaso ladrões que cobiçavam os preciosos presentes do visconde de Ars, guardados nun cofre no sótão? O Pe. Vianney desceu às pressas e não viu nada. Contudo, nas noites seguintes, receou ficar só.

– “Depois de muitos dias, contou André Verchere, carvoeiro da vila, jovem de 28 anos, robusto e galhardo, que o Pe. Vianney ouvia em sua casa um ruído extraordinário, uma tarde veio ao meu encontro e me disse: ‘Não sei se são ladrões... Queres dormir na casa paroquial?’

– ‘Com muito gosto, sr. Cura. Vou carregar o meu fuzil’. Chegada a noite, dirigi-me à casa canônica. Conversei com o sr. Cura, junto ao fogão, até pela volta das dez. Então me disse ele: ‘Vamos dormir’. Cedeu-me seu quarto e ele ocupou o contíguo. Eu não podia dormir. A uma hora ouvi sacudir com violência o ferrolho e a tranca da porta que dava para o pátio. Simultaneamente, contra a mesma porta ressoavam pancadas de maça, enquanto a casa se enchia de um ruído atordoador como de várias carroças. Tomei o fuzil e me precipitei para a janela, que abri com violência. Olhei e não vi nada. A casa estremeceu por um quarto de hora. Minhas pernas fizeram o mesmo, e disso me ressenti por espaço de 8 dias. Quando o estrépito começou, o sr. Cura acendeu uma lâmpada e veio ter comigo.

– Ouviste alguma coisa? Perguntou-me.

– Sim. Pois não vê Vossa Reverendíssima que me levantei e estou com o fuzil?

A casa estremecia como se a terra tremesse.

– Tens medo? Perguntou-me ainda o sr. Cura.

– Não; não tenho medo, porém sinto que me faltam as pernas. A casa vai desabar.

– Que pensas ser isso?

– Creio ser o diabo [respondeu o guarda].

Quando cessou o barulho, voltamos para a cama. O sr. Cura na noite seguinte pediu-me ficasse com ele novamente. ‘Sr. Cura, respondi-lhe, já levei susto que chega’”.

5 de setembro de 2011

Santos e demônios II: São Paulo da Cruz



Santos e demônios II: São Paulo da Cruz

(Padre Luis Teresa de Jesus Agonizante, CP)


“Vamos referir, com lhaneza, fatos extraordinários, indubitáveis e autênticos todavia.

Em França, os biógrafos de santos costumam, antes de entrar nesta matéria, fazer longas dissertações filosóficas, teológicas. etc.. Precauções, pois estamos em épocas dos espíritos fortes.

Julgamo-nos dispensados desse trabalho por uma razão bem simples: os chamados espíritos fortes, ridicularizadores da crença nos demônios e dos exorcismos da Igreja, encontram-se diante de fatos que lhes pedem pelo menos sérias reflexões. Nos últimos tempos, Satanás teima em zombar de seus zombadores, com estranhos fenômenos, explicáveis somente pela intervenção real do espírito da mentira.

Serve-se a Providência muitas vezes do demônio para plasmar os santos.

A Paulo da Cruz não podia faltar esse traço de semelhança com Jesus Cristo, que entregou o corpo ao arbítrio de Satanás nas provações do deserto e ao chegar o PODER DAS TREVAS nos dias da Paixão.

É que Deus escolhera a Paulo, generoso atleta, para humilhar o gênio da soberba.
Jesus, dissera um dia ao nosso santo:

“ Apraz-me vê-lo sob os pés dos demônios ”

Os espíritos infernais aproveitaram-se da permissão divina, já que a santidade de Paulo os exacerbava. Como vingança às derrotas sofridas, descarregavam-lhe todo o seu furor. Ouçamos ao nosso santo:

“ O convento (do monte Argentário) está quase concluído. Espero inaugurá-lo na Quaresma. Oh! que alvoroço fazem os demônios! Somente Deus sabe como me acho” .
Os demônios, já o dissemos, destruíam de noite o que se edificava de dia.

“ Faz muito tempo que pobre ancião, encanecido no vicio, ouve, à noite, assobios que o fazem tremer. Garantiram-lhe, porém, que tudo há de passar e nada o prejudicará. Não vos amedronteis, pois N. Senhor combaterá por vós. ALLELUIA! ALLELUIA! ALLELUIA! O demônio teme o ALLELUIA, palavra caída do Céu. Estou nas mãos da divina misericórdia, embora cruelmente atormentado pelos ministros de sua justiça e ainda mais pelos meus pecados ” .

Os ataques diabólicos, inspirados sempre na mais entranhada malícia, revestiam-se, por vezes, de caráter de intrigas mesquinhas e pueris. Em se tratando de prejudicar, não têm delicadeza esses inimigos. Todos os meios lhes parecem bons. Para o êxito de seus tétricos projetos, não se envergonham de metamorfosear-se em animais, não, porém, como Deus os criou: nisto está o embuste.

Justo castigo do orgulho, a ensinar-nos que toda criatura, por mais sublime que seja, em pretendendo sobrepujar-se a Deus, inferioriza-se aos irracionais.
Apareciam-lhe freqüentemente sob horríveis formas, como de gatos selvagens, de cães raivosos ou de aves de rapina.

Para tornar mais divertidas suas artimanhas, aproveitavam do tempo em que Paulo estava enfermo e desamparado de Deus.

Após prolongadas insônias, conseguia Paulo pegar no sono. Pois bem, os espíritos malignos interrompiam-no, com assobios, uivos, espantosos ruídos, simulando detonações de diversas peças de artilharia a um tempo.
Acordava o santo, sobressaltado.

Outras vezes, tiravam-lhe os cobertores ou caminhavam sobre a cama, como gatos.
Na grave enfermidade de Orbetello, passou quarenta dias e quarenta noites insone, atormentado de pungentes dores. Afinal, acalmando-se-lhe um pouco os sofrimentos, adormeceu. Imediatamente, infernal ruído o acordou. Eram os demônios a abrirem e fecharem com violência as portas de um móvel... O santo, com ar de desprezo, pô-los em fuga, podendo descansar por algumas horas.
Ao referir a aventura ao confessor, ele, que sabia unir a alegria à virtude, dizia-lhe a sorrir:
“ Que lhe parece? Não diz o provérbio que o cachorro que dorme não caça?... Um pobre homem insone há quarenta dias e quarenta noites, despertado no primeiro sono!.... E' isto, por ventura, agradável? ” .

Estava o santo de cama com o mal de gota. O demônio, a fim de martirizá-lo, tomou-lhe o dedo mais dolorido e o torceu violentamente, fazendo-lhe experimentar dores inauditas.

Atacavam-no com mais furor, quando ocupado em afazeres da glória de Deus ou do bem das almas.

Ao começar a oração ou o Ofício divino, parecia-lhe desencadear-se o inferno... Se tomava da pena para escrever coisas de importância, o demônio, raivoso, rugia, espantosamente. Se nos recreios discorria de assuntos de piedade, de volta à cela tinha que haver-se com os espíritos infernais.

Ao rever as Regras das religiosas da Paixão, maltrataram-no os demônios a valer. Uma noite, mão invisível tomou-lhe da cabeça, batendo-a violentamente de encontro à parede. O barulho despertou o enfermeiro, na cela contígua. No dia seguinte, perguntando-lhe o confessor como passara a noite, respondeu, sorrindo
“ O bom Deus não permite que as artimanhas dos demônios façam muito mal, mas bem é que não fazem ” .
E acrescentou:
“ O que os queima agora é o mosteiro! ” .

O que mais irritava a Satanás era a conquista de almas. Nos primeiros anos de residência no Argentário, descia Paulo aos sábados a Portércole, a fim de instruir o povo nos rudimentos da religião, passando a noite ao pé do Tabernáculo.

Os demônios esforçavam-se por amedrontá-lo com estrépitos infernais. O santo prosseguia a sua oração. De manhã, entregava-se às obras de apostolado com êxito correspondente à preparação.

Nas jornadas apostólicas, seguiam-nos os espíritos infernais, fazendo-lhe pagar bem caro as almas arrebatadas ao seu domínio.

À noite, batalhões desses espíritos entravam-lhe pelo quarto com alaridos de um povo amotinado. Puxavam-no da cama, arrastavam-no pelo assoalho, bradando enfurecidos:
“ Ah! Vieste atormentar-nos? Quantas almas já nos arrebataste!... ”

As meditações sobre a sagrada Paixão causavam-lhes grandes perdas. Confessaram pela boca dum possesso, que a santa missa celebrada pelo servo de Deus e a Paixão pregada por ele eram o que mais os afligia.

O inocente corpo de Paulo, especialmente as pernas estavam sempre chagadas pelos açoites dos demônios. (quantas manhãs encontravam-no pálido, lívido, obrigado a permanecer na cama, sem mover-se...

Regressava, certa feita, duma missão quando, ao sopé de alta montanha, nas vizinhanças de Feniglia, os demônios, de forma visível, colocando-se em ala ao longo da estrada, açoitaram-no cruelmente, corno a soldado sujeito ao castigo das chibatadas.

Impossível referir todos os maus trato: infligidos pelos demônios ao servo de Deus; mas o apóstolo surgia sempre mais audaz desses combates e com a espada mais afiada para novas batalhas e novos triunfos...

Uma vez por outra tomavam os inimigos forma humana, pretendendo enganá-lo.

Em Santo Anjo, na enfermidade de que falamos no princípio deste capítulo, apresentaram-se-lhe no quarto seis ou sete personagens, que se diziam médicos. Vinham da parte do pe. João Batista anunciar-lhe que se preparasse para a morte. O desenlace ocorreria na próxima quarta feira.

O santo, percebendo imediatamente o embuste diabólico, respondes-lhes que tinha médico em quem confiava plenamente e que, portanto, não fora necessário virem até o retiro por tão pouco. O dr. Mattioli tê-lo-ia avisado.

Com efeito, se aqueles médicos de nova linhagem pretendiam assustá-lo, enganavam-se redondamente, pois o maior desejo de Paulo era deixar este desterro e voar para a Pátria celeste. O certo, é que os demônios desapareceram, envergonhados.
Em outra ocasião, estavam o pe. Paulo e um companheiro hospedados em casa de um nosso benfeitor. Mal se recolheram ao quarto, apareceu-lhes o demônio sob a figura de horrível gigante.

“ Pe. Paulo ” ,
perguntou tomado de susto o companheiro
“ Não está vendo? ”
“ Tranqüilize-se ” ,
respondeu o servo de Deus, acostumado a tais visitas,
“ tranqüilize-se, ele não veio para v. revcia ” .

No dia seguinte percebeu o companheiro para quem viera o inimigo, ao observar as pernas do pe. Paulo lívidas pelos açoites recebidos durante a noite.

“ Outros religiosos testemunharam as violências diabólicas no corpo inocente do pe. Paulo ” ,

acrescenta são Vicente Maria Strambi, dando a entender, provavelmente, que. ele também o testemunhara.

Que valor não demonstrou nesses assaltos o servo de Deus?! Ele bem sabia que contra tais inimigos não cabem temores, mas confiança ilimitada no poder e na misericórdia de Deus.

Jamais pediu socorro, patenteando ao inimigo que o não temia. Convencido de que o espírito soberbo tem mais audácia que poder, opunha-lhe somente profundo desprezo. Armava-se do Crucifixo. coloca-a ao pescoço o rosário e, com voz possante, intimava-o, em nome de Jesus e Maria, a retirar-se.

Fugia, não há dúvida, mas para voltar com desdobrado furor.”

(Padre Luis Teresa de Jesus Agonizante, CP, in: Vida de São Paulo da Cruz, tradução do Padre Vicente do Nome de Jesus, CP, Editora “O Calvário”, São Paulo: 1958, páginas 363-367)

Fonte: Texto retirado do antigo blog odioaheresia
Foto: Autor desconhecido

4 de setembro de 2011

Santos e demônios I: Santa Gema Galgani



Santos e demônios I: Santa Gema Galgani

(Padre Germano de Santo Estanislau, CP - tradução do Padre Matos Soares)



"Para purificar os Seus escolhidos e fazer deles vítimas de expiação, Deus serve-Se muitas vezes de satanás que, com o seu ódio ao homem, é em Suas mãos o instrumento mais ativo. A Santa Escritura e sobretudo os registros da hagiografia oferecem-nos exemplos numerosos desta conduta da Providência Divina.


Quando o Senhor quis elevar São Paulo da Cruz a um grau mais eminente de santidade, disse-Lhe no íntimo da sua alma: 'Fazer-te-ei calcar aos pés pelos demônios'. Gema ouviu também um dia palavras semelhantes: 'Prepara-te, minha filha; por minha ordem o demônio vai declarar-te guerra e dar, por esta forma, o último retoque à obra que realizei em ti'. 


Podemos dizer que esta gurra foi geral, isto é, dirigida contra cada uma das virtudes e práticas por meio das quais a jovem virgem se esforçava em caminhar para Deus. Todas desagradavam ao anjo do mal, que as atacou com ódio feroz. Dir-se-ia que, no exercício do seu tenebroso império, não tinha outra preocupação senão perseguir esta pobre menina e procurar meios de a assaltar com tentações.


A oração é o alimento vital da santidade, o supremo caminho que conduz ao Soberano Bem. Desde há muito que Gema a amava e praticava com todo o ardor da sua alma e devia-lhe bens inapreciáveis. O que não fez satanás por afastar a donzela da oração! Nada podendo conseguir com as suas inspirações perversas, provocava-lhe violentas dores de cabeça que teriam levado uma alma menos enérgica antes à indolência e ao repouso que à oração; experimentava mil outros meios para a desviar deste exercício divino. 'Oh!' dizia-me ela, 'que tormento para mim o não poder orar! Que fadiga eu sofro! E que esforços faz esse velhaco (assim chamava ao demônio) para me tornar a oração impossível! Ontem à noite queria matar-me, e te-lo-ia feito se não fosse a rápida intervenção de Jesus. Eu estava desfalecida, tinha bem gravado na minha alma o Nome de Jesus, mas não me era possível proferí-lo com a língua”

Algumas vezes o infernal inimigo tentava triunfar de um só ímpeto por meio de sugestões ímpias. ‘Que fazes tu, lhe dizia, és louca de orar a um malfeitor? Vê como ele te atormenta e te conserva consigo sobre a cruz. Porventura podes amar quem não conheces e quem trata tão duramente os seus melhores amigos?’ Estas blasfêmias não eram mais que poeira lançada ao vento, mas afligiam profundamente a alma terna e amante, obrigada a ouvir ultrajar assim o seu adorável Jesus.

No meio de tantos sofrimentos, a pobre menina procurava algum confôrto no seu pai espiritual, apresentava-lhe as suas dificuldades, implorava conselho e direção. Este humilde e filial recurso não agradava ao espírito das trevas, que via assim diminuir as suas já tão pequenas probabilidades de êxito. Usou de mil artifícios para isolar na luta a Serva de Deus, afastando-a do diretor espiritual. Pintou-lho com as mais desprezíveis cores: como ignorante, um fanático, um iludido. ‘Nos últimos dias, escrevia-me ela, o maldito fez-me ‘boas’ [peças]. Este monstro queria privar-me do meu guia e conselheiro para me perder; não tenho, porém, receio de que o consiga.’

Parece que esta confiança em Deus deveria desarmar satanás, mas não desarmou. Perante a inutilidade de suas pérfidas insinuações, recorreu à violência física. Logo que Gema tomava a pena para me escrever, tirava-lha das mãos e rasgava o papel; algumas vezes, agarrando-a pelos cabelos, arrancava-a de junto da mesa com tal raiva que lhe ficavam nas mãos brutais madeixas inteiras; e ao mesmo tempo uivava com voz furiosa: ‘Guerra, guerra a teu pai espiritual, guerra enquanto ele estiver no mundo!’ Seja-me lícito dizer, aqui só entre nós, que nunca passou das palavras. ‘Acreditai-me, Padre, dizia Gema, ao ouvi-lo, vê-se que este velhaco odeia muito mais a vós do que a mim.’

O demônio levou a audácia até ao ponto de tomar as aparências do seu confessor ordinário. Um dia acabava a menina de entrar na igreja e preparava-se, esperando pelo sacerdote, para a recepção do sacramento da Penitência. Mas qual não foi o seu espanto ao vê-lo imediatamente no seu posto, sem que pudesse saber por onde é que tinha entrado! Sentiu uma grande perturbação interior, que era nela indício infalível da presença do espírito maligno. Entretanto aproximou-se e começou a confissão. A voz que ouvia era realmente a do confessor ordinário, mas as palavras eram escandalosamente indecentes e acompanhadas de atos desonestos. ‘Meu Deus, exclamou Gema, que é isto e onde estou eu?’ A pura menina, tremendo dos pés à cabeça, permaneceu por um instante estonteada, depois sossegou, levantou-se, saiu do confessionário e verificou então que o pretendido confessor tinha desaparecido, sem que nenhuma das pessoas presentes o visse ir.

Não havia dúvida: o demônio procurava com este artifício grosseiro surpreender a santa menina ou pelo menos tirar-lhe toda a confiança no ministro de Deus.

Tendo falhado este golpe, tentou outro. Apareceu sob a forma de um belo anjo resplandecente de luz e cheio de solicitude pela sua felicidade. Como com Eva no paraíso terrestre, empregou a mais sutil astúcia para conseguir enganá-la. ‘Olha para mim, dizia ele, posso tornar-te feliz; jura somente que me obedecerás.’ Gema, que desta vez não tinha sentido a perturbação reveladora da presença do demônio, ouvia tranquilamente. Mas, logo às primeiras propostas criminosas do espírito perverso, os olhos se lhe abriram e ela se pôs na defensiva. ‘Meu Deus, Maria Imaculada, exclamou a princípio, vinde em meu auxílio!’ Depois, avançando resolutamente para o anjo disfarçado, escarrou-lhe na cara. Desapareceu imediatamente sob a forma duma grande chama vermelha, deixando no assoalho do quarto um montão de cinza.

Algum tempo depois, novo assalto. ‘Ouvi, Padre: escrevia-me Gema, ontem entrava eu em casa, depois de ter me confessado. Aproveitando o momento de solidão, pus-me de joelhos para recitar a Coroa das Cinco Chagas. Ia a chegar à quarta Chaga quando vi diante de mim uma pessoa muito parecida com Jesus. Estava flagelado de há pouco e do seu coração aberto corria sangue em abundância. Disse-me: ‘É assim, minha filha, que me correspondes? Considera o estado em que me encontro. Vês como sofro por ti? E não podes continuar a consolar-me com essas penitências? E no entanto era bem pouca coisa; podias muito bem retomá-las. – Não, não respondi, quero obedecer e desobedeceria se vos atendesse. – Mas enfim, o confessor que tas proibiu foi esse... Ora, tu de nenhum modo estás obrigada a obedecer-lhe. – E acrescentou muitas mais coisas. Nestes perniciosos conselhos reconheci satanás, e estava para tomar a disciplina, como das outras vezes em iguais circunstâncias, quando me senti diferentemente inspirada. Levantei-me, lancei-lhe água benta e desapareceu. Recuperei então a paz, não sem ter recebido alguns golpes com que a besta vil me gratifica de tempos a tempos.’

Não obtendo outra coisa, o espírito do mal procurava assim levar Gema, contra a proibição do diretor espiritual, a penitências prejudiciais à saúde.

Para protegê-la contra as visões maléficas, ordenei-lhe que a cada aparição sobrenatural exclamasse: Viva Jesus! Nosso Senhor, sem eu o saber, tinha-lhe dado um conselho quase igual. Gema devia dizer: Benditos sejam Jesus e Maria. A dócil menina, para obedecer a ambos, juntava as duas exclamações. Os bons espíritos repetiam-nas sempre, mas os maus ou não respondiam ou se limitavam às primeiras palavras: Viva, benditos. Por este sinal eram reconhecidos, e Gema escarnecia deles.

Com a esperança de lhe inspirar o orgulho, o demônio mostrava-lhe algumas vezes em sonhos, ou mesmo estando acordada, uma procissão de pessoas vestidas de branco que se aproximavam piedosamente do seu leito para a venerar. Descobria-lhe também que as cartas para seu pai espiritual eram religiosamente conservadas com o fim de servirem um dia à sua glória, etc., etc. Vãs tentações, a Serva de Deus era suficientemente humilde para não se deixar levar como Eva pela sedução da vaidade.

Supondo abalar talvez a sua grande confiança em Deus, o maldito aproveitava as ocasiões tão freqüentes de abandono e de cruel aridez espiritual para aumentar em sua alma o horroroso temor da condenação. ‘Não vês, lhe dizia, que Jesus não te escuta, que já te não quer conhecer? Para que afadigar-te em correr após ele? Só te resta resignar-te com a tua desgraçada sorte.’ Para os santos foi sempre esta tentação a mais angustiosa. Gema experimentava-lhe toda a violência; mas habituada a recorrer a seu Deus, apesar de tudo e em todas as circunstâncias, com a mais viva fé, como uma criança recorre a seu pai, depressa recuperava a serenidade. Por isso podia dizer-me: ‘Este celerado cansa-se; quereria ... Mas Jesus com suas palavras inspirou-me tal tranqüilidade que todos os esforços diabólicos não poderiam tirar-me a confiança por um só momento.’

O anjo da soberba, furioso de ver que toda a sua astúcia se malograva aos pés duma humilde donzela, em ultimo recurso tirou definitivamente a máscara, passando a atos de violência. Aparecia-lhe sob as formas horríveis dum monstro ameaçador, dum homem feroz, dum cão raivoso. Depois de ter assim procurado aterrorizá-la, precipitava-se sobre ela, batia-lhe, rasgava-lhe a pele, atirava-a dum lado para outro no quarto como se fôra uma rodilha; arrastava-a pelos cabelos e martirizava de todas as maneiras possíveis os seus inocentes membros. E não julguemos que tudo isso se limitava a impressões puramente imaginárias, porque os efeitos sobre o corpo da vítima persistiam por muito tempo: cabelos arrancados, carnes lívidas, ossos quase esmagados, dores atrozes. Algumas vezes ouvia-se o barulho das pancadas, via-se o leito mudar de lugar e elevar-se da terra para cair bruscamente. Estes vexames duravam sem interrupção horas inteiras e algumas vezes toda noite.

Deixemos gema falar a este respeito. A simplicidade do seu estilo e a ingênua sinceridade da sua alma dispensam-nos de fazer comentários. ‘Hoje, que me julgava livre desta besta vil, fui muito molestada por ela. Ia para me deitar, esperando poder dormir; não sucedeu, porém, assim. A princípio recebi uma pancada das mais terríveis, de que pensei morrer. O malvado tinha a forma dum grande cão negro, e punha-me as patas sobre os ombros. Tratou-me de tal modo que em um dado momento supus ter os ossos todos quebrados. Pouco depois, como eu tomasse água benta, torceu-me o braço com extrema violência e caí em dor. Os ossos estavam completamente deslocados, Jesus, porém, veio repô-los no seu lugar, tocando-os, e tudo ficou remediado.’ Em outra carta: “Também ontem o demônio me afligiu. Minha tia mandou-me que fosse encher os jarros do quarto. Ao passar com os jarros na mão, diante da imagem do Coração de Jesus, dirigi-lhe com amor uma prece fervorosa; imediatamente senti darem-me sobre os ombros uma bastonada tão forte que cai por terra, sem nada quebrar. Ainda hoje me sinto muito mal e menor trabalho me causa dor.”

A santa menina escrevia-me ainda: “Acabo de passar, como de costume, uma noite má. O demônio apresentou-se diante de mim sob a figura de um imenso gigante e bateu-me durante toda a noite, dizendo: para ti já não há esperança de salvação, estás em meu poder. Respondi que nada temia porque Deus é misericordioso. Então, espumando de raiva, deu-me uma grande pancada na cabeça e desapareceu gritando: maldita sejas. Fui para o quarto repousar um pouco, mas tornei a encontrá-lo lá. Começou de novo a bater-me com uma corda toda aos nós. Batia-me por eu me opor a fazer o mal que sugeria. Não, lhe dizia eu; e ele redobrava as pancadas, batendo-me violentamente com a cabeça no chão. De repente tive a lembrança de implorar o auxílio do divino Pai de Jesus e exclamei: Pai Eterno, livrai-me pelo sangue preciosíssimo de Jesus. Imediatamente o velhaco deu-me uma pancada formidável, atirou-me abaixo da cama e fez-me bater a cabeça no chão com tanta violência que perdi os sentidos com a dor. Só muito tempo depois os recuperei. Demos graças a Jesus.”

Estas cenas repetiam-se muito frequentemente, e, em certas épocas todos os dias. A pobre padecente estava quase habituada a elas. Exceptuando as torturas corporais, podemos dizer que a vista do monstro infernal já não a atemorizava. Olhava-o com a mesma serenidade com que a pomba olha para um animal imundo. Gema algumas vezes entretinha-se a responder-lhe e a humilhá-lo, quando não estava proibida de o fazer; e, quando à invocação do Santíssimo Nome de Jesus, a hedionda besta se rolava por terra para fugir em seguida a toda pressa, a ingênua menina acompanhava-a com zombarias e francas gargalhadas. “Se vísseis, Padre, como ele fugia e tropeçava em sua fuga raivosa, ter-vos-ieis rido comigo.” Assistia eu uma ocasião à piedosa menina, gravemente doente e em perigo de vida. Sentado a um canto do quarto rezava tranquilamente o Breviário, quando um enorme gato muito preto e de aspecto terrificante me saltou impetuosamente para os pés. Deu uma volta pelo quarto, saltou para o leito da doente e colocou-se muito perto do seu rosto, fixando nela um olhar feroz. O sangue gelou-me nas veias; Gema, porém, permanecia muito serena. Então! Que há de novo? Lhe disse eu, ocultando o melhor possível a minha atrapalhação. – Não tenhais medo, Padre, é esse velhaco do demônio que quer molestar-me, mas não temais, a vós não fará mal nenhum. A tremer aproximei-me do leito, tomei água benta e aspergi-o. A visão desapareceu imediatamente, sem ter conseguido alterar por um só momento a paz profunda da doente.

A única coisa que aterrava verdadeiramente Gema era o receio de ceder às sugestões do inimigo e ofender a Deus. Embora nunca tivesse caído durante o passado, o perigo parecia-lhe iminente e conservava-a aterrorizada. Não esquecia nenhum meio de defesa: Cruz, relíquias dos Santos, escapulários, exorcismos, e, acima de tudo, recurso filial a Deus, a Maria Santíssima, ao Anjo da Guarda e ao diretor de sua alma. Escrevia-me: “Vinde depressa, Padre, ou ao menos daí fazei exorcismos, porque o demônio persegue-me por todos os modos; ajudai-me a salvar a alma, tenho medo de já estar nas mãos de satanás. Ah! Se soubésseis como sofro! Como ele estava contente esta noite! Agarrou-me pelos cabelos e puxava por eles dizendo: desobediência! desobediência! Quero concluir desta vez, vem, vem comigo! Queria levar-me para o inferno. Atormentou-me durante mais de quatro horas. Foi assim que se passou a noite. Tenho receio de o atender um dia ou outro e vir a desagradar a Jesus.”

Em algumas raríssimas ocasiões o Senhor permitiu ao demônio apoderar-se de todo o seu ser, ligar as potências da sua alma e perturbar-lhe a imaginação a tal ponto que se poderia julgar possessa. Causava dó vê-la neste estado miserável. Ela mesma tinha-lhe um tal horror que, só com lembrar-se dele, empalidecia e começava a tremer. “Ó Deus, dizia ela, estive no inferno sem Jesus, sem a divina Mãe, sem o Anjo! Se saí de lá sem pecado só a Vós o devo, ó Jesus. Apesar de tudo, estou contente, porque sofrendo assim e sofrendo sempre, faço a Vossa santíssima Vontade.” Se estes assaltos do demônio se tivessem repetido mais vastas vezes ou tivessem sido de mais longa duração, a pobre padecente, apesar de muito resignada, teria com certeza perdido a vida. A estas atribulações juntavam-se as dores de cruéis doenças, provocadas, como temos fortes razões para o crer, pelo próprio espírito infernal. E se refletirmos que Gema estava ao mesmo tempo miraculosamente associada a todos os tormentos sofridos pelo divino Redentor na Sua Paixão, teremos uma idéia da grandeza do martírio desta virgem heróica, que se tinha oferecido em holocausto ao Senhor.

3 de setembro de 2011

"Novo Pentecostes"




"Novo Pentecostes"
Gustavo Corção
  
É a última espetacular novidade religiosa que se espalha com grande sucesso no mundo inteiro. Num recorte recente de "Le Monde" lemos a notícia desse movimento cujo sucesso se contrapõe, na pena de Henri Fesquet, "ao declínio das grandes Igrejas" mais ou menos institucionalizadas. Esse movimento de origem protestante, nascido antes do século, cresceu agora rapidamente. O número de "Assembléias de Deus" que era de 264 em 1963 ultrapassa o número de 400 em 1972. Calcula-se em dez milhões o número de praticantes no mundo inteiro", diz "Le Monde"; e como era de esperar anuncia que o movimento já entusiasmou o mundo católico onde ganha o nome de "renovação carismática" e até reclama o mais ousado título de "novo pentecostes".
   
Em Junho reuniu-se na Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos, um "congresso de renovação carismática" com o comparecimento de 25.000 participantes entre os quais figuravam muitos padres, Bispos, e o Cardeal Suhenens, Primaz da Bélgica.
   
Que dizem de si mesmos esses católicos empenhados em tal movimento? Várias publicações, entre as quais destaco a do jovem casal americano Kevin e Dorothy Ranaghan, num livro traduzido em francês com o título "Le Retour de l'Esprit", apresentam o movimento pura e simplesmente como uma descontinuidade explosiva surgida na História do Cristianismo e produzida, nem mais nem menos, por uma nova descida do Espírito Santo sobre os milhares de adeptos que recebem, por imposição das mãos de outros, o "batismo do Espírito" e subitamente se convertem, mudam de vida, passam da mais profunda depressão à mais jubilosa exaltação, e começam a "falar em línguas", como os cristãos da Igreja nascente, e como os apóstolos no dia de Pentecostes (At 2, 1)
  
Uma as características do estado de espírito produzido nas assembléias carismáticas é a predominância da exteriorização sobre a interiorização, e a marcada emotividade que leva os adeptos a sentirem a presença do Espírito Santo, e a declararem essa convicção com uma espontaneidade — cada um contando sua experiência própria — que se liberta de qualquer compromisso de submissão à aprovação da Igreja.
  
Até aqui o nosso espanto não foi excessivo porque este fim de século e o mundo católico dito "progressista" já nos saturaram de extravagâncias, e já nos embotaram a manifestação do espanto. A nossa preocupação começou a ganhar dimensões de alarme quando vimos que o prudente hebdomadário "L'Homme Nouveau", dirigido por Marcel Clement, enviou 7 representantes ao Congresso de "renovação carismática" na Universidade Notre Dame, e que o próprio Marcel Clement, no seu editorial de 1o. de Julho, não hesita em falar de "novo Pentecostes" e de fazer este estranho pronunciamento:
   
"É uma realidade de Igreja. Equilibrada, serena, poderosa. Não se trata de misticismo exaltado. É verdadeiramente o Espírito Santo que os invade e os faz caminhar muito depressa até à única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo."
   
A nós nos parece que depressa demais pronunciou-se o Prof. Marcel Clement, como também nos parece incompreensível que se diga "cheminement très vite jusqu'à la seule et veritable Église de Jesus Christ" de pessoas já nela inseridas pelos sacramentos.
  
Prevemos o caminho de uma luta mais difícil do que as outras que até agora tivemos de enfrentar porque todos terão pressa excessiva de marcar pontos positivos num movimento em que os rapazes e as moças só dizem que querem rezar em "comunidade carismática", porque receberam do próprio Espírito Santo, num novo Pentecostes, dons maravilhosos que os tiraram dos mais profundos abismos e os elevam à mais pura alegria. Quem quererá cobrir-se do negrume de todas as antipatias para enfrentar tão maravilhosa transformação do mundo com um mínimo de reserva ou de exigência?
  
Para encaminhar adequadamente a questão, amigo leitor, começo por lhe lembrar alguns títulos que nos dão direitos a certas exigências. Somos um povo que há 2 mil anos segue a pista de um Deus flagelado; pertencemos à forte raça daqueles mártires que deram o sangue para testemunhar a verdadeira Religião e para resistir a todas as fraudes; descendemos também daqueles outros que silenciaram nos mosteiros os seus próprios sentimentos e as suas próprias emoções para deixar que só o Espírito de Deus falasse por eles. Pertencemos a um Povo ainda mais antigo que ouviu do próprio Deus o trovão de uma identidade absoluta:
  
"Eu sou aquele que sou", e o preceito da mais inquebrantável intolerância: "não terás outro deus diante de minha face".
  
Tudo isto, amigo leitor, nos inclina a uma profunda aversão por tudo que pareça equívoco, e que, em matéria de Religião, mais manifeste as turbulências da pobre alma humana torturada por um mundo encandecido do que as grandezas de Deus manifestas pelos Apóstolos no dia do único e verdadeiro Pentecostes.
  
Logo a seguir tentarei expor as razões que me levam a ver nesse movimento uma nova feição da "revolução" que quer por vários processos destruir a Igreja.
  
Aqui trago apenas os títulos que me dão o direito de exprimir tais reservas, e que me lembram o dever de as exprimir. Pecador e inútil servidor, pertenço todavia àquela raça exigente. Sou homem de Igreja que só quer nela viver e nela morrer.
  
Para comparar o movimento chamado "pentecostismo" com a Igreja de Jesus Cristo, comecemos por comparar a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, no dia de Pentecostes ao "novo pentecostes" que desce sobre cada um dos 25 mil membros do encontro realizado na Universidade Notre Dame (USA).
  
Há fenômenos semelhantes, como a "glossolalia" ou língua estranha falada pelos crentes do Cristianismo no primeiro século, pelos Apóstolos no dia de Pentecostes, e hoje pela multidão dos pentecostistas. Mas a semelhança termina quando ponderamos que Pentecostes foi, para a Igreja nascente, não uma explosão de manifestações espontâneas e multiplicadas, mas, ao contrário, um atingimento de maturidade e de esplendor de ordem. Foi mais uma cristalização eclesial do que uma explosão carismática. Diríamos até que esse grande dia da Confirmação da Igreja vinha pôr termo à anarquia ou à dispersão informe dos primeiros tempos. Assinalemos que, em Pentecostes, com a evidência das línguas de fogo, a descida do Espírito Santo se fazia sobre a Hierarquia para bem marcar o caráter da Igreja Católica. E as "línguas" que também os Apóstolos nesse dia falaram, usando o dom das línguas que S. Paulo não reprova mas não estimula? Ora, esse ponto de semelhança é na verdade um ponto de oposição porque, enquanto os "pentecostistas" de hoje falam línguas que ninguém entende, nem eles mesmos, os Apóstolos falavam uma "língua que todos os vários estrangeiros presentes ouviram e entenderam como a própria". Torna-se evidente que o Espírito Santo, nesse dia, usou o mesmo dom para exprimir a "unidade de língua" da Igreja e a sua destinação universal. Formalmente, essa "unidade de língua" significa "unidade de doutrina", mas também pode significar a real unidade de língua que a Igreja teria quando recebesse seu o cunho Romano e portanto latino.
  
Vê-se assim que o "novo pentecostes" é dispersador quando o verdadeiro Pentecostes foi congraçador; que o moderno fenômeno é anarquista onde o autêntico é ordenador e hierárquico; que o moderno fenômeno se traduz em manifestações emotivas diversas e mais ou menos chocantes, enquanto o verdadeiro Pentecostes se arremata por um discurso de Pedro que imprime ao mistério pentecostal todo o seu sentido de unidade eclesial. É especialmente digno de nota o arremate do discurso de Pedro e do capítulo II dos "Atos".
  
Vale a pena comparar esses textos sagrados com a narração de Irling Shelton, uma das representantes de "L'Homme Nouveau" no congresso de Notre Dame:
  
"A oração perde seu ritualismo, seu formalismo, sua rotina." (Por que rotina?) Sem rejeitar completamente a oração ritual (...) a tônica é posta na espontaneidade (...)  "a expressão dessa efusão anterior pode então se acompanhar de movimentos da sensibilidade. Cantam, riem, choram, batem as mãos, prosternam-se no chão ou elevam os braços (...) Essas manifestações incontroladas da emotividade podem degenerar em atitudes grotescas e até em histeria de grupo. Mas quando o líder (?) controla bem seu grupo de orações, e sua emotividade, as manifestações sensíveis da efusão do Espírito poderão aquecer os corações e servir de edificação para todos".
  
Chamo a atenção do leitor católico alfabetizado na boa doutrina para a sem-cerimônia com que a autora dessas linhas atribui tais efusões ao Espírito, em vez de atribuí-las à Carne que costuma opor às obras do Espírito esse tipo de exteriorização. Na sadia espiritualidade traçada na Igreja pelos santos doutores aprendemos que os dons do Espírito Santo são recebidos por todos desde o seu batismo, e sabemos também que a espontaneidade sobrenatural é o chamado "modo dos dons" que opera nas almas longamente trabalhadas, arduamente purgadas. Há uma espontaneidade animal, sensível que precede a maturidade e a espiritualização. Qualquer criança a possui. Mas a espontaneidade dos dons é uma longa conquista que só os grandes santos atingem através da noite dos sentidos e da subida do Carmelo.
  
Estas poucas considerações tecidas no plano da teologia mística servem para mostrar que não há nada mais diverso e distante da verdadeira espontaneidade dos santos do que essa dos novos carismáticos.
  
Essas e outras notas do movimento chamado "Pentecostismo" mostram, a quem conheça os rudimentos da sagrada doutrina, que se trata de mais uma subversão contra a Igreja, disfarçada na falsa sublimidade de manifestações temerariamente atribuídas ao Espírito Santo. Explicam-se talvez pela extrema miséria a que chegou esta infortunada geração condenada às oscilações vertiginosas que vão da mais profunda depressão à mais delirante exaltação. Dá pena. Sim, dá-nos uma imensa tristeza esse quadro — mais esse! — de uma geração que se precipita na degradação dos mais altos dons naturais e sobrenaturais com uma espécie de irresponsabilidade, de subinocência que nos leva à vertiginosa indagação sobre a origem desse mal. Quem será então o culpado do rapto de crianças? Quem serão os culpados da perversão de toda essa geração dos que já não sabem de que espírito são? Deverei procurar entranhas de misericórdia para não ver culpas nos erros e nas quedas? Não seriam antes entranhas de indiferença que de bondade?
  
Ah! Se pudéssemos deixar os "pentecostistas" fazerem a grande antepenúltima asneira do século! Se pudéssemos apenas suspirar e lamentar o misterioso consentimento divino! O dia correria mais doce e o crepúsculo da vida teria a suavidade das tardes em que o Céu e a Terra parecem festejar o feliz amadurecimento de um dia do mundo. Mas que contas prestaria eu a Quem me pôs esta pena na mão e esse papel estendido sobre a mesa?
 
(Revista "Resistência", 15 de Janeiro de 1974)  
Fonte: Permanência

2 de setembro de 2011

Santa Catarina: «Um querubim em hábito de mulher, ou um rosto de mulher com entendimento e asas de querubim»




LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
Sermão de Santa Catarina (1663),
de Padre António Vieira.




Quinque autem ex eis erant fatuae, et quinque prudentes (1).
 
 
I
A casa que edificou para si a Sabedoria: Sapientia aedificavit sibi domum (2), era aquela parte mais interior e mais sagrada do Templo de Salomão, chamada por outro nome Sancta Sanctorum. Levantavam-se no meio dela dois grandes querubins, cujo nome quer dizer sábios, e são entre todos os coros dos anjos os mais eminentes na sabedoria. Com as asas cobriam estes querubins a Arca do Testamento, e com as mãos sustentavam o propiciatório, que eram os tesouros e o assento da Sabedoria divina. A Arca era o tesouro da Sabedoria divina em letras, porque nela estavam encerradas as tábuas da lei, primeiro escritas, e depois ditadas por Deus; o propiciatório era o assento da mesma Sabedoria em voz, porque nele era consultado Deus, e respondia vocalmente, que por isso se chamava oráculo. As paredes de toda a casa em roda estavam ornadas com sete palmas, cujos troncos formavam outras tantas colunas, e os ramos de umas para as outras faziam naturalmente seis arcos, debaixo dos quais se viam em pé seis estátuas, também de querubins. Esta era a forma e o ornato da casa da Sabedoria, edificada por Salomão, porém traçada por Deus, e não se viam em toda ela mais que querubins e palmas, em que a mesma Sabedoria, como vencedora de tudo, ostentava seus troféus e triunfos. 

Mas se Deus naquele tempo se chamava Dominus exercituum, e se prezava de mandar sobre os exércitos e batalhas, e dar ou tirar as vitórias, parece que as estátuas colocadas debaixo de arcos triunfais de palmas não haviam de ser de querubins sábios, senão de capitães famosos. Não pareceria bem, debaixo do primeiro arco, a estátua de Abraão com a espada sacrificadora de seu próprio filho, vencendo a quatro reis só com os guardas das suas ovelhas? Não diria bem, debaixo do segundo arco, a estátua de Moisés com o bastão da vara prodigiosa, afogando no Mar Vermelho a Faraó, e triunfando de todo Egito? Não sairia bem, debaixo do terceiro arco, a estátua de Josué com o sol parado desfazendo o poder e geração dos gabaonitas, sem deixar homem à vida? Não avultaria bem, debaixo do quarto arco, a estátua de Gedeão com a tocha na mão esquerda e a trombeta na direita, metendo em confusão e ruína os exércitos inumeráveis de Madiã e Amalec? Não campearia bem, debaixo do quinto arco, a estátua de Sansão com o leão aos pés e a queixada do jumento na mão, matando a milhares dos filisteus? Finalmente, não fecharia esta famosa fileira a estátua de Davi com a funda e a pedra, derrubando o gigante e cortando-lhe a cabeça com a sua própria espada? Pois se estas seis estátuas famosas ornariam pomposamente a sala do Senhor dos exércitos, por que razão os arcos triunfais das palmas cobrem antes estátuas de querubins sábios, que de capitães valorosos? Porque é certo na estimação de Deus, ainda que alguns homens cuidem o contrário, que as vitórias da Sabedoria são muito mais gloriosas que as das armas, quanto vai das mãos à cabeça. Por isso quis o mesmo Deus que lhe edificasse a casa, não o pai, senão o filho, não Davi, o valente, senão Salomão, o sábio. 

Suposta esta verdade, que em toda a parte, e muito mais neste empório das letras, se deve supor sem controvérsia, acomodando-me à profissão do auditório e à celebridade do dia, só falarei de Santa Catarina hoje enquanto doutora e sábia. Lá diz Ezequiel que viu uma roda junto a um querubim: Rota una juxta cherub unum (Ez. 10,9). E que querubim é aquele, que tem a roda ao lado, senão Santa Catarina? Na casa da Sabedoria, a cada palma respondia um querubim; nesta, que também é da sabedoria, veremos um querubim com muitas palmas. O assunto pois do sermão serão as vitórias de Catarina, e o título: A sábia vencedora. Ave Maria.
 
 
II
O mais formoso teatro que nunca viu o mundo, a mais grave e ostentosa disputa que nunca ouviram as Academias, a mais rara e portentosa vitória que nunca alcançou da ignorância douta e presumida a verdadeira sabedoria, é a que hoje teve por defendente um querubim em hábito de mulher, ou um rosto de mulher com entendimento e asas de querubim, Santa Catarina. A aula, ou teatro desta famosa representação, foi o palácio imperial; os ouvintes e assistentes, o Imperador Maximino, o senado de Alexandria, e toda a corte e nobreza do Oriente; a questão, a da verdadeira divindade de um ou de muitos deuses, e a fé ou religião que deviam seguir os homens; os defendentes, de uma parte uma mulher de poucos anos, e da outra cinqüenta filósofos, escolhidos de todas as seitas e universidades; e a expectação da disputa e sucesso da controvérsia, igual nos ânimos de todos à grandeza de tão inaudito certame. Em primeiro lugar propuseram os filósofos inchados seus argumentos, aplaudidos e vitoriados de todo o teatro, e só da intrépida defendente recebidos com modesto riso. E depois que todos disseram quanto sabiam em defensa e autoridade dos deuses mortos e mudos, que eles chamavam imortais, então falou Catarina, por parte da divindade eterna e sem princípio, do Criador do céu e da terra e da humanidade do Verbo, tomada em tempo, para remédio do mundo. 

Falou Catarina, e foi tal o peso das suas razões, a sutileza do seu engenho e a eloqüência mais que humana com que orou e perorou, que não só desfez facilmente os fundamentos ou erros dos enganados filósofos, mas, redarguindo e convertendo contra eles seus próprios argumentos, os confundiu e convenceu com tal evidência, que sem haver entre eles quem se atrevesse a responder ou instar, todos confessaram a uma voz a verdade infalível da fé e religião cristã. E que faria com este sucesso Maximino, imperador empenhado e cruel? Afrontado de se ver vencido nos mesmos mestres da sua crença, de quem tinha fiado a honra e defensa dela, e enfurecido e fora de si, por ver publicamente demonstrada e conhecida a falsidade dos vãos e infames deuses, a quem atribuia o seu império, em lugar de seguir a luz e docilidade racional dos mesmos filósofos, com sentença bárbara e ímpia, mandou que ou sacrificassem logo aos ídolos, ou morressem todos a fogo. Todos, sem duvidar nem vacilar algum, aceitaram a morte por Cristo, não só constantemente, mas com grande alegria e júbilo, e na mesma hora, e do mesmo teatro onde tinham entrado filósofos, saíram teólogos, onde tinham entrado gentios, saíram cristãos, e onde tinham entrado idólatras, saíram mártires. Oh! vitória da fé a mais ilustre e ostentosa, que antes nem depois celebraram os séculos da Cristandade! Oh! triunfo de Catarina, não com duas palmas nas mãos, de virgem e mártir, mas com cinqüenta palmas aos pés de sutil, de angélica e de invencível doutora! Digna por esta inaudita façanha de que no mais alto do Monte Sinai, depois de ser trono do supremo legislador, as mesmas mãos, que escreveram as primeiras letras divinas, levantassem eterno troféu à memória das suas. 

Esta foi, senhores, a famosa ação, tão própria do dia como do lugar, sobre que determino discorrer neste breve espaço; e para ponderar os quilates dela nas circunstâncias mais particulares e relevantes de tão admirável vitória, me ofereceu o Evangelho as palavras que propus: Quinque autem ex eis erant fatuae, et quinque pruddentes (Mt. 25, 2). Eram as virgens, que saíram a receber o Esposo, dez, e destas dez, cinco sábias e cinco néscias. Sábias e néscias quando saíram: Exierunt obviam sponso et sponsae (3); sábias e néscias quando se detiveram: Moram autem faciente Sponso (4); sábias e néscias quando umas entraram às bodas e outras ficaram de fora: Et quae paratae erant, intraverunt cum eo ad nuptias, et clausa est janua (5). O em que agora reparo, é que sendo estas duas parelhas semelhantes no sexo, iguais no número e diferentes no entendimento; semelhantes no sexo, porque todas eram mulheres; iguais no número, porque eram cinco e cinco; diferentes no entendimento, porque umas foram sábias, outras néscias — nem todas estas néscias, nem parte, nem sequer uma delas, com a companhia, com o trato e com a conversação das sábias se emendasse e deixasse de ser néscia. Se todas as néscias aprendessem, e todas as sábias ensinassem a o ser, não parece demasiada maravilha de mulheres a mulheres, de cinco a cinco e de sábias a néscias, mas de mulheres a mulher, de cinco a uma, e de sábias a néscia, que nem esta uma e única se mudasse com a companhia, nem se emendasse com o trato, nem se convertesse com o exemplo? Assim foi, e assim costuma ser, sendo mais digno de admiração que as néscias não pervertessem a todas as sábias, que todas as sábias não converterem uma néscia. 

Passemos agora a Santa Catarina, e vejamos estas mesmas parelhas no sexo, no número e no entendimento, quão diversas foram na sua batalha, e quanto mais admiráveis na sua vitória. Lá o sexo era o mesmo, porque umas e outras eram mulheres; o número igual, porque umas e outras eram cinco; as armas e a força maior, porque umas eram sábias e outras néscias; porém, na batalha de Catarina com os filósofos, ela era uma, e eles cinqüenta; ela mulher, e eles homens; ela sábia, e eles sábios, que é muito mais forte e muito mais dificultosa oposição. E que uma mulher, ou menos que mulher, porque apenas chegara a dezoito anos, posta em campo contra tantos e tais homens, não só vencesse a um, nem a muitos, senão a todos, e os sujeitasse a defender com a vida a mesma fé que impugnavam, estas, digo, que foram as circunstâncias da sua vitória, que a fazem sobre toda a imaginação gloriosa. Vamos agora discorrendo e ponderando cada uma por si, e veremos quão singular foi em cada uma e em todas a nossa sábia vencedora.
 

1 de setembro de 2011

Ou Penitência ou... Purgatório



(PADRE ALEXANDRINO MONTEIRO, S. J. )


I. Acerbidade das penas do Purgatório

Ouvindo Santo Agostinho alguns de seu tempo dizer que, se escapassem do inferno, do Purgatório não tinham tanto medo, encheu-se de zelo e lhes fez ver o grande erro em que estavam, pois as penas do Purgatório superam tudo o que há de mais penoso neste mundo.

E com razão, porque o fogo que atormenta as almas do Purgatório é o mesmo que o fogo que atormenta os condenados no inferno, somente com exceção da eternidade. E assim é que a Santa Igreja não duvida chamar às penas do Purgatório penas infernais [na Liturgia dos defuntos].

O fogo do Purgatório é aceso por um sopro infernal, e é tão ativo que não se chama simplesmente fogo, mas espírito de fogo (Is 4, 4), e derreteria num instante um monte de bronze, mais facilmente que uma de nossas fornalhas devoraria uma palha seca. 

 Rohrbach, Autel des « Pauvres Âmes » du purgatoire, XVIIIe siècle.

Tem ainda este fogo, além da atividade natural, uma potência superior, que lhe dá Deus, para servir de instrumento ao Seu furor: .....................(Is 15, 41). 

Porém, diz o Senhor pelo profeta Zacarias, que Ele mesmo, mais que o fogo, purgará e limpará a alma eleita, ativando com Seu hálito as suas chamas: ............... (Zac 3, 9). 

E qual não será o tormento das almas benditas naquele cárcere por meses e anos! Podemos fazer dele uma [longínqua] idéia, considerando que: 

a) A alma, assim como é mais nobre que o corpo, é também mais capaz de sentir vivamente, seja a alegria, seja o sofrimento; 

b) A alma unida ao corpo, se sente dor, sente-a temperada pelo mesmo corpo, e como que dividida entre ambos, servindo-lhe o corpo de escudo e anteparo da dor. Mas no Purgatório, estando longe do corpo, recebe diretamente sobre si toda a força da dor; 

c) A alma unida ao corpo, se sofre no pé ou na mão ferida, não sofre na cabeça ou noutros membros sãos; mas no Purgatório, sendo indivisível e estando separada do corpo, é toda atingida pelas chamas. 

Além do fogo, é a alma, no Purgatório, atormentada por si mesma, pensando: 

a) Por quão ligeiras faltas está penando: por uma palavra inútil, por um olhar curioso, por uma intenção menos reta, que tão facilmente pudera evitar; 

b) Que, podendo durante a vida tão facilmente descontar a pena merecida por suas faltas com praticar algumas ações meritórias, não o fez; 

c) Que, deixando na terra filhos, amigos e herdeiros, que a deviam aliviar naquelas chamas, não o fazem, e só pensam em desfrutar dos bens que lhes deixou (Sl 30, 13). Com quanta razão se lamentará de não ter descontado os seus pecados, dando esmolas, e empregando em obras de caridade os bens que Deus lhe deu e que aumentou com tantos suores?

Sobre tudo isto, acresce o maior tormento do Purgatório, que é a privação da visão de Deus. 

São João Crisóstomo disse (Hom. 24 in c. 7 Mat.) que o inferno do inferno é estar o condenado privado para sempre da visão de Deus. Assim também se pode dizer que o Purgatório do Purgatório é estar uma alma por muito tempo longe da visão de Deus. As almas são, pois, atormentadas por dois verdadeiros e profundíssimos sentimentos: desejo e amor. 

O maior tormento de uma alma do Purgatório é desejar ir para Deus, e não poder. Esta pena é tanto maior, quanto maior é o conhecimento que lá a alma tem de Deus, pois, separada do corpo, conhece mais claramente a suma bondade de Deus, e se sente movida com maior força a ir para Ele, como a pedra para o seu centro. 


 Por isso, as suas maiores ânsias, no Purgatório, são suspiros pela visão beatífica, de que já sente a aproximação, mas que ainda não pode desfrutar. Clama ela, como o cego do Evangelho (Lc 18, 41): 'Senhor, que eu veja' essa luz da glória; que meus olhos desfrutem já da presença divina! Para chegar mais depressa à visão de Deus, esta alma preferiria que se lhe duplicasse o tormento do fogo, contanto que findasse o tormento do desejo de ver a Deus. 

Conta-se [por exemplo] de Rutília que, sabendo que seu filho fõra condenado ao desterro para terras longínquas, se desterrou também, para não padecer, longe dele, o tormento da saudade. 

Mas muito maior que o desejo, é o tormento do amor. 

Três são os amores que atormentam as almas do Purgatório: 

a) O amor natural, pelo qual a alma, por uma inclinação inata, é atraída para Deus como a Seu Criador, seu Princípio e último Fim, com maior ímpeto que a pedra propende para o centro da terra ou a chama para o ar; 

b) O amor sobrenatural, pelo qual, [sob a ação da Graça,] é a alma vivíssimamente atraída para Deus como seu sumo, único e eterno Bem; 

c) O amor de ardentíssima caridade, por saber que é esposa do divino Cordeiro, Jesus Cristo, destinada ao Reino Celestial, e, no entanto, vê que seu Esposo Divino lhe fecha a porta, e que seu amor é assim frustado. 

A todos estes tormentos se deve juntar a duração das penas, por meses, por anos e, talvez, até o fim do mundo. 

Hereges: os inimigos pessoais de São Jerônimo



(Papa Bento XV. Encíclica "Spiritus Paraclitus", de 15 de setembro de 1920, sobre São Jerônimo, Padre e Doutor da Igreja).

"Um zelo tão ardente em salvaguardar a integridade da Fé, atirava São  Jerônimo em veementíssimas polêmicas contra os filhos rebeldes da Igreja, que ele considerava seus inimigos pessoais: 'Ser-me-á suficiente responder [dizia ele] que jamais poupei os hereges e que empreguei todo o meu zelo em fazer dos inimigos da Igreja meus inimigos pessoais'. Em uma carta a Rufino ele escreveu: 'Há um ponto em que não poderei concordar contigo: poupar os hereges, não me mostrar católico'. (...) Sabemos com que vigor ele combatia os inimigos da Igreja. Aplaudindo seu jovem companheiro de armas, Agostinho, que sustentava os mesmos combates, e felicitando-o por haver com este atraído sobre si o furor dos hereges, Jerônimo lhe escreveu: 'Honra à tua bravura! O mundo inteiro tem os olhos postos sobre ti. Os católicos veneram e reconhecem em ti o restaurador da antiga fé, e, sinal ainda mais glorioso, todos os hereges te amaldiçoam e me perseguem contigo com um ódio igual, matando-nos pelos seus desejos, na impossibilidade nos imolar sob seus gládios'. Este testemunho se acha magnificamente confirmado por Postumiano, em Sulpício Severo: 'Uma luta de todos os instantes e um duelo ininterrupto com os maus concentravam sobre Jerônimo os ódios dos perversos. Nele, os hereges odeiam aquele que não cessa de os atacar; os clérigos, quem lhes recrimina a vida e os crimes. Mas todos os homens virtuosos, sem exceção, o amam e admiram'. Este ódio dos hereges e dos maus levou Jerônimo a suportar penosos sofrimentos, sobretudo quando os pelagianos se atiraram sobre o mosteiro de Belém e o saquearam; mas ele suportou com equanimidade todos os maus tratos e todas as injúrias, disposto que estava a morrer pela defesa da Fé cristã".